Nenhum dos três filhos seguiu a política. Marques Mendes espera que a neta tenha o seu ADN

Podia ser um otimista, irritante, mas quer marcar a diferença e diz-se otimista, sempre tranquilo e bem-disposto. Só não teve 20 a latim porque, de vez em quando, chegava atrasado às aulas. A política é um vício para Luís Marques Mendes.

Foi secretário de Estado da Comunicação Social aos 28 anos, mais tarde líder parlamentar. Não chegou a primeiro-ministro, mas foi líder do PSD também. Ana Sofia é a filha do meio, a menina, hoje educadora de infância, que ainda ensaiou arquitetura, mas o jeito para as crianças vingou. Não será um acaso que a primeira neta de Luís Marques Mendes seja a primeira filha de Ana, Mafalda de seu nome. A menina que, na banda desenhada de Quino, diz dos próprios cabelos terem liberdade de expressão. É esse também o perfil de um comentador político?

É. Teresa, muito obrigado por esta oportunidade que, para mim, é histórica.

Então?

É histórico porque ao longo da minha vida pública eu já fiz um pouco de tudo. E, neste quadro da comunicação, já dei entrevistas. Já fiz debates. A dois, a três, a quatro. Agora nunca tinha feito uma entrevista em conjunto com alguém, e ainda por cima com uma filha, uma pessoa de família. É histórico, enriquece o meu currículo e eu agradeço-lhe a oportunidade.

Porque não é uma entrevista é uma conversa. Estamos só a conversar.

Exatamente. E torna as coisas muito mais agradáveis, e muito mais interessantes. Agora, respondendo à sua questão, relativamente à liberdade de expressão, sim, eu gosto de fazer comentário. Uns concordam, outros discordam, mas vê-se que eu tenho liberdade de expressão. Ou seja, que eu gosto de dizer aquilo que penso, de ser independente e, portanto, crio uns incómodos, hoje à direita, amanhã à esquerda, outras vezes ao centro. Mas acho que gosto de pensar pela minha cabeça. Umas vezes penso bem, outras vezes penso mal. Mas isso é próprio da vida. Acho que o que enriquece um bocadinho o comentário é uma pessoa poder ter liberdade de expressão, ter liberdade de pensamento, poder ser isento, ser independente. Porque senão é um tempo de antena. E um tempo de antena é uma maçada.

É uma missa.

É uma missa. É, sobretudo, um tempo perdido. Nessa altura eu não teria audiência e, nessa altura, a SIC já me teria despedido e, portanto, eu evito o mais possível fazer um tempo de antena. Para esse peditório já dei. Tive muito gosto em ter estado na vida política ativa, mas também já a deixei há uns 12 anos e não tenciono regressar. E, nesta matéria, sou como o meu querido amigo Dr. Fernando Nogueira, que a maior parte das pessoas já não se lembra, mas que foi ministro e líder do PSD, e que é um grande amigo meu.

E que vive perto de si.

Ao lado, mesmo. Somos vizinhos. Desde 1990 que vivemos lado a lado. As famílias são muito unidas. Os filhos dele são dos maiores amigos dos meus filhos. Eu fui secretário de Estado dele com muito gosto, com muita honra e, para mim, ele é sempre uma referência. E disse há pouco tempo numa entrevista - ele dá pouquíssimas entrevistas...

Desapareceu...

Desapareceu. Mas disse há pouco numa entrevista uma coisa que eu subscrevo totalmente. Ele disse: "Não me arrependo de ter estado na vida política, mas também não me arrependo de ter saído". Pois olhe, eu acho essa frase lapidar. Aplica-se exatamente a mim. Não me arrependo de ter estado, gostei imenso. Também não me arrependo de ter saído, porque gosto do que estou a fazer hoje.

Com a diferença de que o Dr. Fernando Nogueira saiu muito mais cedo que o Dr. Luís Marques Mendes.

Isso é apenas porque eu sou ligeiramente mais novo, porque ele teve também uma vida política intensa. Talvez tivesse um bocadinho menos anos do que eu, mas teve uma vida política intensa.

Talvez não tivesse o mesmo gosto. Não acha?

Não. Conheço-o bem. Acho que ele gosta muito da vida política. Ainda hoje. Eu vou-lhe dizer: a maior parte das pessoas não conhece este lado, mas o Fernando Nogueira é uma pessoa fantástica. Uma pessoa bem formada, pessoa de caráter, amigo do seu amigo. Para além deste lado humano fantástico, tem um outro lado que eu acho que talvez o país nunca se tenha apercebido, em plenitude.

Não teve tempo para isso.

Ele é, do ponto de vista do pensamento político, uma pessoa de uma qualidade invulgar. Invulgar. Pensa muito bem. Analisa muito bem. É muito culto. É muito bem preparado. Agora, muitas vezes teve, digamos assim, um pouco ofuscado como número dois e, portanto, as pessoas não notaram tanto, mas eu, que o conheço bem e sou amigo dele, e que tenho orgulho em ser amigo dele, acho que ele é humanamente uma pessoa muitíssimo bem formada e acho que politicamente é uma pessoa muito competente. Portanto, tudo isto para dizer o quê? Ele teve uma frase muito engraçada, não se arrependia de ter estado na vida política, não se arrependia de ter saído. Eu sou exatamente a mesma coisa. Estou feliz assim, desta forma. Agora, gosto de dar uns palpites, e portanto...faço todas as semanas uns comentários.

A Ana vê esta felicidade no seu pai quando o vê, agora, a fazer comentários?

