Incêndios

Vai sempre "haver mortos" nos incêndios. "Cada ano é pior"

O perito em incêndios florestais, David Caballero, alerta que os fogos serão cada vez mais mortíferos e destruidores. "Temos de aceitar como sociedade, que vai haver mortos".

David Caballero é o responsável da área de incêndios florestais da Meteogrid, uma empresa espanhola dedicada aos fenómenos meteorológicos e do clima.

O perito espanhol defende que os bombeiros "não são a solução". A resposta está nos cidadãos, criando por exemplo, "comunidades resistentes ao avanço do fogo"

"Cada ano é pior. Vemos que cada ano há mais incêndios que saem da nossa capacidade de extinção e da nossa capacidade de controlo. E cada ano, vemos como os incêndios, inclusive pequenos incêndios, têm grandes consequências. Vimo-lo em Portugal, na Grécia e em Espanha e a natureza está a avisar-nos que pode ser pior. O que acontece é que agora, a meteorologia e o clima estão a pôr mais energia no céu e os nossos erros na terra, nos combustíveis, têm de ser cada vez menores. Temos energia nos céus e no solo e as consequências são cada vez piores. O que está a acontecer é que temos elementos muito energéticos, como situações de tormenta, atmosfera muito instável, secas muito grandes, que iniciam e empurram os fogos muito rapidamente e energeticamente. Há pouca água na vegetação, o que quer dizer que toda a energia está na combustão. Além disso, a vegetação está a mudar. Há espécies que não estão adaptadas à seca ou estão a pedir uma mudança e nós estamos no meio da mudança.

Então, o que se pode fazer como prevenção?

Bom, a prevenção é primeiro, entender que estamos numa mudança, entender que os fenómenos que temos pela frente são muito destrutivos, entender que faz falta uma gestão desse território, mas sobretudo, entender que estamos a entrar numa fase de autoproteção. Os bombeiros e os corpos de intervenção de primeira resposta não vão resolver esse problema, vai para além da sua capacidade de resposta. Temos de fazer algo como cidadãos, para criar comunidades resistentes ao avanço do fogo, criando por exemplo vivendas que estejam adaptadas ao avanço do fogo e criar corta-fogos verdes, à volta das urbanizações, mas sobretudo criando uma cultura do risco. Muitas vezes, e vimos isso em Pedrógão Grande, ficar em casa é a opção menos má. Não se pode dizer que seja seguro, mas é mais seguro do que sair e ficar exposto ao fogo. Como comunidade, como cidadão, podemos e devemos fazer muito com a autoproteção e a prevenção, porque a extinção é a resposta, mas não é a solução.

Para haver prevenção, tem de haver informação. Mas a informação não está a passar...

Temos informação, estamos na época da informação. O que acho, e foi o que aconteceu neste caso, é que a informação não é canalizada no momento, nem pelos canais adequados para que chegue ao receptor final adequado. E há outra questão importante, falta informação de curto prazo porque os eventos desenvolvem-se rapidamente. Por exemplo, quando as tormentas se cruzaram com os incêndios em Pedrogão, essa informação existia antecipadamente, mas não chegou às mãos adequadas, dos bombeiros, dos corpos de intervenção e até das pessoas, para tomarem as decisões adequadas, porque entraram pela famosa estrada de Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera, sem saber que estavam presos num incêndio.

Portugal e Espanha podem melhorar a cooperação conjunta?

Já o estão a fazer e podem melhorar. Porque em Espanha e Portugal temos uma fronteira que é praticamente administrativa, porque na realidade, o território é o mesmo. Do ponto de vista dos incêndios, exportamos e importamos incêndios, é algo curioso desde sempre. Há protocolos de intervenção, há um projeto que terminámos, o Spitfire, para utilizar de forma conjunta, os dados meteorológicos e os índices de risco de incêndio e também há muitos acordos de colaboração e investigação de incêndios florestais e intercâmbio de formação entre as escolas de proteção civil.

Mas não se pode garantir que não vai haver mais mortos?

Não, isso não. Lamentavelmente, estamos a entrar em episódios em que temos de aceitar como sociedade, que vai haver mortos. São incêndios muito difíceis de conter e haverá sempre perdas. Temos de aceitar isso como sociedade. Vamos tentar minimizar esse número de falecidos. Que haja zero, um, 2, 5, mas não 90, cem ou mil. Outra coisa que temos de aceitar como sociedade é que os bombeiros são o último recurso. Fazem o que podem no cenário que se encontram, não são a solução, é um recurso final. A resposta está em preparar esses cenários: preparar a vegetação, as nossas casas, o nosso próprio comportamento perante um incêndio florestal. Essa é a resposta.

A conversa com David Caballero decorreu em Bruxelas, no âmbito do Security Research Event, um encontro promovido pela Comissão Europeia, para discutir avanços em diferentes áreas da segurança, como o combate ao terrorismo, os ciberataques, a segurança marítima, no espaço público, os incêndios ou as catástrofes naturais.

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