Cérebro, mais vasto que o céu

Marcelo foi jogar à bola... com a mente

Este sábado, abre ao público a exposição "Cérebro - mais vasto que o céu". Uma viagem única e interativa, que explora a complexidade da mente humana. A TSF conheceu a exposição com o comissário Rui Oliveira, o neurologista Alexandre Castro Caldas e uma visita inesperada: o Presidente da República.

No princípio não havia cérebro. Hoje é um dos maiores mistérios da Humanidade. A investigação vai cada vez mais longe e todos os dias a ciência nos surpreende com dados novos, mas ainda há tanto para descobrir.

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O fascínio pela estrutura mais complexa conhecida até hoje estende-se ao público mais comum, os não-cientistas. E aqui o investigador Rui Oliveira encontrou um desafio, "explicar como uma estrutura complexa como o cérebro gera um fenómeno ainda mais complexo que é o funcionamento da nossa mente e tentar explicar isto de uma maneira que seja minimamente compreensível pelo público em geral."

"Cérebro - mais vasto que o céu", a exposição que inaugura na Fundação Calouste Gulbenkian, concretiza esta missão cruzando ciência e arte. O comissário adianta que a ideia não foi despejar factos. "Tentámos trazer uma série de componentes artísticas, que transforma a visita à nossa exposição numa experiência lúdica que leve o visitante a querer saber mais sobre o que está a observar e depois oferecemos também um conjunto de peças interativas que permite às pessoas experienciar a atividade dos seus próprios cérebros."

São muitas as experiências que permitem explorar a complexidade do cérebro. Através de sensores colocados na cabeça, por exemplo, a atividade cerebral dos visitantes pode transformar-se em música ou permite marcar um golo num jogo de futebol mental. Um impressionante neurónio de 12 metros pendurado no teto reage ao movimento, como sinapses reais. Mas há também o fóssil de um cérebro com 500 milhões de anos e obras de arte sobre o cérebro - Rui Oliveira acredita que é possível a chegar a públicos diferentes e surpreendê-los, mesmo neurocientistas.

A pensar nisso mesmo, a TSF convidou o comissário da exposição a fazer uma visita guiada ao Professor Alexandre Castro Caldas, especialista em neurologia e diretor do Instituto de Ciências de Saúde da Universidade Católica. Acabou por aparecer um visitante surpresa.

Um derby mental

A visita não estava prevista, mas o Presidente da República não aguentou a curiosidade e aproveitou um buraco na agenda para espreitar a exposição um dia antes de inaugurar. Conduzido pelo comissário da exposição e acompanhado pelo Professor Castro Caldas, Marcelo Rebelo de Sousa fez perguntas, explorou cada canto e quis testar tudo. Desde logo, a orquestra de cérebros, onde ficou provada a capacidade de abstração e descontração do presidente.

Para esta experiência, os visitantes têm de colocar uma fita com sensores na cabeça. Esses sensores captam a atividade cerebral e transformam-na em sons e em cores, que surgem em ecrãs gigantes.

"Como fiz meditação transcendental e ioga, fiz um esforço de abstração; cada vez que aumenta esse esforço, aparece a mancha verde", regista Marcelo Rebelo de Sousa. Rui Oliveira explica que as cores correspondem a diferentes ondas que são depois transformadas em música numa pauta criada pelo compositor Rodrigo Leão, que compôs também a música que acompanha a instalação de vídeo de Greg Dunn que abre a exposição.

"Se o senhor Presidente tem experiência em meditação, temos ali um jogo de futebol mental". Desafio aceite, para um confronto com o Professor Alexandre Castro Caldas. Os dois jogadores colocam-se frente a frente, uma vez mais com sensores na cabeça. "É um tipo específico de onda cerebral, mais característica de estados meditativos, que faz mexer a bola", explica Rui Oliveira.

O Presidente avançou mais, mas não o suficiente para marcar golo. "Estou perante um especialista!"

O derby termina em empate, mas a exposição foi aprovada pelo Presidente da República, que quer ver as crianças das escolas a visitar a exposição. "Podia passar aqui horas! É fascinante", confessa.

Bem impressionado, sai também Alexandre Castro Caldas. "A exposição está fantástica, sobretudo esta ideia de tornar o cérebro um assunto que ultrapassa largamente a Biologia é como devemos olhar para ele neste momento. A única coisa que, neste momento, limita a investigação provavelmente é a discussão ética sobre o que se está a fazer com os cérebros. Os instrumentos são cada vez mais fantásticos para entrar pelas várias áreas, temos hoje um conhecimento fantástico, todas as semanas aprendo coisas novas."

O fascínio de quem estuda o cérebro e que aqui encontra uma forma de passar esse entusiasmo às gerações mais novas. "Os miúdos, quando vierem aqui, vão ficar cheios de vontade de aprender estas coisas. Qualquer miúdo que tenha curiosidade vai ficar fascinado com o que vir aqui". Pode nascer aqui uma vaga de futuros neurocientistas, avisa.

O cérebro fotogénico, neurónios gigantes e robôs artistas

Logo na primeira sala da exposição, uma instalação de vídeo do neurocientista americano Greg Dunn, ao som de uma banda sonora composta por Rodrigo Leão, mostra-nos imagens do cérebro, uma explosão de cores e movimentos. O lado estético do cérebro também atrai os cientistas. "O cérebro proporciona imagens de grande beleza, há inclusive muitas microfotografias de neurónios que são verdadeiras obras de arte e, de facto, o cérebro que é o órgão que no fundo nos permite ter essa experiência estética do mundo, ele próprio é muito fotogénico", garante Rui Oliveira.

Em toda a exposição, há neurónios em três dimensões, representações virtuais do movimento cerebral, mistura de arte e ciência. No teto, a escultura gigante que representa um neurónio fascina com as suas sinapses luminosas.

E se é de arte que falamos, os visitantes podem também ver os robôs artistas de Leonel Moura em ação. Têm a forma de pequenos carros telecomandados que, em cima de uma grande tela, vão andando e pintando. "Ao contrário do que a maioria dos artistas quer fazer, que é controlar muito a sua obra, optei por criar robôs capazes de fazer a sua própria obra", explica Leonel Moura, "até aqui falava-se só da inteligência das máquinas e eu, com o trabalho que desenvolvo há 20 anos, comecei a dizer que as máquinas também podem ser artistas."

O artista garante que aqui, as obras são assinadas pelos robôs. "Só criei os robôs. A partir daí, são eles que fazem. Mesmo os algoritmos que uso, dão o máximo de decisão às máquinas. A partir dos sensores, eles veem o que estão a fazer e em cada momento tomam decisões."

O cérebro é, de facto, mais vasto que o céu.

A exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, abre ao público este sábado, 16 de março, com bilhetes a 5 euros e entrada gratuita aos domingos a partir das 14h. Há visitas orientadas para escolas e uma programação complementar de conversas sobre o cérebro com convidados como o artista e neurocientista Greg Dunn, o artista Leonel Moura, o escritor José Eduardo Agualusa ou o chef José Avilez. O ciclo encerra com o Professor António Damásio a 2 de junho. Consulte aqui o programa.

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