Histórias do Exílio

Histórias do Exílio: "Sabiam que nunca mais podiam voltar"

É apresentado esta quinta em Lisboa o livro "Exílios - Testemunhos de exilados e desertores portugueses na Europa (1961-1974)". A TSF ouviu o testemunho de quem ajudou muitos a passar a fronteira.

Em 1963, Maria Irene Martins tinha um irmão nas Forças Armadas e "um dos primeiros amores já tinha morrido" em combate. Nessa altura, foi procurada por uma colega da faculdade que lhe disse que "o namorado não queria ir para a guerra" e perguntou "se o podia levar até à fronteira. Acabámos por levar três rapazes até Hendaia. Foi a minha primeira ação com os desertores".

Maria Irene Martins diz que perdeu a conta ao número de portugueses que ajudou a fugir da guerra. Foram seguramente várias dezenas. A informação a que tinha acesso no local de trabalho foi uma preciosa ajuda. "Trabalhava no Ministério da Agricultura e as pessoas do campo diziam-me como faziam contrabando. Comecei a pensar que se eles podem passar animais e mercadorias nós também podemos passar".

Maria Irene Martins recorda que esses homens que fugiam da guerra tinham que pagar um preço muito elevado. "Um corte completo com as famílias. Sabiam que nunca mais podiam voltar".

No início dos anos 70, a PIDE começou a aproximar-se da rede que ajudava os desertores. Para evitar a prisão, Maria Irene Martins passou os últimos anos antes do 25 de abril em França. "Em 1973 fui embora porque muitos amigos já estavam presos. A PIDE estava furiosa e eu corria riscos".

Quando olha para o seu passado, Maria Irene Martins sente que à sua maneira colaborou "com o fim da guerra e da ditadura". Diz que sente orgulho por ter ajudado dezenas de portugueses a fugir da guerra.

"Exílios - Testemunhos de exilados e desertores portugueses na Europa (1961-1974)" é apresentado esta quinta-feira na Associação José Afonso, em Lisboa, e na sexta-feira no Porto, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

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