Uma psicóloga, uma nutricionista e seis idosos. O que fazem numa cozinha?

Um grupo de utentes do Centro Social e Paroquial do Padrão da Légua, em Matosinhos, são quase todos da mesma geração e sofrem todos de Alzheimer. Na cozinha, vestem os aventais estão pendurados, colocam uma touca na cabeça e calçam umas luvas. Vão cozinhar para relembrar o passado.

Susana Pereira, psicóloga do Centro Social e Paroquial do Padrão da Légua instituição diz que estas sessões de culinária despertam sentidos e memórias. "Nota-se que o paladar deles é diferente do nosso. Aqui, para além de fazerem, também provam. Nestas sessões, a estimulação cognitiva mexe com todos os sentidos".

Entre residentes e utentes do centro de dia, a instituição acompanha cerca de cento e vinte idosos. A maioria sofre da doença de Alzheimer. Para estes, a cozinha pode funcionar como uma terapia. Liliana Pereira, nutricionista diz que para isso escolhe receitas variadas, sendo obrigatórias as mais clássicas. "São receitas que fazem parte da sua memória, do seu passado. Fazemos pratos tradicionais, mas também partos saudáveis, mas saborosos".

A ideia das sessões de culinária para doentes de Alzheimer nasceu dentro do centro social e paroquial, no âmbito do "Concurso de projetos Solidários", promovido pelo Mar Shopping Matosinhos. Sessenta utentes são distribuídos por grupos de seis, e duas vezes por semana passam uma manhã entre tachos, fogão, e mesa. São eles, acompanhados pelas duas técnicas que cozinham uma receita.

"Hoje vamos fazer um enrolado de legumes", anuncia Liliana Pereira.

Cinco mulheres e um homem chegam sorridentes à cozinha. Erlantina Calado tem 90 anos. O sotaque denuncia a sua origem, apesar de já ter saído do Alentejo há muitas décadas. Diz que está pronta para fazer de tudo, "não sei o que vou fazer... é o que for útil e necessário".

Berta Pereira, 77 anos, é a mais nova do grupo e tem mais genica que os outros todos juntos. "Gosto de fazer bolos e aqui elas [técnicas] ajudam-nos. Gosto de fazer de tudo, não há nada que não goste de fazer", remata a mais espevitada das utentes do centro.

Com surdez profunda, Manuel Silva também chega pronto para cozinhar o que for preciso. "Vou cortar fruta, legumes e depois vou comer. Isto para nós é uma lembrança do que era a nossa casa".

A debilidade física de Rosa, mulher de Manuel, obriga-a a ficar sentada, junto ao balcão. Expressa-se, também com alguma dificuldade, sobre o marido, que cozinhava quando viviam sozinhos em casa. Agora a casa deles é o centro. Cozinhar foi sempre um gosto para Amélia Proença, utente do centro de dia. Sabe bem como se preparar para mais umas horas de trabalho na cozinha. "tenho de por o avental, as luvas, a touca... Sempre gostei de cozinhar. Cozinhava muito bem", acrescenta.

Só falta Emília Silva, a mais introvertida e a que menos apreciava a cozinha, quando cabia a ela a tarefa de preparar as refeições em casa. As memórias não são as melhores, Não gostava de cozinhar com o meu marido perto de mim...", diz com emoção.

Em poucos minutos, o grupo reúne-se à volta de um pequeno balcão, no centro da cozinha. Berta lê a receita, neste caso o recheio do enrolado de legumes que vão preparar.

Cada um assume uma tarefa. Uns cortam legumes, outros lavam a louça, outros batem a massa de pão que vai ser a cobertura do preparado. Para além dos alimentos, os utentes têm que recordar o nome de alguns utensílios, como o da batedeira.

Uma hora depois, o enrolado de legumes está pronto a sair do forno. Os pratos confecionados nestas sessões são partilhados por todos no final. Neste dia não foi exceção. Sentados à mesa, os seis utentes do Centro Social e Paroquial do Padrão da Légua bebem sumo de laranja e comem o pão que os próprios amassaram. Todos aprovam e devoram o que têm no prato.

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