Rasgar o céu

O anjo que guarda o piloto mais antigo da TAP

Ele voa há mais de 40 anos e "um anjo da guarda muito grande" livrou-o de sustos maiores. Ela é uma das mais jovens piloto da TAP e sente que voar é ser livre. No dia internacional da aviação civil a TSF foi descobrir o que move quem vive com os pés fora da Terra.

Quando Eva Aguiar nasceu já José Vilhena voava há quase vinte anos na TAP. Hoje são ambos pilotos da companhia: ele o mais antigo no ativo e ela uma das mais jovens. O que os move é a mesma paixão pelos pássaros de metal - uma vocação que nasceu bem cedo.

"Eu morava ao pé do aeroporto, em Moçambique, e passava a vida a olhar para os aviões e a ver os aviões a aterrarem e a descolarem. O meu pai e a minha mãe não achavam muita graça, porque eu era filho único e a aviação naqueles tempos tinha muitos riscos. Mas, remando contra tudo e contra todos, eu consegui", começa por contar José Vilhena.

José Vilhena tinha 16 anos quando iniciou os voos de instrução em Moçambique, onde nasceu há 63 anos, e aos 17 recebeu a licença de piloto particular de aeroplanos. Dos primeiros voos guarda a memória de um menino entusiasmado com o presente que acabara de receber.

"Os primeiros voos foram muito excitantes, porque eu era um miúdo, tinha 16 anos. Tinha uma vontade muito grande de voar e de ser piloto, mas toda aquela fase inicial foi uma fase de deslumbramento."

Apesar da inexperiência, teve que passar do lugar de aprendiz para o lugar de instrutor do aeroclube de Moçambique ainda muito jovem.

"Eu e mais dois colegas fomos aproveitados, por escassez de meios humanos, para dar instrução como monitores de voo, sob responsabilidade do diretor da escola. Eu tinha para aí umas 90 ou 100 horas de voo, o que era pouquíssimo, quando tive o meu primeiro aluno. Na altura não se recebia nada por ser instrutor do aeroclube. Era uma função que as pessoas faziam por dedicação e por vontade."

O piloto moçambicano entrou na TAP em 1978, naquele que foi o primeiro curso da companhia depois do 25 de abril. Dos 14 pilotos que entraram no mesmo ano, dois já morreram e os restantes estão reformados. José Vilhena é o único que se mantém no ativo. Hoje, acompanha pilotos mais jovens que encontram um cenário muito diferente daquele com que se deparou há quatro décadas.

"O primeiro voo que eu fiz na TAP foi também um voo de instrução, porque na altura os simuladores não tinham a sofisticação que têm os simuladores atuais. Hoje já se faz tudo em simuladores e quando se vai para o avião já se faz um voo de linha, mas naquela altura não. Naquela altura lembro-me que havia um voo de instrução com aterragens e descolagens sucessivas e esse foi certamente o meu primeiro voo na TAP."

A invenção do avião tem pouco mais de cem anos, mas, em pouco tempo, "houve uma transformação brutal".

"Quando eu entrei na companhia tínhamos planos de voo em papel para ir do ponto A ao ponto B, para ir de Lisboa a Londres, por exemplo. Eu tinha a rota num papel em que eu tinha que ir introduzindo os pontos através da ajuda da rádio. Hoje, as rotas já vêm por satélite. Portanto, eu chego ao avião e a única coisa que tenho que fazer é proporcionar a possibilidade de o avião absorver a rota."

O principal desafio que José Vilhena enfrenta é acompanhar o ritmo alucinante da evolução tecnológica.

"Nós tínhamos uns mapas que muitas vezes não estavam atualizados e nós tínhamos que ir à procura dos pontos em rota para conseguir descobrir os destinos. Hoje, limitamo-nos, com um GPS a por o ponto para onde queremos ir e ele leva-nos lá com um erro mínimo de metros. Não significa que a aviação hoje seja mais simples. Aliás, há velhos aviadores que nunca se habituaram às novas tecnologias."

