Dia dos Namorados

"It's a match!" O amor de hoje não escolhe sítio... nem site

Nas redes sociais ou nas plataformas de encontros, o amor começa cada vez mais através da internet. Mariana, Carla e Nuno ajudam-nos a perceber o fenómeno das novas relações, a forma como é possível entregarmo-nos a alguém que ainda não conhecemos, e como uma relação virtual pode ser para toda a vida (real).

O amor dos nossos dias começa muitas vezes com um ecrã pelo meio. O computador ou o telemóvel são, cada vez mais, as primeiras testemunhas de uma relação. E na internet, como na vida, há quem procure relações sérias, mas também encontros esporádicos ou com intuitos sexuais. É assim online, mas também no dia a dia.

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A sexóloga Vânia Beliz acredita que devemos olhar para estas novas relações com naturalidade. A especialista considera que estamos perante uma "mudança na forma como comunicamos", mas vê a internet, as redes sociais e as plataformas de encontros como uma "oportunidade" e uma "forma facilitadora de nos aproximarmos dos outros". Porém, não há como negar, há cuidados a ter.

Na era das tecnologias e das comunicações fáceis e imediatas, podemos dizer que foi muito fácil encontrar pessoas que começaram relacionamentos online. Já não foi tão fácil que quisessem falar ou dar a cara. O tabu, esse sim, é um dos obstáculos que falta ultrapassar neste tema.

Mariana Santos [nome fictício], Carla [apenas o primeiro nome a pedido da própria] e Nuno Gouveia começaram relações na internet. As duas primeiras através do Tinder, mais recentemente, e o último através do Chat Blá Blá, em 2004. Todos consideraram que a experiência foi positiva, nomeadamente por lhes ter mostrado que a internet é apenas mais uma forma, como tantas outras, de procurar o amor.

O perigo escondido no ecrã

O tema dos perigos deste tipo de relacionamentos na internet é incontornável para quem viveu esta realidade. Todos têm consciência de que há pessoas com más intenções, mas veem-no como algo que também pode acontecer na vida offline.

Vânia Beliz explica que nas redes sociais e plataformas de encontros "é muito fácil fantasiar com uma coisa que não existe fisicamente" e há muitas pessoas que as usam "simplesmente com o objetivo de procurar novidade, excitação e é preciso ter atenção quando entramos neste tipo de jogo".

Apesar de ter a certeza que há quem procure apenas sexo, a sexóloga explica que é preciso haver sinceridade para que a pessoa que está do outro lado do ecrã saiba com o que contar.

A sexóloga ouvida pela TSF explica que há dois lados de uma mesma história. "Por um lado, estas plataformas permitem que as pessoas acabem por proteger a sua individualidade e vão-se dando a conhecer à medida que encontram espaço para isso", mas é preciso "cuidados" acrescidos. É importante que as pessoas "não se exponham demasiado sem ter algumas garantias de segurança do outro lado".

"As pessoas acabam por confidenciar demasiadas coisas a pessoas que não conhecem de lado nenhum e muitas das vezes até criam falsas sensações de proximidade e sentimentos que depois não são reais", conta a especialista.

Por outro lado, Vânia Beliz tenta desmistificar a ideia de que tudo é um problema. "Quando me dizem que na internet é tudo perigoso e que as pessoas não se deviam conhecer desta forma, eu convido as pessoas a pensar: 'e quando conhecemos uma pessoa numa discoteca, num supermercado, na praia?'... muitas das vezes não conhecemos absolutamente nada sobre elas", realça Vânia Beleza.

"O Tinder acaba por ser um detalhe"

Mariana Santos tem 26 anos e deu os primeiros passos de um namoro na aplicação Tinder. Numa altura em que tinha suspendido os estudos e regressado a casa dos pais devido a um problema de saúde, a "curiosidade" levou-a a instalar a app. Admite que não achava muita piada ao Tinder, que até tinha "um bocado de preconceito", principalmente pelo facto de a fama a plataforma ser "muito pelo sexo fácil".

Não demorou até mudar de opinião. Apesar de as fotografias que aparecem na aplicação e que levam, ou não, ao dito match, a "má impressão" transformou-se numa outra forma de ver o Tinder: "A verdade é que mesmo quando saímos à rua a primeira impressão das pessoas resulta daquilo que vemos", realça.

Assim, começou a falar com algumas pessoas. A conversa com aquele que viria a ser seu namorado fluiu de forma natural, recorda, e seguiu-se o primeiro encontro frente a frente. Mariana lembra-se que existiu sempre respeito e que a relação foi crescendo até se tornar um namoro assumido. Durou dois anos e meio e "acabou porque tinha de acabar", não devido à forma como começou, garante.

