Póvoa de Varzim

Sargaceiros da Póvoa resistem, mas temem extinção

"Mais ano, menos ano, acaba. Mais dois ou três anos lá vai à vida, porque as forças acabam" é a certeza de Manuel, um dos sargaceiros da Praia do Quião, na Póvoa de Varzim.

A apanha do sargaço nas praias do Norte, as algas que o mar deita fora e amontoa no areal, depois de secas ao sol são utilizadas como um fertilizante natural nos campos agrícolas, está em vias de extinção. É assim há séculos na Póvoa de Varzim.

Em meados do século passado, eram centenas os sargaceiros, que com barcos a que chamavam cortiços não deixavam sequer que as algas chegassem à praia. Eram apanhadas diretamente no mar.

Hoje, amontoam-se nos areais, e os concessionários chegam a pagar a quem as apanhe para manterem as praias limpas.

A TSF foi conhecer alguns dos que resistem nas praias a Norte da Póvoa de Varzim e que têm a certeza que a atividade, mais tarde ou mais cedo, vai desaparecer.

Entram nas praias, pela fresca da manhã ou do final do dia, e estendem o sargaço na praia, ao sol, diariamente. De maio a outubro. Depois de seco há de servir para adubar os campos agrícolas.

"Aproxima-se a plantação da batata, cebola, feijão ou milho e torna-se a estender. Tem de ser guardado durante o inverno. Não há composição nenhuma, só aquela que o mar lhe dá", diz Manuel, um dos poucos resistentes que em A ver o Mar, na Póvoa de Varzim, continua a limpar o sargaço, ou argaço, das praias e a secá-lo ao sol. Isolino faz-lhe companhia. "O ano passado apanhei-o até outubro, mas já o levei verde para a horta".

Apanham o sargaço à mão quando o mar deita fora, ou com o auxílio de um trator quando o mar revolto intensifica a colheita de algas. "O mar é que as colhe, nós só as apanhamos", explicam.

Mas Isolino diz que não é nada como dantes, e Manuel concorda. "Agora não há nada. No tempo dos nossos avós é que era. Nestas praias todas havia cortiços. Falharam os avós e os pais e ficámos nós. Não anda mais ninguém".

Noutros tempos, as algas que ficavam nas praias da Póvoa não chegavam para os pedidos, agora sobram. Por isso, "quando falharmos nós, lá vai. Isto mais ano menos ano acaba".

Por vezes o sargaço é tanto que os concessionários pagam para que seja apanhado e deitado fora, apenas para manter as praias limpas. O que leva os sargaceiros da Póvoa a fazerem um alerta: "isto era uma calamidade aqui na praia se não fizéssemos este trabalho. Ninguém podia vir à praia".

No Quião, a paisagem preenche-se, ainda, com o azul do mar e o castanho das algas, (mais escuras aquelas que foram acabadas de apanhar, mais claras as que estão mais secas), a contrastar com o branco das areias, mas os (poucos) sargaceiros temem que não seja por muito tempo.