Segurança aérea: "confia-se em Fátima". Até o telefone de urgência foi cortado

Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes diz que é urgente criar uma taxa de 20 cêntimos paga por bilhete de avião. Sem isso, Portugal vai continuar sem capacidade para investigar acidentes.

"Estrangulado por um garrote até à inoperacionalidade". É assim que o diretor do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA) descreve o estado da entidade que dirige, independente mas tutelada pelo Ministério do Planeamento e das Infraestruturas.

Por lei, o GPIAA é a entidade responsável no Estado por prevenir e investigar qualquer acidente aéreo em Portugal, mas num texto que escreveu para a comunidade do setor, Álvaro Neves admite que este organismo é "incapaz de liderar uma investigação de um grande acidente aéreo em território nacional".

O que vale é Nossa Senhora de Fátima

O diretor do GPIAA vai mais longe e diz que os governos atuam assim "talvez por continuarem convencidos que a Nossa Senhora de Fátima nos livrará de um acidente grave", algo que Álvaro Neves sublinha que é quase inevitável de acontecer mais tarde ou mais cedo pois o país tem cerca de 600 mil movimentos de aviões por ano.

Em entrevista à TSF, o responsável reafirma tudo o que escreveu e ainda lamenta a falta de resposta do anterior governo e do atual a uma proposta: criar uma nova taxa de 20 cêntimos por bilhete de avião para pagar o trabalho do GPIAA ou tirar esse valor da atual taxa de segurança aérea já paga em cada voo.

Ouça o resumo do jornalista Nuno Guedes das palavras de Álvaro Neves

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Álvaro Neves diz que se essa solução não for para a frente não vê solução para a prevenção e investigação de acidentes em Portugal, numa altura em que tem mais de 100 processos pendentes, além de uma enorme falta de meios humanos, materiais e financeiros.

Até o telefone de emergência já foi cortado

O diretor do GPIAA conta que este ano a situação complicou-se ainda mais. De um orçamento curto de 500 mil euros que já não dava para muita coisa fundamental, o atual governo cortou 40% o que levou a que o gabinete seja "incapaz de cumprir as obrigações financeiras do dia-a-dia", para já não falar das viagens dos investigadores, algo essencial em determinados processos ou ações de prevenção.

Ouça a entrevista completa do diretor do GPIAA à TSF

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Álvaro Neves evita dar pormenores, mas admite que tem tido ameaças de fornecedores e já houve dias em que o GPIAA ficou sem comunicações, inclusivamente na linha de emergência para reportar acidentes.

Este é um número público disponível 24 horas por dia para avisar da ocorrência de qualquer acidente com uma pequena ou grande aeronave. O corte de comunicações durou três dias quando por lei o reporte de acidentes deve ser feito em 6 horas.

O responsável do GPIAA acrescenta que a taxa de 20 cêntimos seria fundamental para criar, também, um fundo de reserva para o Estado em caso de acidente grave.

Álvaro Neves explica a taxa de 20 cêntimos

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Álvaro Neves dá o exemplo de um acidente na enorme zona marítima portuguesa. Normalmente ir ao fundo do mar buscar uma caixa negra custa milhões de euros. Portugal não tem meios para isso e em caso de acidente é preciso atuar com urgência.

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