Bento XVI

Seis anos depois da resignação: o que faz um papa na reforma?

Há seis séculos que um papa não renunciava, mas há seis anos Bento XVI saiu de cena e surpreendeu os fiéis. Hoje, Joseph Ratzinger leva uma vida de recolhimento e oração. Apesar das raras aparições públicas, nem todos veem com bons olhos o facto de continuar a viver no Vaticano.

11 de fevereiro de 2013. A notícia da resignação de Bento XVI apanhava o mundo e o Vaticano de surpresa e colocava um ponto final a um pontificado marcado por uma diminuição das vocações, escândalos de pedofilia e fuga de documentos confidenciais - o chamado Vatileaks.

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A sucessão de acontecimentos que abalavam a Igreja Católica faziam amadurecer a ideia de Joseph Ratzinger querer abdicar. E o agravamento do seu estado de saúde ajudou-o tomar uma decisão pensada e livre de pressões.

Bento XVI não queria seguir as pisadas do seu antecessor, João Paulo II, que levou até ao fim o governo da Igreja, sobrepondo a missão à própria saúde.

"Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado."

Perante uma assembleia de cardeais atónitos, no fim do consistório, Bento XVI comunicava, assim, a sua decisão de renunciar ao pontificado.

É preciso recuar 600 anos para encontrar outra renúncia na Igreja Católica. Aconteceu em 1415, com a resignação do papa Gregório XII (induzida pelo Concílio de Constância).

Mas no caso particular de Bento XVI, esta resignação representava também a renúncia a toda uma vida dedicada à religião.

Joseph Ratzinger tinha apenas cinco anos quando descobriu a vocação e, por isso, esta decisão fechava um longo capítulo na sua história - para além de mudar o rumo da própria Igreja.

Papa só há um

Eleito em abril de 2005, Bento XVI quis concluir o pontificado por iniciativa própria a 28 de fevereiro de 2013, dia da sua última aparição como sumo pontífice.

Era preciso encontrar um sucessor de São Pedro, o que não tardou a acontecer. O papa Francisco foi eleito a 13 de março de 2013, no segundo dia de conclave.

E a partir daí, uma página em branco no pontificado: Bento XVI "desaparecia", sob o ponto de vista institucional.

"Não há dois papas e não há um papa emérito. Eméritos são os bispos e arcebispos que, aos 75 anos, de acordo com o Direito Canónico, se apresentam ao papa para resignarem e, portanto, continuam a sê-lo porque possuem uma ordenação episcopal. O papa tem apenas uma nomeação, a partir do conclave reunido em Roma. Não deixará de ser papa enquanto governar a Igreja", explica Manuel Vilas Boas, especialista da TSF em assuntos religiosos.

Apesar de ter resignado, Joseph Ratzinger (Bento XVI) não se afastou. Ficou em Roma, a viver num convento nos jardins do Vaticano, o que não é bem visto por alguns teólogos, uma vez que esta é uma situação nova quer para Jorge Bergolio (papa Francisco), quer para Joseph Ratzinger.

"Não foi boa ideia", defendeu Andrea Grillo, professor de Teologia no Pontifício Ateneu Sant"Anselmo (Roma), acrescentando: " O bispo emérito deve afastar-se do Vaticano e calar-se para sempre."

Manuel Vilas Boas concorda: "Normalmente, quando os bispos renunciam, vão-se embora no sentido de deixar livre o exercício do poder."

Remetido ao silêncio

Não obstante os incómodos causados, a verdade é que desde que renunciou, Ratzinger fez o que prometeu e mantém uma vida reservada. Recolheu-se e remeteu-se ao silêncio.

"Ele quis fazer isso. Disse que ficaria na retaguarda a rezar, recolheria a um convento e permaneceria em oração constante. Tem sido um homem discreto, apesar de uma e outra vez ter aparecido com algumas opiniões, sobretudo de caráter teológico", recorda Manuel Vilas Boas, para quem o antigo papa "não perdoa a sua condição de teólogo, daí estar sempre disponível e sempre atento ao que se passa."

Joseph Ratzinger pouco tem aparecido em público e, menos ainda, nas redes sociais (a conta do Twitter do Vaticano passou para as "mãos" do atual papa).

As suas aparições resumem-se ao acompanhamento das cerimónias presididas pelo papa Francisco, a receber homenagens e a conceder (raras) entrevistas.

Depois de oito anos à frente dos destinos da Igreja Católica, Ratzinger leva uma vida pacata, dedicada ao estudo e à leitura. E à oração, claro.

"Ele tem sido encontrado essencialmente a rezar, mas deve estar a escrever as suas grandes memórias, deve ter muitas coisas (para contar) que não disse enquanto papa. Deve querer pôr cá fora o teólogo que foi", antecipa Manuel Vilas Boas.

Se o arrependimento (matasse)

E será que nessas memórias Joseph Ratzinger irá revelar que se arrependeu de ter renunciado a chefe da Igreja Católica? Vilas Boas duvida:

"Ele deve estar a agradecer a Deus ter sido tirado do meio 'daquela fogueira', do meio das pessoas que estavam, de certo modo, contaminadas por um espírito do mal que permaneceu contra uma atitude de abertura, de maior liberdade que a Igreja Católica poucas vezes considerou", conclui.

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