Eu sempre vi esta felicidade. Agora é mais natural. Antigamente era mais contida. Muitas vezes falávamos com ele quando estava mesmo na vida política e percebíamos que metade da informação não estava sequer a entrar. Estava sempre a pensar noutras coisas. Agora está muito mais bem-disposto. Mesmo quando está nervoso, que ele diz que está, ao domingo, não se nota. E consegue estar genuinamente a brincar e a falar connosco. É uma pessoa muito mais despreocupada. Mas isto que o meu pai dizia da forma tranquila com que vê a entrada e saída da política, como se fosse um serviço público, foi giro porque, se calhar, nós filhos, sofremos mais. Houve uma altura, nas eleições - eu nunca sei os anos - em que o último dia de campanha foi no Porto. E eu estudava no Porto. Fui ter com o meu pai e viemos de avião para Lisboa. E eu ia no avião convencida que o meu pai tinha ganho. E o meu pai sabia que tinha perdido. E ia a escrever o discurso da derrota. Para mim foi um desgosto enorme quando cheguei e soube. Para o meu pai... ele encara estas coisas de forma natural e não fica chateado e amargurado. Nós é que sofríamos. O meu irmão mais velho também já comentou que houve umas alturas em que foi um desgosto enorme. Porque achamos, para nós, que o pai tem que ganhar sempre.

Porque o pai é o herói, sempre o herói.

Depois dessa experiência, criei uma ideia - e eu partilho muitas vezes isso. Pensei, a partir daqui, o meu pai nunca vai ganhar nada. Sempre pensei. É ótimo, eu sei que é ótimo, mas eu acho que ele não vai ganhar mais nada. Se acontecer alguma coisa boa vou sempre sendo surpreendida. Porque foi um desgosto muito grande. Eu achei que estava a ir de avião com o vencedor e não.

Estamos a falar do fim de 2007, de eleições internas. Eu tinha ido ao Norte, porque votava lá em cima, no Norte. A minha secção é Fafe. A Ana, na altura, estava a estudar no Porto e como era uma sexta-feira regressámos os dois de avião. A minha perspetiva era já um bocadinho de que iria perder. Agora todas as outras pessoas acham o contrário, mas isso é normal. Com tantos anos de vida política, habituei-me um bocadinho a tudo. Habituei-me a ganhar, habituei-me a perder. Ganhei várias vezes, perdi várias vezes. Nos primeiros momentos custa mais. Depois, mais tarde, uma pessoa vai-se habituando. Custa menos e temos de relativizar. Agora, reconheço que para as pessoas mais próximas de nós, designadamente a família, custa mais. É um bocadinho como as críticas. Uma pessoa no princípio fica muito indignado, muito incomodado com as críticas. Depois, com o tempo, vai-se habituando.

Cria imunidade?

Cria um bocadinho de imunidade. Mas eu habituei-me mesmo a achar as críticas naturais. E, muitas vezes mesmo, acho que várias críticas que tive foram justas. Uma pessoa tem que se habituar a isso. Desde que as críticas não sejam pessoais, ofensivas, insultuosas, fazem parte. Faz parte da vivência. Agora, evidentemente, que quem está na vida política fica com mais, como você dizia e bem... com mais imunidade, fica preparado. Quem está ao lado, mas não está dentro, sobretudo a família, sofre mais, incomoda-se mais, perturba-se mais, fica um pouco em stress, mas é a vida.

É só até ao primeiro choque, depois passa. Até porque nós não sofríamos muito. Nós não sofremos muito, também não víamos muita coisa. Por isso, é nestas coisas, quando houve realmente um papel importante, uma eleição... uma pessoa cria expectativas, já tinha ganho uma, não é?

Duas, até.

Duas. Por isso foi um choque. Porque ninguém nos preparou. Se calhar alguém nos devia ter preparado. Que eu ía mesmo convencida...

De qualquer forma, Dr. Luís Marques Mendes, já disse numa entrevista que a vida política lhe roubou um pedaço da vida dos seus filhos. Sobretudo dos dois mais velhos, e a Ana é uma deles, porque até aos 10 anos praticamente esteve muito ausente. E isso não se recupera. O que eu pergunto à Ana é se, com essa idade, até que ponto se sente a ausência.

Eu por acaso tenho uma ideia um bocadinho diferente. Esteve mais ausente comigo e com o João, que é o mais velho, mas a idade em que isso aconteceu - nós éramos mais novos - não é tão determinante. Porque mesmo quando os miúdos são mais pequeninos, um pai que chega a casa às sete da tarde já é um pai ausente. Nós sentíamos que quando estava connosco, estava mesmo. Ao fim de semana, nas férias. Era muito divertido. Ia sempre às festas da escola. De vez em quando fazia um esforço para nos ir buscar. E depois, como estava pouco tempo, sempre gostou de convidar pessoas para ir lá a casa em vez de jantar muito fora. Também jantava, mas convidava muito amigos, mesmo da política, para ir lá. E nós gostávamos. Quando éramos mais novos, às vezes era cansativo, mas fomo-nos habituando a estar à mesa, a ouvir histórias. Também não seguimos política, mas gostamos dessa parte.

Podíam meter a colher quando ouviam essas histórias?

Podíamos.

Sabe de quem é que os meus filhos sempre mais gostaram? De quem mais gostaram de ter em casa? Como a Ana diz, mesmo no tempo de trabalho, preferia ter pessoas da vida política a jantar lá em casa do que ir ao restaurante X, Y ou Z. E, portanto, passaram por minha casa muitas pessoas, mais conhecidas, menos conhecidas. Mas a pessoa - e tenho a certeza absoluta - que os meus filhos sempre adoraram, sabe que é? Marcelo Rebelo de Sousa. Não faz ideia nenhuma. Agora não fica surpresa porque hoje o país já sabe como é o professor Marcelo, não é? Mas estamos a falar de há 10, 15, 20 anos, quando eles eram pequeninos. Pequeninos. Os meus filhos adoravam o professor Marcelo há 20 anos, porque ele lhes prometia pranchas de bodyboard.

Uma vez prometeu. E depois eu cobrei e ele deu.

Depois de ser Presidente da República, as pessoas acham isto natural, conhecem-no: uma pessoa mexida, próxima, afetuosa. Mas há muitos anos, quando não era assim tão conhecido da opinião pública... Sou amigo dele há muitos anos, mas sobretudo conheço-o muito bem. Por isso é que eu digo muitas vezes nos comentários que ele hoje é Presidente como era como pessoa. Ele é genuíno, autêntico, daquela forma muito simples e afetuosa de lidar com as pessoas. Porque ele já era assim.

O Presidente Marcelo é o Marcelo Rebelo de Sousa?

