Novo modelo de aprendizagem na matemática "aumenta desigualdades"

Sociedade Portuguesa de Matemática critica modelo que arranca em setembro. Ministério da Educação já respondeu.

A Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) alertou esta quarta-feira que o novo modelo de aprendizagem em matemática, que arranca em setembro como experiência-piloto em algumas turmas, a par de outras disciplinas, "aumenta as desigualdades" entre alunos.

"Não sei muito bem como daqui a dois ou três anos se vai fazer um exame no nono ano quando há dois ou mais tipos de aluno", disse à Lusa o presidente da SPM, Jorge Buescu, numa referência aos estudantes que seguem o novo modelo de aprendizagem, denominado Aprendizagens Essenciais, e os que não o seguem, mas em que ambos estão sujeitos à mesma prova nacional da disciplina.

De acordo com a SPM, o modelo Aprendizagens Essenciais na matemática funcionará, no próximo ano letivo, em 240 escolas e, nestas, em algumas turmas, abrangendo alunos do primeiro, quinto e sétimo anos no ensino básico e do décimo ano no ensino secundário. Haverá na mesma escola, "turmas clássicas e turmas experimentais".

O modelo prevê, segundo a SPM, que as escolas possam, facultativamente, eliminar até 25% do programa de uma disciplina, para haver "disponibilidade de tempo para outras aprendizagens, interdisciplinares, com base em projetos".

"Na matemática não funciona, não se aprende a fazer contas ou derivadas de funções com base em projetos", assinalou Jorge Buescu.

A SPM considera que o que classifica como "um amadorismo, um aventureirismo" vai fomentar "diferentes aprendizagens da matemática" e "aumentar as desigualdades" entre alunos, o que será "um desastre" se o modelo vingar em todos os anos dos ciclos de estudo, atendendo a que as escolas terão a liberdade de aplicar ou não o modelo, e, aplicando-o, fazerem o "corte" de 25% nos programas das disciplinas como entenderem.

Jorge Buescu apontou o risco de haver "um retrocesso" no ensino da matemática, que teve "uma evolução muito positiva nos últimos 15 anos", caracterizada por "maior rigor, exigência, estruturação de programas e exames".

A sociedade científica queixa-se de não ter sido auscultada no processo e de que o documento sobre as aprendizagens essenciais na matemática para o ensino básico foi divulgado pela Direção-Geral da Educação a 5 de agosto, em época de férias e a um mês do início do novo ano letivo, sem que tenha decorrido um período de consulta pública.

A SPM contesta também que, ao contrário de outras disciplinas, o documento sobre as aprendizagens essenciais na matemática para o ensino secundário ainda não tenha sido divulgado.

Justificando o modelo de aprendizagens essenciais na matemática, o Ministério da Educação argumentou, numa resposta enviada à Lusa, reagindo à SPM, que "têm chegado ao ministério inúmeras reclamações de departamentos de matemática das escolas, manifestando a incapacidade de lecionar os programas em vigor na íntegra e referindo a inadequação dos conteúdos à idade dos alunos".

O ministério invoca que as Aprendizagens Essenciais são "construídas a partir das orientações curriculares - programas, metas - em vigor, em respeito pelo tempo de vigor dos programas", sendo um processo "monitorizado ao longo deste ano", em que "todos os contributos relevantes, não apenas sobre os anos iniciais de ciclo, mas sobre todos os anos, serão colocados em consulta pública".

A tutela diz ainda que a Sociedade Portuguesa de Matemática não enviou "qualquer contributo" para "o trabalho de definição de Aprendizagens Essenciais".

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