Especial Incêndios

Especial TSF Incêndios 2017
Incêndios 2017

Os abraços não limparam as marcas na estrada

Um ano depois da tragédia, a TSF regressa a Pedrógão Grande.

Céu não quer falar. Não insisto. Vim ter com ela, porque a conheci há um ano. "Céu, já não se lembra de mim". Ela semicerra os olhos, eu avivo-lhe a memória: "Estive aqui consigo no ano passado, sou jornalista". A cara dela abre-se num sorriso com um "Ah, já me lembro". E logo a seguir: "Mas eu não quero falar daquilo".

Falar, bem entendido, é falar ao microfone. Sem o gravador ligado, Céu fala. Fala muito. É bom falar com ela e ouvi-la desfiar memórias entre risos e lágrimas.

Os risos detêm-se a lembrar aquele dia em que lhe bateu à porta o Presidente da República. Céu tinha um bolo no forno e nem sabia o que havia de fazer. Deixava queimar o bolo? Corria para o fogão? Afinal tinha ali a mais alta figura do Estado. Foi salva pelo cheiro. Marcelo sentiu o odor doce a sair do forno e, claro, fez-se ao bolo. "Olhe que isso ainda lhe faz mal, assim quente, senhor Presidente". Não faz nada. Comeu-o, sentiu-se em casa. "Ele é assim, é muito descontraído, está sempre à vontade e põe as pessoas à vontade. Mas já viu? Uma pessoa tão importante assim, ali na minha casa?".

Há um ano, quando cheguei a Pedrógão Grande, depois de um caminho feito de negro e de silêncio, estacionei o carro e sentei-me na paragem de autocarro em frente ao tanque onde Céu sobreviveu.

Trazia na altura a incumbência de perguntar às pessoas o que é que lhes faltava, quais as suas necessidades mais urgentes depois do fogo. "Precisamos de abraços", responderam-me.

Marcelo esteve cá, mais do que uma vez, a dar abraços. Dos outros políticos que também por aqui passaram, ninguém fala. Não deixaram marca nas marcas com que os sobreviventes se confrontam todos os dias.

"É muito difícil, é muito difícil". A repetição da frase não ajuda Céu a suster as lágrimas. Agora não há risos.

Todos os dias, Céu passa pelo alcatrão onde morreram os vizinhos, os amigos, os familiares. Estão lá as marcas. "Deviam ter tapado aquilo. Assim a gente passa e está sempre a recordar, a ver os corpos ali, a ouvir os gritos. Estão lá as marcas todas, vê-se perfeitamente".

Algumas placas da localidade também não foram trocadas. Continuam pretas, lambidas pelas chamas. "Era uma coisa tão fácil de fazer, não era?", pergunta-me ela. "Uma pessoas passa ali e não tem como não recordar. Estamos sempre com aquilo dentro da cabeça".

Aquilo. Ainda para mais agora que Pedrógão Grande está inundado de jornalistas que vieram de Lisboa e do Porto para assinalar o primeiro ano da tragédia, têm que estar sempre a falar "daquilo". "É muito difícil, é muito difícil".

E Céu perde-se de novo nas memórias: do que fizeram na véspera do fogo, do trabalho que estavam a acabar, da sardinhada ao jantar. "Para quê? Para quê? No dia a seguir, morreram. Quem havia de dizer?".

Suspira, abana a cabeça, as saudades apertam-lhe o peito. "Aquilo" é muito forte. "É por isso que eu agora aproveito cada dia da minha vida. Tento ser feliz, não vale a pena perder tempo com aborrecimentos, a gente não sabe se não vai morrer amanhã. Aquilo ensinou-me a viver assim".

Mas Céu não quer falar disso.

Felizmente choveu muito e já começa a haver verde por todo o lado. Verde a nascer do negro. Verde que te quero verde. Os olhos de Céu alegram-se. Falemos antes disso, Céu. Falemos da felicidade da chuva e das graças da natureza. Falemos em tons de verde.

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