É exatamente assim. Simples, afetuoso, brincalhão. A Ana está aqui, é melhor testemunha do que eu. Portanto, com 7 anos, 8 anos, 10 anos, os meus filhos adoravam o professor Marcelo que, na altura, ia lá muito a casa. Adoravam, adoravam as conversas ao telefone com ele...

Essa parte não ouvíamos. Mas os jantares, vários jantares e com ele... então com ele ficávamos horas à mesa a ouvir. Porque conta muito bem histórias e cativa imenso, sobre qualquer assunto consegue manter a atenção de toda a gente. No fundo, nenhum de nós seguiu política nem tem vontade, se calhar por ver o aspeto mais cansativo e doloroso da parte da relação pessoal - porque não se pode confundir mas confunde-se muitas vezes o que é profissional da parte pessoal. Mas temos o gosto por ouvir as histórias da política.

Apesar de nenhum dos três filhos ter querido seguir a via da política, ou pelo menos manifestar, até ver, veia para a política, percebem o entusiasmo de quem vive a política com esta intensidade?

Sim, percebemos e gostamos os três. O João, o mais velho, é mais teórico, porque é advogado e, portanto, gosta de estudar tudo. Estuda e depois quer saber a outra parte. Eu não gosto de estudar, não sou muito de ler jornais e as notícias a fundo, mas adoro a parte da intriga. A parte que mais me enerva é também a parte que eu mais gosto. Às vezes enerva-me, outras vezes gosto. E o Miguel é um bocadinho mais do meu lado.

Deve ser um bom contador, da parte da intriga.

É muito bom contador. Algumas histórias são repetidas, porque nós estamos em todos os jantares, mas é bom contador.

Os meus três filhos são diferentes, mas todos eles fantásticos. Acho sinceramente que eles nunca vão fazer política. Mas, enfim, veremos.

Senão já se teria manifestado, é isso?

Sim, fazer política no sentido de ter uma carreira, de participar na vida partidária ou na vida como autarca, oficial, acho que não. Mas, enfim., veremos.

Mas podem vir a ser ministros, quem sabe, um dia.

Acho que têm coisas interessantes. Era como a Ana estava a dizer, são todos diferentes, mas gostam de acompanhar.E eu devo dizer que, estando de fora, a analisar, acho que têm qualidades, do ponto de vista da análise, de apreciação, de dar opinião. Até lhe conto aqui uma história. Acho que foi em 2009, eu estava num casamento - em cima de eleições legislativas, já eu estava fora da vida política, mas gostava de acompanhar - e havia um debate. Um debate televisivo muito importante na altura, entre Sócrates e Manuela Ferreira Leite. Antecedia as eleições numa semana, ou isso. Eu estava num casamento e não podia ver. Mas queria saber e acompanhar e então pedi, quer aqui à Ana quer ao João, o mais velho, - o Miguel ainda era muito novo, portanto ainda não contava nessa altura para esse campeonato...

Eles iam mandando mensagens.

Informações, mensagens e tudo isso. E era engraçadíssimo ver, sobre as mesmas tiradas, sobre o mesmo discurso de um e de outro, como é que um e outro analisavam. Analisavam de forma diferente. De forma diferente, mas não deixava de ser uma visão analítica com interesse. Depois, de resto, fui ver o debate quando cheguei a casa, já tarde. Mas era muito engraçado, duas pessoas, que não ligam muito à vida política, que não têm um desejo de acompanhar, mas têm uma certa intuição para analisar o fenómeno.

E depois de ver esse debate, depois de chegar a casa, a sua opinião ficou mais próxima da da Ana ou da do João?

Eu devo ser sincero, não é? Mais próxima aqui da Ana.

Na altura não disse que era da minha.

Não, não. Mais próximo aqui da Ana. Disse na altura e digo agora, sou completamente sincero. A Ana é uma pessoa muito perspicaz a analisar politicamente.

Tem a intuição, é isso?

Se eu estudasse mais...

É muito intuitiva.

O que também é uma qualidade impagável na política, não é?

É muito intuitiva. O João, mais velho, é mais racional, mais analítico. A Ana é mais intuitiva. O Miguel agora também gosta de acompanhar e lá vai dando uns palpites em relação aos meus comentários ao domingo.

Mas também é muito perspicaz, o Miguel.

Portanto, eles são diferentes, mas gostam... não de fazer carreira política, isso acho que não gostam. Ficaram vacinados. E eu compreendo-os. Agora, gostam de apreciar, gostam de opinar, e têm análises interessantes. Pessoalmente acho que a mais intuitiva é a Ana, mas os outros não deixam de ter os seus ingredientes muito interessantes.

E são pessoas que votam nas eleições... que vivem alheadas...

Não. Votamos sempre.

Nem que seja em branco.

Sim. Sempre. Eu sou a mais radical lá de casa. E, uma vez, já nem sei a propósito de quê, disse que não ia votar. E nem que quisesse não me deixavam. Acabei por ir. Sou um bocadinho radical, houve uma altura que dizia que ia formar um sindicato contra os sindicatos. Mas votamos sempre. É um dever. Temos que votar.

E a neta, a Mafalda?

Essa ainda não está virada para a vida política.

Olha para a televisão aos domingos e deve reconhecer o avô...

É uma coisa engraçadíssima. A minha neta é uma categoria. Uma categoria. É fantástica, fantástica. Tem dois anos e oito meses.

Quase três.

Quase três anos. Normalmente a família está toda lá em casa ao domingo e eu saio de casa aí oito horas, oito e quarto, para ir para a SIC. Ela está habituada a ver-me durante o dia, ali, com uma roupa normalíssima..

Descontraído.

Descontraído. E, de repente, vê-me de fato e gravata para sair para a televisão. "Mafalda, para onde é que o vovô vai?" E ela já sabe dizer: "Vai para a televisão". Para ela, a imagem do avô de fato e gravata é ir para a televisão. É engraçadíssimo.

E depois, quando o avô está na televisão, ela comenta?