O comandante da TAP já conta mais de 29 mil horas de voo, o equivalente a três anos, mas apanhou poucos sustos pelo caminho: "Devo ter um anjo da guarda muito grande com certeza."

Para além da concretização de um sonho e da autodescoberta constante, José Vilhena foi também a bordo do avião que José Vilhena encontrou o amor quando há 32 anos conheceu a mulher, Ana Caseiro, supervisora de cabine.

José Vilhena com a mulher, Ana Caseiro

"Eu costumo dizer, na brincadeira, que cá em casa há 70 anos TAP, que são os meus 40 mais os 30 dela. Os filhos habituaram-se. A TAP permite a quem pretende que em grande parte dos voos eu possa voar com ela. Isto facilita a minha vida familiar. Senão éramos uma espécie de guarda-noturno e mulher-a-dias. Eu entrava e ela saía, ela saía e eu entrava."

Tal como os filhos de José Vilhena, também Eva Aguiar nasceu numa família ligada à aviação. O pai é piloto e "o fascínio pelos aviões começou desde pequenina".

"Foi uma ideia que eu sempre tive em aberto. Sempre gostei de áreas ligadas à Física, à Matemática e à mecânica. No fundo, tinha várias opções que deixei em aberto e, no início do secundário descobri realmente que era isto que eu queria."

Eva Aguiar com o pai, o comandante Miguel Aguiar

Quando a ideia tomou forma comunicou-a à família que a aceitou com algumas reservas.

"Reagiram bem, no geral. No início foi com algumas reticências até perceberem o quão séria era a ideia, mas depois quando perceberam que era realmente uma coisa em que eu pensava e que era um objetivo apoiaram-me imenso."

Assim que terminou o ensino secundário, a jovem alentejana viajou para os Estados Unidos da América, onde esteve durante seis meses, a tirar a licença de piloto privado. "Depois, decidi fazer o resto do curso cá em Portugal. Voltei, fiz em Ponte de Sor, na G Air."

Sempre que entra num avião, Eva Aguiar sente que os limites - os pessoais e os das nações - se diluem. "Voar é um sentimento de liberdade, porque eu acho que a aviação dá acesso a conhecer muita coisa e apaga as fronteiras. É impressionante como nós num dia conseguimos estar em dois ou três países diferentes."

Eva Aguiar admite que a tecnologia que hoje tem à disposição em nada se compara com a que José Vilhena encontrou no início da carreira e acredita que a convivência com gerações mais antigas é enriquecedora para qualquer piloto.

"Eu acho que a maior vantagem que isso dá é nós estarmos constantemente em aprendizagem, porque uma forma de ganhar experiência é também ouvir a experiência dos outros. Quando nós ouvimos histórias que outras pessoas já viveram ou outras opiniões sobre a forma como fazemos as coisas vamos aprendendo com isso também. E dá para evoluir e para pensarmos sobre as coisas."

Num meio predominantemente masculino, Eva Aguiar garante que nunca foi tratada de forma diferente por ser mulher e sente que isso tem a ver com uma "questão de mentalidade".

"Estudei com outras mulheres, tenho outras mulheres como colegas de trabalho, e penso que, sinceramente, em termos de capacidade são iguais aos homens. Claro que há diferenças em termos de mentalidade numa ou noutra coisa, mas penso que em termos operacionais não se nota muita diferença entre voar com uma mulher ou voar com um homem."

Neste momento, Eva Aguiar faz voos de médio curso, sobretudo dentro da Europa e para África. Num futuro próximo, quer ter como passatempo a aviação recreativa - "porque também faz falta em termos de diversão para os pilotos" - e mais tarde chegar a comandante. Qualquer que seja o caminho de Eva Aguiar, a jovem alentejana tem uma certeza: quer viver livre a rasgar o céu.

  COMENTÁRIOS