Sociedade

Sabe o que é um cruciverbalista? A profissão está à beira da extinção

A 21 de dezembro de 1913, Arthur Wynne publicava as primeiras palavras cruzadas no jornal "New York World". Tornaram-se um culto e até foram fundamentais em tempos de espionagem. Cento e cinco anos depois, o passatempo continua a ter adeptos, mas são agora menos e com uma nova realidade: a Internet.

As palavras cruzadas apareceram na vida de Paulo Freixinho porque era mau aluno a Português. Ainda era criança, numa altura em que se ocupavam os tempos mortos nas férias a preencher revistas de passatempos. Rapidamente percebeu que era esta uma forma de aumentar vocabulário e corrigir erros.

O gosto ficou e, anos mais tarde, decidiu partilhá-lo com outros e começar a fazer as suas próprias palavras cruzadas. "Sempre gostei de fazer puzzles e um jogo de palavras cruzadas é um puzzle de palavras, onde crio as minhas próprias peças", conta. O ingrediente essencial é a paciência. Contar letras, preencher grelhas, cruzar palavras, lançar pistas. É isso que faz um cruciverbalista, aquele que cria palavras cruzadas, a profissão de Paulo há 29 anos.

O primeiro trabalho surgiu quando trabalhava num ateliê de artes gráficas e teve a oportunidade de criar uma página de passatempos para uma revista de cinema. Depois, com um amigo lançou uma revista e acabou por ir parar à agência Feriaque, onde está até hoje. Paulo é o principal cruciverbalista em Portugal; a maioria das palavras cruzadas nos jornais e revistas nacionais não assinadas são construídas por ele.

Do papel para o online, o salto foi inevitável. Sinais dos tempos, com a Internet a tornar-se incontornável, as palavras cruzadas a perderem protagonismo para jogos como o Sudoku e o telemóvel a tornar-se um objeto central na vida quotidiana também para ocupar o tempo. Primeiro, lançou um blogue; depois, veio a página palavrascruzadas.pt .

Paulo acredita que trouxe vantagens - hoje há novos públicos para palavras cruzadas, utilizadores que não criaram esse hábito quando os jogos estavam limitados às revistas e jornais em papel.

Exemplo disso, as visitas a escolas onde vai explicar o que faz um cruciverbalista e tenta conquistar novos adeptos. "Eles percebem que é divertido, nunca é enfadonho e adquirem novas palavras", conta, lembrando que ajudam também a desenvolver leitores, "dão uma ginástica em relação ao vocabulário e permite conhecer as palavras difíceis".

Mas a Internet também tornou os cruzadistas mais preguiçosos. É fácil pegar no telemóvel e procurar a resposta para uma palavra que não se encontra. No site, Paulo tem um dicionário de palavras cruzadas que permite encontrar determinada palavra a partir da definição e conclui que cada vez mais pessoas tentam contornar as regras. "As pessoas estão cada vez mais impacientes. São os novos tempos", desabafa.

Numa altura em que cada vez mais se procuram alternativas para controlar o stress, as palavras cruzadas podem ser a terapia certa para reencontrar a calma e a paciência. "Há estudos que provam que são um bom relaxante", atesta Paulo, "há pessoas que as fazem antes de dormir. As palavras cruzadas ajudam a ter aquele momento de descontração. As pessoas têm de parar um bocado, ter o seu momento de pausa".

Um exercício para o cérebro?

Nos últimos anos, as palavras cruzadas voltaram a saltar para a ribalta pelos alegados benefícios para o cérebro, contribuindo para o atraso de problemas como a demência. Paulo não tem certezas sobre isso. Aliás, um estudo publicado na semana passada na revista científica British Medical Journal demonstra que fazer palavras cruzadas não tem impacto no declínio cognitivo que acontece com o envelhecimento.

Esse nunca foi o seu "cavalo de batalha", explica. Quando vai às escolas e pergunta aos alunos os benefícios do jogo, recebe a resposta em uníssono: "faz bem ao cérebro". "Eu digo que mal não faz, mas as palavras cruzadas fazem bem ao vocabulário e à ortografia". E isso, por si, já são vantagens suficientes.

Paulo até defende que sejam integradas no currículo escolar. "Devia haver um momento da aula de Português para fazer palavras cruzadas". E fala em causa em própria.

Uma profissão à beira da extinção

Com as vendas dos jornais a caírem e o aparecimento de programas de computador que geram automaticamente palavras cruzadas, a profissão de Paulo enfrenta sérios riscos de acabar. "Quando vou às escolas, costumo dizer que sou um panda"; bicho raro, à beira da extinção.

O cruciverbalista lembra, por exemplo, que os jornais estão a deixar de ser publicados em papel e a transitar para a Internet, mas as palavras cruzadas não são importadas para estes formatos online.

As palavras cruzadas não vão certamente acabar, mas podem deixar de ser feitas e pensadas por humanos para outros humanos. "Tenho essa sensação de que serei o último cruciverbalista; pelo menos a nível profissional", desabafa.

Ílhavo, 19/12/2013 - Reportagem sobre as palavras cruzadas, estas celebram 100 anos de existência no dia 21 de dezembro de 2013. (Tony Dias/Global Imagens)

As maiores palavras cruzadas online do mundo

A 21 de dezembro de 1913, Arthur Wynne publicava as primeiras palavras cruzadas no jornal "New York World". Por isso, 21 de dezembro passou a ser o Dia das Palavras Cruzadas. Este ano, Paulo Freixinho decidiu lançar um desafio - as maiores palavras cruzadas online do mundo.

No total, são 1146 palavras em 30 colunas por 120 linhas. "É um resumo do meu percurso como cruciverbalista; estão lá as palavras que estão mais ligadas a mim. Demorou mais de uma semana a fazer, tem a maior palavra em língua portuguesa... e está lá a palavra TSF!", revela.

E claro, não tem soluções. "É mesmo um desafio para tentar preencher o máximo de palavras possível".

Fica o desafio para os cruzadistas. Para já, no site palavrascruzadas.pt . Mas talvez um dia chegue ao papel. Há muitos que ainda as procuram assim - "tem outro gostinho".

E aqui, no site da TSF, Paulo também abre o apetite. Ora então: palavra com seis letras que significa sentimento que junta amor, entusiasmo e emoção? Paulo Freixinho preparou palavras cruzadas especiais sobre a TSF. Veja aqui .

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