Reportagem TSF

"Monchique era a Sintra do Algarve. Agora é o quê? Cinzas!"

Nas "contas" do fogo, não se contabiliza só o que arde. Há dores mais cinzentas que o rasto que as chamas deixaram.

A poucos quilómetros da vila de Monchique, as necessidades básicas do dia a dia vão sendo repostas a conta gotas. Há quem tenha ficado sem água, luz e comunicações, e que agora tem que improvisar num modo de vida há muito esquecido.

Cristina Carvalho, que acaba de chegar a casa dos pais, teve que adiantar a vinda com a família que só estava prevista para a próxima semana. Vive em Estremoz, mas cresceu em Bemposta, uma pequena localidade antes de Alferce. Quando o fogo por ali passou, teve que acompanhar os acontecimentos à distância de quem está longe fisicamente, mas muito perto do coração.

Com a voz embargada vai fazendo um exercício de memória passada, mas que não tem grande prazer em recordar: "Eu nem sei como não queimei as televisões e os telefones, tal foi a forma como acompanhei, feita doida, tudo a par e passo".

A mãe, Teresa, que está logo ali ao lado, vai adiantando que a GNR veio buscá-los muito antes das chamas terem chegado. "Ainda tive tempo para pegar em duas mudas de roupa para mim e o meu marido, pegar nas fotografias que tanto estimo e fomos embora".

Seria o irmão, que vive em Portimão, quem viria em auxílio da casa dos pais e que não arredaria pé do lado dos bombeiros quando tudo parecia colapsar. "Dentro do azar, acabamos por ter alguma sorte pois ainda aqui estamos para contar a história. Os bombeiros estiveram sempre com um tanque de água ao lado da casa e só posso ter palavras de agradecimento para esses homens e mulheres", adianta Cristina.

Com a eletricidade já reposta, há ainda muito trabalho por fazer. Os telefones fixos não funcionam e os móveis só de quando em vez. Mas é a água que mais preocupa esta família. Compraram alguns metros de mangueira para conseguir ir buscar água a um "furo" e poderem ter uma vida, ainda que improvisada, mais normal.

A tarefa dos próximos dias já está delineada e todas as mãos são bem-vindas para ajudar. Voltar a ter uma visão otimista da vida não é fácil para quem foi atingido pelo fogo. No entanto, os dias têm que ser encarados com perseverança, na tentativa diária de renovar o ânimo.

"O meu pai tinha uns porquinhos que não resistiram, mas faço questão de lhe voltar a dar outro para se ir entretendo. Não podemos desistir e eu sei que isso é difícil para eles devido à idade que têm, mas essa é a minha missão."

Cristina emociona-se sempre que fala da sua terra e das memórias que carinhosamente guarda na lembrança. Não esquecerá nunca as árvores onde brincava quando era criança e que agora estão ardidas. Terá que adiar também a promessa que um dia fez às amigas: a de visitarem e sentirem o ar puro e verdejante da serra.

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