O crioulo também tem gramática. Livro ajuda cabo-verdianos a falar bem a língua materna

No Dia Internacional da Língua Materna, o Instituto do Património Cultural de Cabo Verde lança o "Auto da língua cabo-verdiana", um livro de bolso para ajudar quem fala crioulo a aprender a gramática da língua.

Já existem estudos sobre o crioulo, mas até agora não havia nenhum guia prático para os que falam a língua materna. Adelaide Monteiro, linguista e investigadora, percebeu a lacuna e agarrou este projeto. A curiosidade sobre o crioulo surgiu quando era ainda criança e fazia comparações com o português. O curso de Linguística na Faculdade alimentou a vontade de saber mais.

O crioulo não é ensinado na escola porque as crianças aprendem muito cedo a língua materna entre família e amigos. "Na ausência de um estudo formal, os cabo-verdianos não têm consciência da gramática da sua língua. Alguns acham que não vale a pena e outros dizem que não tem sequer gramática", explica Adelaide.

Na conversa do dia-a-dia, em contextos informais, o crioulo é sempre preferido ao português. A investigadora realça que, até agora, essas situações aconteciam apenas na oralidade. Na passagem para a escrita, regressava-se à língua oficial, "deixar um bilhete, por exemplo, seria já em português". Mas as redes sociais vieram transformar essa realidade. "Irmãos que sempre falam em crioulo quando trocam mensagens no whatsapp, viber ou messenger, ainda que escrevam palavras em português, a construção da frase é em crioulo".

Por isso, a investigadora do Instituto do Património Cultural e das Indústrias Criativas de Cabo Verde defende que este é um bom momento para refletir sobre a gramática e a usá-la como padrão. O "Auto da língua cabo-verdiana" é um contributo. O livro, que não tem mais de 40 páginas, tem como objetivo é ajudar a falar e a escrever bem crioulo, que tem regras próprias. Por exemplo, a ordem das frases com complemento é diferente do português. "Se em português dizemos 'Eu dei uma boneca à menina', em crioulo o complemento indireto vem antes; seria 'N da minina un bonéka'."

Uma outra regra tem a ver com a formação do plural, que obriga a que se use sempre o sujeito nas frases. "Os verbos não têm marcas de pessoa e número. O sujeito é que indica se estou a utilizar a primeira pessoa do plural ou a primeira pessoa do singular, os verbos continuam na mesma forma. Por exemplo, no verbo 'beber' seria: 'N bebe' ('Eu bebi'), 'Bu bebe' ('Tu bebeste'), 'E bebe' ('Ele bebeu')", explica.

Adelaide Monteiro acredita que conhecer as regras ajuda a criar consenso sobre uma língua importante e confere mais dignidade ao crioulo, "sobretudo para um falante comum da língua materna".

O crioulo é também é muito falado em Portugal. Por isso, Adelaide gostava de ver o livro editado também aqui, em nome de uma língua mais forte.

O livro "Auto da língua cabo-verdiana" é lançado esta quinta-feira, 21 de fevereiro, em Cabo Verde por iniciativa do Instituto do Património Cultural.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de