Ela ainda não vê muita coisa porque está na escola e vai para a cama cedo. Mas às vezes, nas férias ou quando pomos para trás, vê. Na reação inicial gosta. Vai para o pé da televisão e tenta tocar. Eu acho que é como nós, que nos fomos habituando. Vê-lo na televisão... não é com tanta frequência como na nossa altura, mas já é natural. E por isso gosta no primeiro segundo, mas depois vai brincar.

Desliga. Vai à vida dela.

Vai.

Esta conversa não lhe interessa. E a diferença entre o Marques Mendes pai e o Marques Mendes avô, qual é?

Bem... como pai nunca foi... se calhar com o Miguel já foi, porque eu acho que são duas alturas diferentes. Mas connosco nunca foi assim rígido nem era mau, nem ralhava, nem batia, porque também estava pouco tempo. E quando estava - agora é a minha experiência como educadora e como mãe - não sentia que tinha essa autoridade, no fundo. Que tinha era que aproveitar e confiar na educação que a minha mãe estava a dar. E como avô é a mesma coisa, mas acho que tem menos atenção àquilo que eu digo. Aquilo que a minha mãe dizia era sagrado, não é? Não faças assim, vai por ali, não deseduques. Eu posso estar a ralhar com ela, a falar com ela, e o meu pai mete-se no meio das conversas. Portanto, é demais. Mas eu digo isto também a brincar. Claro que o papel é nosso. Acho que ele tenta aproveitar muito aquilo que não aproveitou porque está a viver o crescimento dela quase diariamente. E isso não fez connosco. Mas nós não sentimos. Acho que quem sofre mais são os pais, que se apercebem que os filhos cresceram muito rápido.

É a Mafaldinha.

Mafaldinha. Há ali uma química muito grande. Eu nunca vivi intensamente, de facto, o crescimento dos meus filhos.

E esta é uma altura muito engraçada.

E esta altura, dos dois, três anos, é engraçadíssima. Ela já fala pelos cotovelos e eu adoro ir, de vez em quando, buscá-la ao colégio, e depois levo-a para o café. E depois ela pede um gelado, e a mãe não acha muita graça que eu dê um gelado, mas, enfim, tolera. Acho que ficamos ambos felizes. Ela fica feliz porque tem direito a ter um gelado, eu fico feliz porque tenho direito a estar com ela ali uma hora ou duas. Eu não vivi de facto... acompanhei, evidentemente que acompanhei o crescimento dos meus três filhos, mas com uma experiência que tem vantagens e inconvenientes. Estive 10 anos seguidos no Governo - entre os 28 e os 38 anos.

Nos governos de Cavaco Silva.

Exatamente. São logo 10 anos seguidos.

Pensava que ia para um ano e tal, três no máximo, não é?

Eu pensei que era uma experiência de um ano, um ano e meio..

Que era para ser incinerado até, não é? Era mesmo para ser queimado - secretário de Estado da Comunicação Social...

Teresa, como jornalista sabe isso muito bem. Secretário de Estado da Comunicação Social, e então naquele tempo, aquilo normalmente era passaporte para uma pessoa ficar riscada do mapa político. Achei que rapidamente ia ser incinerado. Depois vi que aconteceu o contrário, fui promovido e depois novamente promovido. Cumpri 10 anos e na altura tudo aquilo era muito intenso. Era vivido com uma grande intensidade. Também reconheço, falha minha, falha enorme minha, eu achava que o país quase dependia de mim. Que é uma coisa um bocado horrorosa, mas dediquei-me intensamente e a família sofreu. E de facto, a coisa mais importante na minha família é a minha mulher. Que foi, em muitos momentos, mãe, pai, tudo. E fê-lo sempre com alegria, com boa disposição e de forma muito bem feita. E eu tenho, e acho que os filhos todos têm pela mãe, uma adoração. Eu também. Isso permitiu que as coisas sempre corressem bem. Agora, há uma parte que eu gostava de ter acompanhado um pouco mais do crescimento deles, e estou a compensar com a Mafalda. E espero que a seguir venham outras Mafaldas, no feminino ou no masculino.

Mafaldas ou Mafaldos.

Mafaldas ou Mafaldos, exatamente.

Vamos mudar de nome, que eu já estou arrependida... igual à da banda desenhada. Já tem opinião. Ela tem dois anos e meio e já tem opinião. E manda, manda em tudo lá em casa. Essa é capaz de ir para a política...

Já percebi que ela manda um bocadinho.

Além do mais, confesso aqui que tenho a esperança secreta...

Que é?

Que a minha neta...

Seja?

Seja. Goste da vida política.

Ah...

Sabe porquê? Porque eu sinto-me muito feliz. Gostei sempre de tudo aquilo que fiz. Formei-me. Quis tirar o curso de direito. Quis ser advogado. Fiz advocacia. Adorei.

Depois foi para o Governo Civil...

Depois fui para o Governo Civil, fui para a Câmara, depois de uns anos não imaginava ir para o Governo com 28 anos, mas fui para o Governo com 28 anos. Depois, em vez de estar meia dúzia de anos, fiz 22 anos seguidos de política. Depois, voltei à vida profissional e a ser, hoje em dia, advogado, como tinha sido no início. É um pouco um regresso...

Acautelou sempre a retaguarda.

O regresso às origens. E sinto-me lindamente. Mas, eu gosto da política, gosto. Claro que as pessoas muitas vezes interpretam "ah, com isso vai regressar e tal". Não. Regressar não vou. Não vou. Cargos políticos, não quero mais. Agora, acompanhar a vida política, ter uma opinião sobre os assuntos, emitir opinião, isso eu gosto.

São os bastidores, não é?

Ainda há dias, numa entrevista, eu vi o meu querido amigo António Lobo Xavier, que é uma pessoa de enorme qualidade, dizer que lhe faz falta o emitir opiniões políticas. Que é um complemento para a sua vida. Pois eu penso rigorosamente da mesma maneira. Subscrevo totalmente. Percebo lindamente, na perfeição. Agora, não quero nenhum cargo. Cargos foi uma fase, uma fase. Agora, emitir opiniões, sim. E gosto muito da política, acho que a política bem feita é uma coisa muito interessante, para além de ser um serviço público. Tenho esperança que a minha neta tenha um bocadinho do meu ADN. É uma esperança. Alimento esta expectativa. Se se concretizar muito bem, se não se concretizar, também está tudo bem.

