Chegaram, entrevistaram os candidatos e deixaram António Costa embaraçado

Jovens entraram no jantar-comício do PS identificando-se como estudantes de jornalismo e fizeram entrevistas aos candidatos socialistas às eleições Europeias.

Dois dos jovens ambientalistas que interromperam o discurso de António Costa no jantar comemorativo do 46.º aniversário do PS, na segunda-feira, fizeram antes do incidente breves entrevistas aos candidatos socialistas às europeias Margarida Marques e Carlos Zorrinho.

"Um rapaz com o gravador do telemóvel e uma rapariga com uma máquina fotográfica fizeram-me perguntas sobre o que defendia o PS em matéria de alterações climáticas. Com base no nosso manifesto, procurei demonstrar-lhes que era uma das nossas grandes prioridades", disse à agência Lusa Margarida Marques.

Idêntica entrevista, de acordo com a ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeus, terá sido também feita logo no início do jantar ao eurodeputado socialista Carlos Zorrinho.

Estes pedidos de entrevistas com candidatos socialistas ao Parlamento Europeu confirmam a versão da organização do PS, segundo a qual estes jovens ambientalistas do grupo "Extinction Rebellion", que protestaram contra a construção do aeroporto do Montijo, entraram no jantar de aniversário deste partido, no Centro de Congressos de Lisboa, identificando-se como estudantes de jornalismo.

Desobediência civil

No site do movimento "Extinction Rebellion" defende-se, entre os princípios do movimento, a ação direta não violenta e a desobediência civil como formas de contestação ao "colapso ambiental".

No jantar de aniversário do PS, o secretário-geral, António Costa, falou aos militantes do seu partido após os discursos do líder da FAUL (Federação da Área Urbana de Lisboa) do PS, Duarte Cordeiro, da secretária-geral da JS, Maria Begonha, e do presidente do PS, Carlos César, que duraram cerca de 30 minutos.

Durante este tempo que mediou o início do jantar-comício (às 20h45) e o começo do discurso de António Costa, os membros do grupo ecologista terão estado sempre perto do palco, junto das mesas onde se sentavam dirigentes históricos do PS, caso de Ferro Rodrigues ou de Jorge Sampaio, ministros e candidatos socialistas ao Parlamento Europeu.

Logo no segundo minuto da sua intervenção, António Costa foi interrompido por um jovem em protesto contra a construção do aeroporto do Montijo, enquanto outros lançavam aviões de papel e uma rapariga exibia um cartaz onde se lia "Mais aviões? Só a brincar".

A segurança atuou cerca de trinta segundos depois e o líder socialista retomou o seu discurso.

Vários dirigentes socialistas disseram à agência Lusa que, inicialmente, quando viram aviões de papel a planar junto à tribuna do orador, chegaram a pensar que se tratava de "uma coreografia original montada pela JS".

"Só me apercebi que era mesmo a sério, que era mesmo um incidente, quando vi o rapaz pegar no microfone do secretário-geral", contou uma das deputadas do PS que se sentou numa das mesas centrais do jantar.

Para vários dirigentes socialistas contactados pela agência Lusa, neste episódio "houve uma falha de segurança", num evento em que o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, esteve presente enquanto militante socialista.

Ainda em relação à forma como atuaram os jovens do movimento ecologista, Margarida Marques afirmou à agência Lusa que não desconfiou que a entrevista que lhe pediram fosse possivelmente fictícia, apenas para disfarçar a posterior ação mediática junto de António Costa.

"Se são ambientalistas e estão realmente empenhados na defesa de algumas causas, acho muito bem. Se há outros movimentos que os incentivam ou manipulam, isso já me deixa muito preocupada", declarou a ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeu e 'número quatro' da lista europeia socialista.

Ativistas admitem mais ações

Um dos coordenadores dos ativistas do Extinction Rebellion Portugal admitiu hoje à Lusa que ações como a que interrompeu o discurso do primeiro-ministro, na segunda-feira, podem repetir-se "a qualquer momento".

Em entrevista à agência Lusa, Sinan Eden explicou que o movimento internacional "é aberto e, por isso, quem se identifica com os princípios e reivindicações pode agir em nome do "Extinction Rebellion".

Apesar de ser um dos coordenadores do movimento, Sinan Eden disse não ter "conhecimento dos próximos passos" dos ativistas, alertando que "podem surgir espontaneamente a qualquer momento".

"Uma rebelião internacional não-violenta contra os governos do mundo por causa da inação criminal sobre a crise ecológica" é o que tem movido milhares de pessoas em todo o mundo, com destaque para o Reino Unido e a França. Portugal também aderiu ao movimento e participou na "Semana Internacional de Rebelião".

O plano inicial era serem "sete dias, sete ações, sete temas", mas a "Semana Internacional de Rebelião em Portugal" prolongou-se no tempo e nas iniciativas, contou Sinan Eden.

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