Invasão do leste europeu mudou mapa genético dos cidadãos ibéricos

Investigação sobre o passado genético da população da Península Ibérica desde há 8 mil anos foi publicado esta quinta-feira na revista Science.

Há 4500 anos os homens da Península Ibérica desapareceram e foram substituídos por invasores vindos do leste europeu, responsáveis por toda a descendência a partir da Idade do Bronze. É o que mostra um estudo arqueogenético desenvolvido por mais de 100 investigadores internacionais, entre eles o português Pedro Soares.

O artigo publicado esta quinta-feira na revista Science contextualiza como a comunidade ibérica mudou de caçadora-recoletora até aos dias de hoje, incluindo o fluxo genético correspondente à chegada da agricultura há 7500 anos e as trocas genéticas com o Norte de África desde há 4000 anos.

Uma das conclusões mais "surpreendentes" deste estudo sobre a herança genética da população ibérica foi constatar que a migração do povo das estepes russas e ucranianas, que já se sabia ter chegado até boa parte do continente europeu, avançou até à Península Ibérica no início da Idade do Bronze (há 4500 anos). Para isso muito terão contribuído os avanços tecnológicos da época, como os carros puxados por cavalos domesticados.

"Acabou por ser surpreendente ver a força usada mesmo neste extremo do continente europeu. Verificamos que há cerca de 4500 anos houve uma substituição quase total das linhagens masculinas, ou seja, uma substituição de todos os homens que existiam na Península Ibérica por estes migrantes que vieram de fora", revela o geneticista e investigador da Universidade do Minho, Pedro Soares.

Estas conclusões lançam a suspeita de um extermínio da população masculina ibérica na Idade do Bronze. "Extermínio é uma expressão que tem uma conotação de violência e é difícil responder com toda a certeza o que se passou, principalmente porque muita gente defende que a nível arqueológico não vemos sinais de violência extrema", refere.

Porém, certo é que as provas de ADN agora evidenciadas neste estudo mostram que os invasores do leste europeu foram responsáveis por quase toda a descendência com mulheres locais da Península Ibérica a partir do terceiro milénio A.C., através de um modelo idêntico ao que já tinha sido verificado num estudo anterior sobre o passado genético da Índia, em que também participou Pedro Soares. "Observou-se o mesmo padrão, com a substituição de boa parte das linhagens masculinas da Índia por este mesmo grupo de migrantes", recorda. Chamaram-lhe a "Invasão Ariana" o que suscitou uma violenta oposição por parte das autoridades da Índia. "Quando estamos a fazer ciência não estamos a pensar nas repercussões políticas ou religiosas que poderão ter e neste caso da Índia teve um impacto de que não estávamos à espera", refere. Um dos investigadores indianos que esteve a trabalhar no projeto desde o seu início acabou mesmo por se retirar da coautoria do artigo na sua fase final.

Estes migrantes do leste europeu - sabe-se agora - chegaram também à Península Ibérica. E além de alterarem por completo o mapa genético, substituíram todas as línguas locais pelo indo-europeu, defende Pedro Soares. "Uma das poucas exceções é o basco, em Espanha, e o curioso é que quando olhamos para a população ancestral basca, apesar de eles não falarem indo-europeu, verificamos que eles também tiveram uma forte substituição destas linhagens masculinas", nota.

Esta investigação, agora publicada na revista Science, assenta, sobretudo, na análise de ADN antigo recolhido em ossadas encontradas em Portugal e Espanha, com recurso aos mais recentes avanços tecnológicos, nomeadamente as tecnologias de sequenciação que permitem hoje uma sequenciação do ADN a partir de minúsculas amostras, o que não era possível até há muito poucos anos. "Outra grande inovação é a existência dos chamados Laboratórios de ADN antigo, completamente isolados de ADN exterior", um equipamento que Pedro Soares desconhece existir em Portugal.

Este estudo, liderado pela Universidade de Harvard, coloca a Península Ibérica como uma das regiões mais bem caracterizadas do Mundo ao nível do ADN humano antigo, ou seja, obtido através de amostras arqueológicas.

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