Quem sabe? Já vi que imagina.

Vou fazer campanha.

Já numa idade mais avançada, não é? Mas ali de bandeirinha, na primeira fila dos comícios, se é que ainda se fazem comícios assim, quando chegar... que isto agora muda a uma velocidade que já é outra conversa. Alguma coisa há-de puxar ao avô, não Ana?

Puxa. Puxa no espírito de liderança. É muito divertida também. Tem mau feitio, mas nisso acho que não sai ao avô. Sai aos pais, não é ao avô. Gosta de brincar, de passear com o avô, mas acho que naquilo que sai de feitio, mesmo, é na liderança e na boa disposição.

É à mãe.

O mau feitio é dos pais. Os dois pais têm. Pronto, não há nada a fazer. Mas, ao avô é nisso. Líder. Ela é mesmo líder nata.

O avô que, por sua vez, vai buscar esse lado, essa costela, digamos assim, à sua mãe, também, não é? Porque o seu pai era um homem mais racional, mais fechado.

Eu tenho um pouco do meu pai e da minha mãe. Do meu pai, herdei o lado mais racional. O meu pai era uma pessoa muito introvertida, embora bem-disposta, uma pessoa introvertida, pouco faladora, mas muito racional. Muito, muito racional, que estudava os assuntos todos em pormenor, em profundidade. Herdei um bocadinho deste lado. Gosto deste lado em tudo o que faço da vida. O lado de pensar nos assuntos, pensar, analisar com cabeça, tronco e membros, ver os prós, os contras, as vantagens... ou seja, estudar os assuntos. Esta parte herdei do meu pai. Agora, depois herdei, do lado da minha mãe...

Que era professora.

Que era professora, sim, agora está reformada, herdei o lado divertido, alegre, falador. O meu pai falava muito pouco. A minha mãe fala pelos cotovelos. Ainda hoje. É uma pessoa muito alegre, muito bem-disposta, de um modo geral sempre de bem com a vida. Este lado herdei da minha mãe. Sou um privilegiado. O meu pai já faleceu, mas era uma pessoa fantástica, extraordinária. Foi, sobretudo, um grande, grande advogado. Tenho depois a outra parte de gostar de estar bem-disposto, porque acho que a má disposição faz, primeiro, mal a mim próprio, faz mal à saúde, e faz mal aos outros. Mas gosto da parte da alegria, gosto de uma boa conversa, gosto de fazer amigos. Adoro fazer amigos. Adoro conhecer outras pessoas. E isto eu herdei da minha mãe. A minha mãe é uma pessoa fantástica. Você se conhecer a minha mãe fica a adorar a minha mãe ao fim de 10 minutos. Não precisa de mais. Porque ela é bem-disposta, é tranquila...

Ai se calhar ia adorar estar aqui, já estou a ver.

Há uns anos adorava, agora ficava muito nervosa.

São 85 anos, mas está lindamente, está muito bem. E gosta de acompanhar, gosta de saber as coisas, da política, de fora da política, gosta de acompanhar. Eu tive a sorte de ter um pai fantástico e de continuar a ter uma mãe magnifica.

É ela, aliás, quem o incentiva a começar a falar de improviso.

Foi, foi. Eu já contei em público. É verdade. Lá está, é a componente de intuição, que a Ana tem, que a minha mãe também tinha muito. Eu comecei a fazer política cedo, com 17, 18 anos. Ali no Norte, no distrito de Braga. E, portanto, falava nas sessões de esclarecimento e nos comícios em nome da juventude.

E escrevia...

E escrevia tudo, os discursos... aquilo era um testamento. Testamentos autênticos, com muitos adjetivos. Na altura usava muitos, entretanto já me corrigi. Agora é mais aquela parte de um, dois, três, não é? Mas gostei sempre de escrever e as coisas não saiam mal. A minha mãe gostava de ir assistir aos comícios, às sessões de esclarecimento, de estar ali no meio do povo. E depois, em casa dizia-me: "Sabes, os comentários que as pessoas fazem é de que falas bem, mas que o discurso não é escrito por ti, que é o teu pai a escrever". O meu pai era a grande figura de referência ali na região. Foi a minha mãe que, pela sua intuição, pelos comentários que ouvia, me sensibilizou para eu falar de improviso. Que dizia: "A única forma que tens de convencer as pessoas que és tu mesmo o autor daquelas ideias..

É sem papeis.

É falar sem papel. E ainda hoje, 90% ou mais das minhas intervenções públicas, ainda hoje em dia são de improviso. Não quer dizer que não exijam uma maior preparação, mas...

E como é que se começou a preparar para isso? Usou uma técnica? Porque não se vai assim à confiança, não é? Quem está habituado a usar papeis, não chega ali ao microfone e...

Prepara-se. Prepara-se o improviso. Quem disser que faz um improviso sem preparação, de um modo geral, está a aldrabar. Está a mentir. Prepara-se. O que é preparar? Dá mais trabalho. E, às vezes, até leva bastante tempo. Parece que não porque o resultado final é falar de improviso, mas a montante, umas horas antes ou uns dias antes, tem que se preparar. Tem que se ir escrevendo umas notas, às vezes até as frases. Depois ajuda muito ter uma boa memória. Eu felizmente tenho e continuo a ter uma ótima memória. Isso também ajuda muito. Mas sabe que nenhum de nós precisa de ser super-homem. Tem apenas que ser minimamente estudioso, trabalhador e disciplinado.

Há também aquela velha frase, "o melhor improviso é o escrito", no sentido em que quanto melhor preparados estivermos, melhor sai o improviso. Nem que seja por termos conhecimento sobre os assuntos sobre os quais estamos a falar. Porque senão o perigo de queda também é eminente.

Discurso escrito ou discurso de improviso tem um ponto em comum. Tem de ser preparado e bem preparado, senão não é bem feito.

O Dr. Marques Medes de longos cabelos e calças à boca de sino... são fotografias que ainda rodam lá por casa, de vez em quando vão aos álbuns ver, Ana?

