Previsão avisou que chamas iam para a estrada da morte. Nada foi feito

Ministério Público aponta dois culpados do que aconteceu na estrada de Pedrógão Grande onde morreram quase 50 pessoas.

É uma das principais dúvidas sobre o que aconteceu a 17 de junho em Pedrógão Grande. Como é que a Estrada Nacional 236-1, onde morreram 47 pessoas, não foi cortada?

As razões apontadas pelo Ministério Público (MP) são várias, mas a acusação lida pela TSF garante que o comando chegou mesmo a ter uma previsão meteorológica específica para o local atualizada que mostrava "a alteração do sentido do vento e o aumento da sua intensidade, permitindo perceber que o incêndio se desenvolvia em direção à EN 236-1", mas não mudou o "plano estratégico de ação", "arruinando irremediavelmente a hipótese de salvaguarda das povoações e pessoas".

A frase anterior é do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Leiria e a culpa é apontada, pelo MP, a Mário Cerol, o segundo comandante do Centro Distrital de Operações de Socorro (CDOS) que nessa hora liderava as operações.

A acusação reparte, contudo, as responsabilidades pelo não-fecho da 'estrada da morte' com o comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut.

Horas decisivas (de desnorte)

Em duas horas decisivas, detalha o documento, com inúmeras chamadas de socorro a cair, o comando esteve dividido entre estes dois homens que, para o MP, decidiram, "em concertação", mudar de sítio o Posto de Comando Operacional, bem como a viatura de comando e comunicações. Uma mudança que correu mal e demorou mais tempo do que devia.

Num impasse, sem liderança e sem capacidade de ação, o fogo descontrolou-se.

A decisão de relocalização foi fatal, segundo o Ministério Público, fazendo com que os dois comandantes não cumprissem as suas obrigações de comando, falhando, por exemplo, a chamada dos meios terrestres e aéreos necessários.

Mais grave, no meio da confusão, "cinco horas volvidas sobre o primeiro alerta, o posto de comando operacional não dispunha de dois dos seus instrumentos fundamentais atualizados".

Entre esses instrumentos estavam uma previsão meteorológica para a zona e uma avaliação dos cenários desfavoráveis que permitiria prever que as chamas se encaminhavam para perto de casas e da EN236-1.

Foi a ação de Augusto Arnaut que alegadamente impediu que se tivesse um Plano Estratégico de Ação atualizado e que não se pedisse à Autoridade Municipal de Proteção Civil as medidas de evacuação e avisos à população.

O comandante dos bombeiros "não promoveu, igualmente, como se exigia, o corte de qualquer via de comunicação rodoviária, designadamente da EN 236-1 e das demais vias onde aconteceram mortes".

Previsão revelou mudança no vento

Augusto Arnaut tinha de ter pedido uma previsão meteorológica muito mais cedo, que só chegaria quando estava ao comando Mário Cerol que, de acordo com o MP, "não curou de cumprir as suas obrigações de comando", nomeadamente por não promover as medidas de proteção das casas nem ter pedido à Autoridade Municipal de Proteção Civil as evacuações".

Por fim, conclui o DIAP de Leiria, o segundo comandante distrital "não promoveu, igualmente, como se exigia, o corte de qualquer via de comunicação rodoviária, designadamente da EN 236-1", apesar de entretanto já ter recebido uma previsão meteorológica atualizada que mostrava que o incêndio ia para a estrada que ficará para sempre conhecida como 'da morte'.

"Apesar de já estar munido com a previsão meteorológica específica para o local, que contemplava a alteração do sentido do vento e o aumento da sua intensidade, permitindo perceber que o incêndio se desenvolvia agora para Oeste, em direção à EN236-1 e a Figueiró dos Vinhos, o arguido Mário Cerol não efetuou um Plano Estratégico de Ação atualizado", "arruinando", diz a acusação, as hipóteses de salvar várias vítimas.

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