Sociedade

Homofobia e Transfobia na primeira pessoa

17 de maio é o Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia. Andi Pereira e Nuno Moreira contam, na TSF, o que significa para eles esta data.

Um estudo revelado esta semana revela que Portugal é um dos países que melhor protege juridicamente a comunidade gay, lésbica e bissexual. Mas, em termos sociais, de que forma o preconceito se faz sentir? Existe? De que forma? Para procurar resposta a estas perguntas, a TSF conversou com um transexual e um homossexual. Nuno e Andi, respetivamente.

Andi Pereira foi vítima de si próprio. Durante anos foi vítima do silêncio a que se impôs. A descoberta da homossexualidade ocorreu cedo, mas a vida esteve suspensa até aos 40. "Eu tenho '12 anos'. Estou na puberdade. Durante 30 anos vivi escondido".

A autocensura começou na infância, quando a avó descobriu Andi com um rapaz em brincadeiras que considerava pouco próprias para crianças de oito anos. A mãe bateu-lhe e a partir daí, a homossexualidade foi um tema tabu até à idade adulta. Andi refugiou-se na música para sobreviver. Estudou afincadamente, até à exaustão. Não tinha vida pessoal, nem social. A pressão foi tanta que só viu uma saída. Ir para um seminário. "Foi um suicídio de espírito. Vivi numa sepultura".

A repressão que infligia a si próprio estava prestes a terminar, quando encaminhou um amigo para um psicanalista. O médico acabaria por o confrontar com o seu problema. Foi quando Andi assumiu pela primeira vez, em voz alta, "sou gay".

A partir daqui, as mudanças na vida de Andi sucedem-se. Casa-se, abandona a carreira de maestro e o Brasil. Vem morar para Portugal, país de origem do pai. Por cá dá aulas no 1º ciclo. Aos 52 anos garante que nunca foi vítima de preconceitos e gestos negativos. Na escola, não foge às perguntas dos alunos sobre a sua vida pessoal e hoje, o Dia Internacional Contra a Homofobia, é tema obrigatório, porque esta não é uma data qualquer.

Com Nuno Moreira, o preconceito tem sido uma constante na sua vida. Sonhava que um dia acordaria rapaz. Os pais nunca o impediram de vestir-se e agir como menino, na pele de menina. O desencontro entre o corpo e a mente levou-o à automutilação. No fim da adolescência procurou ajuda nos serviços de saúde, com o apoio da mãe. Deparou-se com desconhecimento e nada mais. Até ao dia em que um programa de televisão prendeu a sua atenção.

A primeira consulta nos hospitais de Coimbra foi um, de muitos dias memoráveis para Nuno. "Tinha 21 anos, foi no 11 de setembro. Quando o mundo estava em choque, eu via uma luz ao fundo do túnel".

A maratona de cirurgias para a mudança de sexo, mais de vinte, nunca abalou a vontade e a confiança de Nuno. O primeiro documento que alterou com a nova identidade foi outro episódio marcante. Teve de ir à então Direção-Geral de Viação para alterar o nome na carta de condução. "Queriam que eu tirasse a carta outra vez, porque era outra pessoa".

No seu trabalho, a transfobia é descarada, conta Nuno Moreira, que acrescenta que ignorar pode ser o caminho mais difícil, mas é, o mais adequado, quando se depara com atitudes negativas.

Os gestos preconceituosos já provocaram mágoa e lágrimas, mas Nuno prefere ver o lado positivo da sua vida. Como o casamento com a amiga de longa data, resultado de uma relação que começou, faz hoje, dezoito anos. Têm dois filhos. Primeiro recorreram à adoção, depois ao banco público de dadores. Mais uma vez viu-se confrontado com um episódio de memória infeliz. " A médica disse à minha mulher que se tivesse casado com um homem não precisava de estar ali. Não queria discutir o sexo dos anjos. Levou o caso à Comissão Nacional de Ética". Nuno Moreira diz que, apesar de tudo, é um homem feliz. O corpo e a mente estão em sintonia.

Nuno Moreira e Andi Pereira frequentam o Centro Gis, em Matosinhos, que foi inaugurado oficialmente há cerca de três meses. O espaço onde é prestado apoio psicológico e jurídico à comunidade LGBT é coordenado por Paula Allen. A psicóloga, entrevistada pela TSF, faz um balanço muito positivo deste arranque de atividade. "Já ajudamos vinte pessoas". O Centro Gis, acrescenta, "veio destapar necessidades que não tinham resposta anteriormente".

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