Vemos. Eu adoro fotografias. Lá em casa, eu e o meu pai somos quem mais gosta de decoração, de mudar as coisas da casa, e há pouco tempo estivemos a arranjar uma salinha, lá em baixo, para ver futebol e cinema. E era lá que estavam os álbuns.

Na casa dos pais?

Na casa dos meus pais. Eu continuo a falar assim porque eu gosto muito de lá ir. E é sempre um bocadinho minha. Estivemos a arrumar tudo, os álbuns todos e a levar para cima, e estive a fazer a seleção de todas as fotografias. Tenho um álbum que ajudei a fazer da minha mãe que é só de fotografias dos meus pais da altura de namoro. E organizei... o meu pai nem deve saber.

Já vi, já vi.

Mas, pronto. Está lá tudo guardado.

Isso é pouco depois do 25 de Abril, não é? Esse namoro.

É logo, logo a seguir.

Já se conheciam, mas a coisa pega depois da revolução.

Exatamente. Andávamos juntos no Liceu de Guimarães, era assim que se chamava, à época, mas começámos a namorar ali por maio, junho de 74. Com a liberdade.

E essas fotografias revelam um pai e uma mãe que, para vocês, eram um casal desconhecido?

Não. Parecem felizes. O casamento que nós fomos vivendo, e experienciando, ao longo dos tempos, também mostra a mesma coisa. Mostra uma coisa que eu acho muito importante. Eu já casei, o meu irmão João vai casar, o Miguel também há-de casar, um dia. Depois de casar percebe-se que mudamos muito, a vida muda muito e, por isso, nunca é sempre igual. Vimos fases em que estavam mais bem dispostos um com o outro, fases em que, se calhar, até se viam pouco, mas depois umas fases quase de rejuvenescimento, em que voltam a querer ir jantar, andar os dois juntos, a minha mãe mais arranjada e a querer acompanhar. Passar por estas várias fases, mas sempre com respeito e imensa ternura um pelo outro. Nós vivemos estas várias fases. E essas fotografias revelam a cumplicidade que tinham no início e que ajudou a criar este percurso todo e que, agora, posso dizer, está numa fase excecional. Aí desde os 40 então... mas é mesmo giro que a pessoa sente. Se calhar, na altura em que tem filhos, em que se tem os filhos mais pequenos, em que se anda mais cansado, o meu pai também com muito trabalho, uma fase mais rotineira. E depois dos filhos já criados, é engraçado ver como as coisas podem ... Os filhos saem de casa, há muitas famílias que até sofrem muito com isso, com o ninho vazio. E no caso deles é giro que foi o contrário. Dão-se bem. Gostam de estar sozinhos, gostam muito de fazer férias sozinhos, com amigos. E é muito bom.

Aproveitar.

Uma boa experiência para nós aprendermos, também.

Agora que os putos saíram de casa vamos é...

Fazem viagens... é tão bom.

Sobre a sua obra política, rapidamente, li numa entrevista - não me quero perder muito aí - que considerava a RTP Internacional como a sua maior obra política. Li bem?

Leu, leu bem. Era ter um ponto de ligação de Portugal com os seus emigrantes, com as suas comunidades de emigrantes, dispersas pelo mundo inteiro. Até aí não tinham grande ligação a Portugal. Mandavam as suas remessas, vinham cá passar férias, mas não tinham notícias de Portugal. Acho que isto, para um país que tem milhões de portugueses fora do seu território, na altura era obra. Segundo, era também estabelecer outras relações, mais estreitas, com os países da lusofonia, quer em África, quer na Ásia, como Timor. Terceiro, era afirmar mais a cultura portuguesa. Com mais este pormenor. Chegar a Timor, que ainda estava sob o jugo da Indonésia. Portanto, tudo isto foi um esforço enorme. Hoje isto é banal, como já disse. Mas na altura, nunca ninguém tinha feito. E custava muito dinheiro. Eu até conto no livro esta história. De que quis levar o projeto da criação da RTP Internacional a Conselho de Ministros e o professor Cavaco Silva, primeiro-ministro, disse-me: "Você nem pense nisso". Isso aí, justiça seja feita, foi ele que teve este grande mérito. Disse: "Se você levar isto a Conselho de Ministros, todos à volta da mesa vão dizer que este seu projeto é fantástico, mas depois vai surgir o ministro das Finanças a dizer 'está ótimo, mas não há dinheiro'". Aquela frase célebre que os ministros das Finanças todos usam. É o Centeno, é o Gaspar, todos. Não há dinheiro. Isso disse-me o Cavaco: "Se você leva isto, nesta altura, o projeto não vai.. portanto, faça isto por fases e vá negociando com o Ministério das Finanças". E foi assim que o projeto se fez. E eu, que em toda a minha vida política já fiz algumas coisas com algum interesse, modéstia à parte, acho que essa, para mim, é a mais marcante. Porque cá dentro não diz nada. Não dá um voto. Mas do ponto de vista estratégico, foi aquela obra, aquele projeto que mais me apaixonou. Mais na altura, evidentemente, do que hoje. Hoje, canais proliferam como cogumelos, mas na altura era uma novidade. E era uma experiência de aproximar os vários 'portugais' que existem em Portugal.

E já começou a escrever o livro? Se é que é um livro, sobre os bastidores da subida de Cavaco Silva à liderança do partido, no congresso da Figueira da Foz?

Eu já escrevi três livros ao longo destes anos.

Sobre este assunto em concreto.

Reconheça que tenho uma certa produtividade.

Chegou a afirmar que ainda haveria de contar a história, porque a viveu por dentro, e sabe exatamente o que aconteceu.

Sim, é verdade. Devo dizer que alimento a esperança de um dia poder escrever alguma coisa acerca das curiosidades da vida política desses tempos, da ascensão de Cavaco Silva ao poder, dos 10 anos do Governo. Depois, outros períodos fascinantes, como foi a liderança, por exemplo, de Marcelo Rebelo de Sousa, em que eu fui líder parlamentar com ele. Mas, também...

Sobre esse período, imagino que tenha muitas histórias para contar.

