O maravilhoso, perigoso e desregulado mundo do coaching

O que faz um coach? Quem está habilitado a exercer coaching? Quais os perigos da atividade? Falta regulação no setor? As respostas sobre a ferramenta que promete melhorar a vida de quem estiver disposto a trabalhar sobre si próprio.

"Encontre o amor da sua vida em três meses", "Descubra a sua vocação em cinco passos" ou "Conheça aqui a fórmula da felicidade" são frases que facilmente se encontram na montra de qualquer livraria, em cartazes espalhados pela cidade ou em vídeos patrocinados em publicações das redes sociais. Muitas vezes, estas frases são assinadas por "coaches" que prometem ter uma solução rápida e duradoura para qualquer problema.

Para uns o coaching é o "milagre" que os ajudou a mudar de vida. Para outros é uma "aldrabice", uma forma de os oportunistas se aproveitarem daqueles que são emocionalmente mais frágeis. Uns consideram que pode ser praticado por qualquer curioso que goste de ajudar outras pessoas e outros consideram que só os psicólogos estão habilitados a trabalhar com esta ferramenta que não se deve basear em frases feitas e lugares comuns.

Mas, afinal, o que faz um coach? Quem está habilitado a exercer coaching? Quais os perigos desta atividade? Falta regulação neste setor? A TSF falou com vários coaches, com e sem formação em Psicologia, e com a Ordem dos Psicólogos para encontrar as respostas a estas questões.

O que faz um coach?

O nome e a cara de Eduardo Torgal são conhecidos do grande público pela participação em programas de televisão como "Casados à Primeira Vista" e "Carro do Amor". Apresenta-se como life coach, especializado na área dos relacionamentos, e explica que despertou para o mundo do coaching em 2004, aquando do nascimento da sua primeira filha. "Fiz aquela pergunta básica: Qual vai ser o legado que eu lhe vou deixar para além de trabalhar muitas horas por dia e chegar ao final do mês e ter um vencimento?"

Foi nessa altura que fez a primeira formação em coaching "fora de Portugal, à distância" numa empresa australiana "que fazia cinco certificações por ano em diferentes partes do mundo". Eduardo Torgal assegura que aquilo que aprendeu o ajudou a estruturar a sua vida e a descobrir aquilo que queria para si: "ajudar as pessoas a tomarem decisões importantes, sustentadas e alinhadas consigo próprias​​​​​​".

Na visão de Eduardo Torgal "o coach parte do princípio que o cliente já tem todas as soluções" para os seus problemas. Por isso, o trabalho do coach é conseguir que o cliente faça "perguntas que ele ainda não fez a si próprio" e encontre "recursos" para resolver o que o preocupa.

Para isso, Eduardo Torgal desenvolveu um método de nove passos que promete uma "desconstrução e construção de identidade" que permite aos clientes que eles se transformem e projetem "o seu futuro" através de objetivos concretos e adaptados às suas realidades.

Já Kathy Pedro descobriu na Programação Neurolinguística (PNL) a ferramenta ideal para melhorar a sua comunicação enquanto instrutora de fitness. Fez a primeira formação em PNL, em 2009, orientada pela coach Cris Carvalho, e descobriu que ter consciência daquilo que se diz e da forma como se dizem as coisas (seja com a voz, com as palavras ou com o corpo) tem "um impacto gigante" na forma como se vive e nos objetivos que se alcança.

Depois de várias formações, algumas orientadas por John Grinder, o cofundador da PNL, Kathy Pedro abraçou o coach, há três anos como uma profissão paralela que consegue conciliar com as aulas do ginásio.

Nem Kathy, nem Eduardo Torgal têm qualquer formação em Psicologia. Ao contrário de Samuel Antunes, psicólogo e coordenador da pós-graduação em coaching psicológico da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, uma formação reconhecida pela Ordem dos Psicólogos.

Para Samuel Antunes, o coaching é "um processo de relação de ajuda que visa mudanças comportamentais e ou desenvolvimento de competências" que tem por base "a psicologia". Por isso, o especialista é perentório: quem não tem formação em Psicologia não pode denominar-se de coach.