"O Tinder acaba por ser um detalhe, uma relação constrói-se e trabalha-se e não é por começar no Tinder ou no metro que as coisas vão ser mais fáceis. Funciona enquanto as duas pessoas estiverem dispostas a fazê-la funcionar", assegura, acrescentando que a sua relação "é a prova que pessoas boas ou más, altas ou baixas, com boas ou más intenções estão em todo o lado".

Uma "brincadeira" que se tornou bem séria

No caso de Carla [apenas o primeiro nome a pedido da própria], professora, a "brincadeira" de instalar o Tinder permitiu-a reconhecer uma das pessoas com quem se tinha cruzado na aplicação numa discoteca.

Tudo começou com um match mas acabaram por nunca se encontrar frente a frente. "Não chegámos a combinar nenhum encontro porque tínhamos sempre alguma coisa combinada quando um ou outro podia e a conversa nunca desenrolou muito. Passado um mês ou outro deixámos de falar", conta.

Carla reconheceu o atual namorado numa saída à noite, falaram e começaram a construir uma relação que já tinha uma bagagem online. "Já tínhamos conversado sobre alguns temas e a conversa fluiu mais facilmente, mas foi um bocadinho esquisito", admite. Apesar disso, o relacionamento foi crescendo e começaram a namorar algum tempo depois.

O casal, que se conheceu em 2017, já tem uma filha e fala numa "feliz coincidência". Apesar de entender os medos das pessoas que começam relações no Tinder, Carla garante que não tem receios que o companheiro volte a procurar relações online.

"Oito meses de conversa no chat"

As relações na internet não são (só) coisas de agora. Nuno Gouveia conheceu a mulher, Isabel Gouveia, em 2004, no Chat Blá Blá. A "curiosidade" e os amigos levaram-no a inscrever-se no site mas ficava apenas a assistir às conversas. Até que uma pessoa iniciou uma conversa consigo.

Foram oito meses, sim, oito meses de conversas sem fim. Dias e dias com hora marcada. Falaram "sobre tudo" e, mesmo sem nunca abordarem a questão da relação, chegavam a chatear-se com alguns assuntos ou atitudes. "Vou confessar que mesmo sem nos conhecermos chateávamo-nos, zangávamo-nos, o tipo de coisas mínimas já era motivo para birra", conta entre risos.

Passar do online para a vida real foi "engraçado". Nuno recorda-se que apenas tinha uma fotografia de Isabel "com a cara de lado" e a ânsia em conhecê-la crescia a cada dia. Aproveitou umas férias de Isabel em Vila Nova de Mil Fontes e foi ter com ela.

"Quando a vi a chegar ao pé de mim foi uma coisa... não há explicação, nós demos um abraço, um abraço um ao outro e ficámos mesmo muito contentes de nos vermos", recorda.

Seguiu-se um beijo logo no primeiro encontro e uma vida lado a lado. Já lá vão alguns de namoro e 11 anos de casamento. Uma vida que começou na internet mas ultrapassou todas as barreiras da vida real.

Um tema ainda tabu

Mariana, Carla e Nuno estão de acordo no que toca ao tabu sobre os relacionamentos online, e são acompanhados pela especialista Vânia Beliz.

"Existe um tabu e até um apontar de dedo, e as pessoas têm vergonha de dizer que se conheceram na internet. Como se a internet fosse algo errado e promíscuo e não tem de ser assim", alerta a especialista, frisando que esta "é só mais uma forma de nos conectarmos e de nos relacionarmos de forma diferente".

Carla conta que as amigas ficaram "um bocadinho apreensivas" quando souberam que tinha conhecido um homem na internet. "Disseram que não tinha pernas para andar porque há o estigma de que quem se conhece pela internet só quer ter casos ou não quer ter relações", conta.

A professora acredita "piamente" que existe um tabu. "Quando dizemos a alguém que conhecemos uma pessoa na internet dizem que quem anda na internet não quer relações, quer-se divertir e ter casos de uma noite. Ainda pensamos um bocadinho de forma mais retrógrada", admite.

Já Mariana Santos arrisca-se num "50/50". "Já é uma coisa que se vê muito [relações que começam online], mas também há muita gente que, por hipocrisia ou não, tende a torcer um bocadinho a cara porque não conhece a origem da pessoa, porque não é um contacto direto que se estabelece. Vai um bocado da crença de cada um", revelou.

Com ou sem tabu, os novos relacionamentos fazem parte das nossas vidas. Porém, a especialista Vânia Beliz alerta que "temos de preservar o contacto físico entre as pessoas". "Isto é um facilitador, as coisas funcionam de forma diferente, acho que são mais rápidas, temos mais coragem, estamos mais desinibidos quando estamos atrás de um ecrã", mas é preciso cuidado com quem está do outro lado da conversa.

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