Sabe que eu...

Essa era a fase em que nenhum de vocês se queria ir deitar. Também imagino, não é? Porque queriam assistir às conversas...

Sim, sim.

O telefone tocava, tocava...

Exatamente. Você sabe que uma vez o professor Marcelo acordou... naquele período quase não havia telemóveis. Então um dia acordou a minha mulher às seis da manhã porque precisava de falar comigo. Às seis da manhã. Temos esta característica em comum - ele é muito melhor do que eu em tudo -, mas temos uma característica em comum: ambos, Marcelo e eu, somos noctívagos. E então falávamos muito, a altas horas da noite. Ele costumava dizer, em brincadeira, que enquanto o engenheiro Guterres, na altura primeiro-ministro, dormia, nós estávamos a discutir, ao telefone, como é que havíamos de lhe fazer a vida negra no dia seguinte.

O que aconteceu, algumas vezes.

O que aconteceu.

Nomeadamente na revisão da Constituição.

Exatamente. Nos referendos. O professor Marcelo é uma pessoa talentosa. E não é apenas como Presidente da República.

A congeminar é alucinante.

Ele foi sempre uma pessoa muito, muito talentosa. Eu adorei trabalhar com ele, trabalhámos lindamente. Ele teve um grande, grande mérito nessa ocasião, mas não era fácil. Esse período não era fácil. O engenheiro Guterres estava em alta, mas ele era talentoso. Só um líder de oposição com o talento que ele tinha é que conseguia as vitórias importantes como teve, nos referendos, na revisão constitucional, sobretudo na questão da regionalização.

E uma história que se possa contar com o professor Marcelo? Não tem de ser de politiquices... Uma dos vários telefonemas e dos vários momentos que passou com ele.

Isso são imensas histórias, mas vamos deixar isso para o tal livro.

Ai o livro...

Que eu imagino escrever um dia. Porque senão

Não vai misturar o professor Cavaco Silva e o professor Marcelo Rebelo de Sousa no mesmo livro? Vai gerir sentimentos contraditórios, por parte do consumidor. Imagino eu.

É um bocadinho difícil porque é a diferença da água e do vinho. Não é? É um bocadinho difícil.

Não se mistura.

É difícil. Embora eu tenha tido o privilégio de trabalhar com um e com outro, em diferentes momentos. Agora eles são, não direi completamente diferentes, mas são substancialmente diferentes. Há muitas histórias, mas agora não me ocorre propriamente assim uma.

Então e ser comentador depois do professor Marcelo deixar o comentário. É uma coincidência?

É. Ele é o rei do comentário.

Isso faz do Dr. Marques Mendes o quê?

Não faz nada. Quer dizer, não sou nada, muito menos me vou qualificar a mim próprio.

O principezinho?

Não, nada disso. O professor Marcelo é inigualável. Inigualável. Ele enche um espaço. Ele é componente afetiva, componente humana, é componente de análise política. E eu nunca tive nenhuma preocupação em me comparar porque, se fosse comparar, perdia sempre na comparação. Ele é inigualável. Não estou a dizer isto aqui por ser lisonjeiro ou porque apenas é politicamente correto. Não, ele é, de facto, o melhor. Acho que, ainda hoje, várias das intervenções dele como Presidente, são ele a fazer comentário. E são, normalmente, comentários brilhantes. Ele é francamente bom. Agora, esta parte de comentário é algo que me preenche. É algo que eu aprecio, que gosto de fazer, que me dá algum trabalho, mas que me dá, sobretudo, imenso prazer. Que eu tento fazer, retomando a parte inicial, com alguma liberdade de expressão e alguma isenção e independência.

E como é que vai sacando as notícias que vai dando?

Vou-lhe dizer, essa parte não é fácil. Passei a ter uma admiração enorme, ainda maior do que já tinha, pela sua classe, pelos jornalistas. Porquê? Porque vocês têm que ter notícias, ter informação, é o vosso trabalho. O trabalho que me dá obter algumas informações, o tempo que levo, os telefonemas que tenho de fazer, as conversas que tenho que realizar... vou-lhe dizer, tenho uma admiração enorme pelo vosso trabalho. É um trabalho que dá mesmo um enorme trabalho. É um esforço ...

É preciso cruzar a informação, não é?

Cruzar a informação. E não é só isso. Eu não tenho direito... se hoje ou amanhã houver um problema, não posso escudar-me a dizer que não revelo as fontes de informação, porque isso é um privilégio dos jornalistas, coisa que eu não sou. Portanto, tento fazer as coisas à minha maneira, sempre com uma preocupação: não estou aqui para competir com os jornalistas. Eu sei que, uma vez ou outra, um jornalista pode não achar muita graça: "Aquele tipo está a envolver-se, está a imiscuir-se na minha ação". Não. Não é nada disso. Quando idealizei o comentário, quando comecei, sempre achei que, além da componente de emitir opinião, devia ter também algumas informações. Até devo-lhe dizer: muitas vezes tenho muito mais informação do que aquilo que transmito. A minha preocupação não é inundar o comentário de informação. É ter uma informação ou outra, que possa ajudar, digamos assim, a tornar mais atrativo, mais interessante, mas apelativo, o comentário. Portanto, acho que é uma mais-valia.

E que corresponda à verdade, já agora.

A minha preocupação é que seja verdadeiro. Evidentemente que terei falhado, uma vez ou outra. Isso é normal. Agora, é uma coisa que dá um enorme trabalho e, a partir do momento em que me dediquei a fazer este exercício, passei a ter uma admiração pelos jornalistas muito maior do que a que já tinha.

O que é que pode acontecer mais depressa, Ana? É vermos o avô Luís Marques Mendes a fazer campanha pela neta, daqui a uns anos...

Adorava.

Ou a neta, ainda, a fazer campanha pelo avô, quem sabe, nas eleições presidenciais? Depois do segundo mandato do professor Marcelo.

Como eu disse no início, com aquela defesa que eu criei, de que ele não ia ganhar nada

Baixar as expectativas.

Exato. Mas eu acho que é mais provável a segunda hipótese. Não que eu saiba nada, nem que eu queira nada. Mas acho que é mais provável a segunda.

