Morreu Daniel Serrão

Daniel Serrão morreu hoje de madrugada, aos 88 anos, vítima de problemas respiratórios decorrentes ainda de um atropelamento que sofreu há mais de dois anos.

O velório decorrerá este domingo na Igreja da Lapa, entre as 16h e as 20h, e o funeral realiza-se na segunda-feira pelas 09:45, saindo da mesma Igreja, disse à Lusa o filho Manuel Serrão.

A morte de Daniel Serrão decorre dos problemas de saúde, sobretudo de natureza respiratória, com que ficou desde que foi atropelado, há mais de dois anos, e dos quais "nunca mais recuperou", acrescentou.

Manuel Serrão manifestou ainda o desejo de que seja "respeitada a natureza provada dos atos fúnebres".

Professor catedrático e investigador reconhecido dentro e fora do país no âmbito da anatomia patológica, Daniel Serrão assumiu-se sempre como um eterno otimista, e um portuense por opção. "Hoje, todo o Porto é o meu lugar", dizia o homem que tinha voz própria no Vaticano.

Daniel dos Santos Pinto Serrão nasceu na freguesia de S. Dinis, em Vila Real a 1 de março de 1928. Viveu em diversas cidades do país, já que a família acompanhava o pai nas suas diversas "comissões de serviço" em diferentes distritos, enquanto engenheiro, diretor da Junta Autónoma das Estradas. Viveu a adolescência e iniciou os estudos liceais em Viana do Castelo, de onde transitou para o liceu de Coimbra. Mas foi na cidade de Aveiro que concluiu o curso geral dos liceus e o curso complementar de ciências com 18 valores, em 1945.

Licenciou-se em 1951 na Faculdade de Medicina do Porto, com 17 valores. No ano em que terminou o curso iniciou o serviço militar obrigatório, prestando serviços no Hospital Militar do Porto, onde se manteve até 1953. Doutorou-se em anatomopatologia com 19 valores, aos 31 anos, na Faculdade de Medicina do Porto, em 1959. Dois anos mais tarde prestou provas públicas para professor extraordinário de anatomia patológica, tendo sido aprovado por unanimidade. Em plena guerra colonial, de Outubro de 1967 a Novembro de 1969 esteve mobilizado no Hospital Militar de Luanda como anatomopatologista, terminando esta missão militar como major da guerra.

Em 1971 concorreu a professor catedrático, sendo, de novo, aprovado por unanimidade. Assumiu, de imediato, a direção do serviço académico e hospitalar de anatomia patológica, na Faculdade de Medicina do Porto. Com a revolução democrática de 1974 foi eleito pelos alunos da faculdade para o Conselho Pedagógico, mas rapidamente intrigas internas rotularam-no de cumplicidade com o regime deposto, sendo demitido de todas as funções em 1975. Um ano depois, por decisão da direita militar, foi reintegrado, retomando as funções hospitalares e académicas, recebendo todos os ordenados vencidos durante os 12 meses em que esteve impedido de exercer funções.

Do laboratório privado para a bioética

Quando foi saneado da faculdade, e porque tinha de sustentar a sua já numerosa família, Daniel Serrão montou o seu laboratório privado de anatomia patológica, prestando serviços quer ao setor público quer a entidades privadas. «Ganhei mais dinheiro depois de ter sido demitido do que em toda a minha vida anterior. Fiz um milhão e seiscentas mil análises. Se fossem todas pagas tinha ficado multimilionário», costumava dizer.

Entrou no ensino da bioética alguns anos depois de ter sido reintegrado como professor da faculdade. Foi convidado para lecionar aquela disciplina para suprir a ausência, por doença, da professora de Deontologia Profissional. Aceitou assumir aquela disciplina gratuitamente na condição de ser ele próprio a definir os conteúdos programáticos. A partir de então nunca deixou de investigar e aprofundar as temáticas da bioética, tornando-se numa voz autorizada e respeitada sobre a matéria. Viu reconhecidos os seus méritos nestas temáticas quando se tornou conselheiro do Papa, e passou a integrar, no Vaticano, a Academia Pontifícia para a Vida.

O trabalho de anatomopatologista, que consiste em fazer o diagnóstico de doenças através do exame microscópico de células e tecidos ou macroscópico das peças cirúrgicas, implica, segundo Daniel Serrão, que o profissional «tenha resolvido o seu problema pessoal com a morte»; (...) enquanto não fizer esse esforço é melhor não se aproximar de cadáver nenhum nem tentar fazer uma autópsia porque vai correr muito mal», afirmava numa entrevista concedida em 2012. Para Daniel Serrão a morte era entendida apenas como o reconhecimento de que a nossa forma física de estar no mundo tem uma duração temporal limitada.

Entre as milhares de autópsias que realizou esteve o primeiro caso de sida em Portugal, apesar de, na altura, a doença ainda não ser conhecida. «Identifiquei as lesões e disse que aquilo não cabia em nenhum quadro clínico conhecido», revelou, explicando que, pouco tempo depois, na América, se falou pela primeira vez no vírus. «Revi o caso e as lesões eram as típicas, nos gânglios e no fígado, mas já não adiantava nada. A esperteza é descobrir. Tenho pena de não ter publicado o caso mesmo sem diagnóstico, mas não tinha muito tempo», confessou publicamente. De resto, dizia sem explicar porquê, as autópsias dos casos mais "estranhos" foram feitas em Angola, entre 1967 e 1969, quando foi mobilizado para o Hospital Militar de Luanda.

A família como valor nuclear

Daniel Serrão sempre reservou um lugar especial para a família, que tinha para si um valor nuclear. Casou-se em 1958, com Maria do Rosário de Castro Valladares Souto, pouco depois de ter cumprido o serviço militar em Mafra. Conheceu a noiva, uma prima afastada e uma das primeiras professoras de educação física, quando ambos viviam no Porto, aliás bem perto um do outro. Quando partiu para Luanda, nove anos após o casamento, já o casal tinha seis filhos, quatro raparigas e dois rapazes. Por essa mesma altura, construíram a casa de família na Rua de S. Tomé, onde viveram toda a sua vida.

Daniel Serrão desempenhou os mais variados cargos e funções, nomeadamente no âmbito das suas áreas de especialidade na Ordem dos Médicos, quer no âmbito da Universidade do Porto. Representou Portugal, desde 1989, no Comité Diretor de Bioética. Foi presidente do Working Party on the Protection of the Hman Embryo and Foetus desde 1997, membro do Conselho Científico das Ciências da Saúde do Instituto Nacional de Investigação Científica, e presidente da Comissão de Fomento em Cuidados de Saúde, do Ministério da Saúde, desde 1991.

Publicou várias obras e dezenas de artigos científicos em revistas nacionais e internacionais da especialidade. É um dos autores mais citados no âmbito das suas investigações. Recebeu três vezes o Prémio Pfizer, Medalha de Mérito da Ordem dos Médicos, Prémio Nacional de Saúde, Medalha de Serviços Distintos do Ministério da Saúde (grau ouro), Medalha de Mérito Militar do Ministério da Defesa, Medalha de Ouro da Cidade do Porto, entre outros.

Fontes consultadas em dezembro de 2013: danielserraocom; saber.sapo.pt; wook.pt; correiodoporto.pt; wikipedia.org; infopedia.pt; kdfrases.com; apfn.com.pt; aeiou.pt; souafavordavida.blogspot.com; sigarra.up.pt)

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