Quem está habilitado a exercer coaching?

O bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Rodrigues, não tem dúvidas: "seria muito mais seguro que o coaching fosse exercido só por psicólogos", exceto "em contextos muito específicos e muito circunscritos como, por exemplo, numa adaptação a um determinado processo fabril ou a entrada numa organização".

A posição da Ordem dos Psicólogos prende-se com o facto de o coaching se tratar de um método "da ciência psicológica", ou seja, "do domínio dos psicólogos".

Opinião diferente tem Eduardo Torgal, que defende que esta preocupação da Ordem dos Psicólogos se trata "de uma questão de quintas" e que estes profissionais "não estão a ver bem comum", mas sim a tentar resolver o seu próprio problema.

Para além disso, Eduardo Torgal assegura que sempre que tem um cliente com problemas psicológicos os encaminha para um profissional de saúde mental: "Se a pessoa tem algum trauma muito grave que impede o seu crescimento, eu tenho dois ou três colegas psicólogos e reencaminho-os para esses profissionais."

Kathy Pedro garante que tem a mesma postura e explica que não trabalha a origem dos problemas dos clientes, mas sim a melhor forma para as pessoas conseguirem resultados: "Quando as pessoas querem saber o 'porquê' eu aconselho um psicólogo."

Francisco Rodrigues adianta que este argumento não faz sentido, porque uma pessoa sem formação em psicologia não tem competências para reconhecer e diagnosticar distúrbios mentais: "A questão é que é preciso perceber o suficiente de ciência psicológica para identificar isso".

"Muitas vezes, um dos riscos é estarmos a intervir com um método que está testado para ser aplicado em pessoas que não tenham perturbações de caráter psicológico. O que pode acontecer é que, não dominando bem a ciência, o resultado de estar a intervir com um método destes, com quem não se pode estar a intervir, tem consequências com que não se sabe lidar", avisa Francisco Rodrigues.

Quais os perigos do coaching?

"Nós temos encontrado várias situações de pessoas que começaram a fazer um trabalho na área do life coaching que ficaram desorganizadas psicologicamente por estarem a trabalhar com gente que não tinha formação e não sabia o que estava a fazer", começa por explicar Samuel Antunes.

O psicólogo conta, inclusive, que tem conhecimento de casos de pessoas que "foram parar à urgência de um hospital psiquiátrico, porque estavam a ser orientadas por um engenheiro, que não tinha formação nenhuma em Psicologia.

Samuel Antunes vai mais longe e diz que este é "um problema de saúde pública" e defende uma regulação urgente do setor: "Tem que haver aqui uma preocupação, tem que haver alguém que regule esta profissão, tem que haver alguém que defenda os consumidores e os clientes do coach".

No mesmo plano, o bastonário da Ordem dos Psicólogos defende uma regulação mais apertada e legislação. "É preciso clarificar de ponto de vista legislativo o que é um ato psicológico. Isso é algo que compete aos decisores políticos e que convinha que acontecesse rapidamente", sustenta Francisco Rodrigues.

Kathy Pedro e Eduardo Torgal, apesar de não concordarem que esta profissão deva ser exclusiva dos psicólogos, acreditam que pode existir regulação, mas que essas regras devem partir do diálogo entre os vários profissionais que atuam no setor. Ambos defendem que "os resultados" determinam o sucesso do coach e que permitem separar "o trigo do joio".

A coach chega mesmo a dizer: "Deixo que seja o meu trabalho a falar por mim". Eduardo Torgal concorda: "Quem mede o sucesso do coach é o resultado. Se o cliente não tiver resultados ele não fala sobre o seu trabalho e, por norma, o trabalho acaba. Se o trabalho do coach não é diferenciado, se ele não trabalha algo muito concreto, ele acaba por ser indiferenciado e acaba por não ter capacidade de subsistir no mercado."

Em jeito de remate, Eduardo Torgal afiança que limitar o exercício do coaching só porque há maus profissionais é o mesmo que dizer que "como existem políticos corruptos nós não precisamos de políticos".

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