Porque acha que...

Não me parece. A mim não me parece.

Provavelmente a Ana considera que o pai tem o perfil para exercer essa função, é isso?

Exatamente, porque nunca falámos sobre isso. Acho que tem perfil, acho que tem muita competência, acho que... senti isso, e por isso fiquei tão desgostosa, foi uma perda grande. Mas vemos a importância que dá, realmente aos problemas, a forma como estuda os assuntos, a forma como se entrega ao trabalho. E acho que pessoas dessas é que fazem falta. E também conhecemos, por causa do meu pai, muitos outros casos, em que isso não acontece. Se calhar, uma grande maioria das pessoas que estão na política. Pessoas que trabalham ainda no serviço público, que sentem os problemas das pessoas, fazem falta. Por isso acho mais provável a segunda. Ou gostaria. Mas não porque saiba. Nada, não tenho informação nenhuma.

Não é muito provável. Este comentário da minha filha é de facto de uma pessoa generosa, encantadora, fantástica como ela é. E, portanto, às vezes exagera. Um pouco. Sem intenção, mas exagera um pouco em relação ao pai. Mas está perdoada porque ela tem muitas outras qualidades.

Mas, para ela, o pai será sempre um bom Presidente.

Mas vai perder.

Teresa, eu aposto muito mais no meu futuro a ajudar, a apoiar, a assessorar a minha neta a fazer uma carreira política. Eu aposto muito nisso. E sobretudo porque acho que temos de pensar no futuro e não no passado. Pensar em soluções novas e não em soluções que já provaram, ou que não provaram. Temos que pensar é nas novas gerações.

E lá em casa. É pai ou temos assim alguma forma

De chamar?

Sim, carinhosa...

Não é nada carinhosa. Eu até ia começar por aí. Porque no Norte... já o meu pai trata os pais por pá e mâ, a minha mãe também por pá e mâ. Acho que é mais nortenho. Eu ia começar por dizer porque podia surgir aqui eu dizer "ó pá". Os meus amigos iam a minha casa e ouviam-me a dizer "ó pá" e diziam "que mal-educada, não é assim que se fala com um pai". Nós chamamos pá. Pá e mâ.

E aos filhos?

Normal. É Ana. O João...

A neta já tem um nome diferente.

É o pintainho.

O pintainho é a Mafalda, mas, de um modo geral, os filhos, que me recorde, não tinham assim uma alcunha em particular. É a Ana, o Miguel, o João.

Era a Aninha.

São apenas alguns diminutivos mais ternurentos. Acho que mais importante do que a forma como uma pessoa se dirige é, sobretudo, o espírito. Acho que há um bom espírito. Sabe que em matéria de ADN há aqui uma diferença e uma semelhança. A diferença é que eu andei muitos anos na política e não me parece que eles vão gastar um mês que seja nessa atividade. E compreendo-os. Depois, duas grandes semelhanças: quer eu, quer os meus filhos gostamos... eles gostam da mãe, eu gosto da mulher, temos o mesmo sentimento de admiração em relação à minha mulher. E depois, acho que eles dão muito valor, e ainda bem, à profissão que têm. O mais velho é advogado, a Ana é educadora de infância, o Miguel, o mais novo, é economista. Os três a trabalhar. Acho que são três excelentes profissionais. E eu, modéstia à parte, peço imensa desculpa, sempre tentei incutir um bocadinho nos meus filhos, e a mulher a mesma coisa, esta ideia de serem bons profissionais. Bons profissionais no sentido de serem bons com os colegas, no sentido de serem bons com as empresas onde trabalham, de serem sempre exemplares. Acho que esta é a semelhança do ADN que temos. Depois há outra diferença, eles não terem gostado nada da atividade que o pai desenvolveu durante alguns, e eu não os levo a mal. É a vida.

Exato. E daqui a uns anos, quem sabe, teremos Luís Marques Mendes com cartazes "Mafalda a Presidente". Ou Mafaldinha. Não lhe vai chamar Mafaldinha? Isso não lhe chama.

Não. Mafalda, Mafalda. É uma esperança. Uma esperança que eu tenho. De haver aqui uma continuidade. Quando é feita com dignidade, com seriedade, com princípios, com valores e, sobretudo, com convicções. Sabe que eu, na vida política, as coisas que mais aprecio são duas: a coragem e as convicções. Sou um admirador de Manuel Alegre. Quer dizer, muitas pessoas laranjinhas são capazes de torcer o nariz quando eu digo isto, Manuel Alegre. Para mim é um exemplo que eu dou sempre de uma pessoa que tem coragem e convicções. Posso discordar das convicções dele, mas admiro uma pessoa que tem convicções, que luta por convicções. Que não troca convicções por conveniências.Tenho uma admiração profunda. E acho que hoje há cada vez menos disto na vida política. Não quer dizer que antigamente só havia convicções e agora só há conveniências. Não. Hoje há menos coragem, as pessoas são mais calculistas. E hoje trocam-se convicções por conveniências com mais facilidade. Uma pessoa, seja de que partido for, de que quadrante político for, que pauta a sua conduta por convicções e pela coragem de as assumir, merece um enorme respeito. É esta parte da vida política que eu gosto muito. Posso ser um idealista, posso ser um utópico em estar apaixonado por esta parte. Mas nesta parte sou, porque quando comecei a fazer política com 16 anos, uma pessoa não pensava em cargos, nem lugares, nem mordomias. Só pensava, de facto em ideias, em projetos. É esta componente de paixão, de utopia, de algum idealismo...

E em servir a causa pública.

Que eu, aos 61 anos, ainda consigo, apesar de tudo, manter. E é esta parte..

Ainda é uma criança.

É por isso que eu me sinto bem com as crianças e com os jovens. Adoro estar com crianças e jovens.

Ana, tem de convencer, tem de levar lá o seu pai à escola, para falar aos miúdos.

E tem imenso jeito, tem muito jeito para falar aos pequeninos e aos adultos também. Tem de ir lá contar uma história.

E depois avisem-nos, que vamos lá com o gravador para assistir.

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