viagra

O comprimido azul que mudou a vida sexual dos portugueses chegou há 20 anos

No dia 14 de setembro de 1998, o Viagra viu a a sua comercialização aprovada em Portugal. Era o início de uma nova fase da vida sexual dos homens com disfunção erétil.

Viagra. É praticamente impossível nunca ter ouvido falar desta palavra. O pequeno comprimido azul é reconhecido em todo o mundo, usado por milhões de homens e chegou há 20 anos a Portugal. Foram duas décadas repletas de mudanças, de quebras de tabus e de acesso a um medicamento que ajudou milhões de homens em casos de disfunção erétil e que permitiu a pessoas com uma faixa etária mais avançada continuarem a ter uma vida sexual ativa.

O medicamento já deixou de ser usado apenas por homens com problemas sexuais e passou a ser usado, em diversas fases da vida, por homens de todas as idades, por razões de insegurança ou mesmo para momentos de aventura sexual.

Para o urologista José Sanches Magalhães, a chegada do Viagra, na altura, "veio acompanhar alguma modernização da nossa sociedade e foi um pretexto para se falar mais de determinados temas sexuais", o que permitiu "quebrar alguns tabus" e levar os homens a sentirem-se "mais à vontade para discutir com os seus médicos a saúde sexual".

Júlio Machado Vaz, psiquiatra e sexólogo, fala em mudanças na "vida sexual mas também com repercussões culturais", com homens a procurarem o comprimido azul pela facilidade de tomar uma pastilha e terem resultados rápidos e eficazes.

"É muito mais simples tomar a pastilha. Se pensar um pouco, isto nem sequer é diferente do que é o ambiente cultural da nossa sociedade, em que grande parte das pessoas andam à procura de um remédio que resolva a questão (...). Vivemos numa sociedade que cultiva a solução miraculosa e instantânea", defendeu o especialista em entrevista à TSF.

Quem procura o comprimido azul em forma de losango?

"Não há um perfil clássico". Quem o admite é Júlio Machado Vaz, assumindo que "é muito mais habitual" haver uma procura por parte de "homens de uma faixa etária mais avançada, a partir dos 50/60 anos", mas não só.

"Não tenhamos ilusões, eu recebo rapazinhos de 19 anos a pedirem-me que lhes receite uma droga desse grupo porque sofrem de uma doença que se chama insegurança. Querem ter uma muleta que lhes garante a certeza de uma ereção adequada", contou o sexólogo.

Nesta senda, o especialista explicou que "não é provável que na vez seguinte o jovem vá desistir da muleta que lhe tirou a angústia de cima". Porém, "se não tivermos cuidado estamos a permitir que se desenvolvam dependências psicológicas em tenra idade, em pessoas que fisiologicamente não precisam do medicamento", frisou.

De regresso à faixa etária que mais usa o Viagra, o especialista aponta mudanças na sociedade que transformaram por completo o sexo na idade sénior. Muitos homens tinham as "vidas sexuais em pleno outono ou inverno" e viram no Viagra a possibilidade de passar a ter "um desempenho completamente aceitável, pelo menos, para uma primavera".

Perante uma nova realidade com que muitos homens se depararam, surgiram dois cenários: "Ou o homem decide que o reflorescer da virilidade é demasiado alegre, grato e reconfortante para apenas ser gozado na sua relação e começa a ter relações paralelas - episódicas ou não -, ou a parceira está completamente satisfeita com a vida sexual que têm, e perante um pedido de mudança de frequência, não fica muito satisfeita com a situação".

O que pensam as mulheres da utilização do Viagra?

Não há uma resposta única ou correta para esta questão, até porque ela depende do casal, das razões pela qual os homens usam o medicamento e até da forma como as mulheres se sentem na relação sexual.

"Há [mulheres que aceitam a utilização de Viagra] mas também há mulheres que vão ao ponto da proibição pura e dura." Os extremos são perfeitamente naturais nestas ocasiões e Júlio Machado Vaz explica porquê.

"Pode haver uma mulher que considera que a relação que tem é satisfatória, e não quer que por causa do narcisismo do marido haja medicamentos metidos ao barulho, mas também pode haver um receio desta mulher que o que esteja a acontecer traduza uma menor capacidade de atração da sua parte. Portanto, sente a utilização da droga quase como uma confissão de uma incapacidade erótica da sua parte e isso angustia-a", refere o sexólogo.

É "injusto" pedir ao Viagra uma cura para a disfunção erétil

O comprimido azul tem "indicações e capacidades específicas" e é "injusto" atribuir-lhe "tarefas" que não tem.

"O Viagra tem um efeito pontual. Estes medicamentos não revertem aquilo que está a impedir a ereção de uma forma definitiva. Tomamos por x tempo o Viagra e as dificuldades eréteis desaparecem. Deixamos de ter de tomar a droga? Isso não acontece. Não é uma cura", assegura o sexólogo.

"O comprimido e os derivados são extremamente eficazes em permitir, nomeadamente em homens que por razões físicas não têm capacidade de ereção, que esta recupere ou melhore. Ponto final", complementa o especialista.

O "boom" do Viagra quando o genérico chegou ao mercado

E se o comprimido azul revolucionou o mercado, a entrada em cena dos genéricos tornou o medicamento ainda mais acessível a todos.

Em Portugal, essa mudança aconteceu em 2014 e os comprimidos com o princípio atvo do Viagra - Sildenafil - mais do que duplicaram as vendas. Desde então são vendidas mais de 200 mil embalagens por ano, com 2016 a bater recordes e a alcançar quase 245 mil.

Um dos grandes concorrentes do Viagra, o Cialis, vende mais de 300 mil embalagens por ano desde 2008 e atingiu quase os 380 mil em 2017.

O sexólogo contactado pela TSF realça que o lado financeiro é um fator relevante para a escolha de genéricos, enquanto o urologista José Sanches Magalhães realça que "há muitos doentes que preferem medicamentos originais em relação aos genéricos".

A receita médica e as contraindicações do medicamento

O Viagra está disponível no mercado através de receita médica e os utilizadores devem sempre contactar um especialista para serem avaliados os riscos da toma.

"As contraindicações são muito poucas mas existem", ressalvou Júlio Machado Vaz, que sublinhou a importância de "ouvir a opinião do médico de família, e eventualmente de um cardiologista, e só depois usar o medicamento".

Por outro lado, o urologista José Sanches Magalhães explica ainda que está em causa "um fármaco que tem um efeito vasodilatador, um medicamento seguro [que], no entanto, quando associado a outros medicamentos vasodilatadores pode dar origem a complicações graves".

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