"Li o episódio piloto de A Mulher do Senhor Ministro com Paulo Portas à minha frente"

Ela aparece na televisão todas as semanas, exuberante no DDT, discreta no 1986. Diz que é tímida e que o público gosta dela porque se identifica com a banalidade da sua vida.

É no estúdio onde gravou a Senhora Dona a quem tudo faz espécie que a entrevista decorre. O texto vinha escrito à mão e, depois de uma versão com algumas hesitações, fez uma segunda com todas as inflexões da viúva um pouco tonta que não se entende com a vida de hoje. Quer fazer no teatro o monólogo Shirley Valentine, uma mulher só na sua cozinha. Ana Bela dos Santos Simões, mais conhecida como Ana Bola, nasceu em Lisboa em 1952 e é uma das poucas mulheres a escrever comédia em Portugal.

Por que és Ana Bola?
É uma alcunha da escola, porque era gorduchinha. Era uma coisa querida, de tal maneira que eu adotei o nome e ficou para toda a vida.

Fizeste o curso do ISLA, um curso que as meninas faziam para serem secretárias.
Foi o que eu fiz.

Como eras tu em secretária?
Péssima. Era o meu emprego. Já tinha um filho e os meus pais acharam que aquilo era uma coisa certa para mim. E eu fui, até porque não tinha decidido ainda o que gostaria de fazer. Como tinha a criança para criar, precisava de ganhar dinheiro. Depois do curso de Secretariado, arranjei um emprego numa multinacional que era da CUF, a Gertal, onde era secretária da administração. A empresa era meio portuguesa, meio francesa e como eu tinha 14 anos de Liceu Francês encaixava-me bem. O meu trabalho era o mais bem feito que eu conseguia fazer, não era mal feito, o que eu detestava aquilo não tem explicação.

Ias logo de manhã chateada? Não é esse o teu estilo.
Não é o meu estilo, se tiver de ir vou. Mas ao fim de uns anos percebi que não era aquilo que queria para a minha vida, independentemente de ter que sustentar uma criança.

Criaste muito bem o teu filho Tiago [Fortes].
Tive muitas ajudas dos meus pais que já eram reformados. A minha mãe reformou-se aos 48 anos e o meu pai pouco depois. Foram uma ajuda fundamental, porque eu trabalhava das nove às seis da tarde, quando não era mais, e as crianças naquela altura ainda não iam para a escola tão pequeninas. Em determinada altura eu percebi que não era aquilo que queria fazer.

Tinhas alguma tendência para o espetáculo?
Tinha, eu já nasci palhaçorra, era a palhacita da família.

Na escola também?
Na escola menos porque era bastante tímida. Eu sou bastante tímida. Era muito mais observadora do que participativa, só começava a participar nas brincadeiras quando me conseguia calmamente enturmar com as outras crianças. Não era uma espalha-brasas, nem pouco mais ou menos, era bem comportada, não era a típica "sou uma grande palhaçorra e vou pôr toda a aula a rir", nada disso. Em casa conseguia soltar-me um bocadinho, o nosso núcleo familiar não era muito grande.

Tens irmãos?
Não tenho, infelizmente, mas tinha vários primos e a nossa família era unida e havia festas, aniversários, jantares. Comecei aí a abrir um bocadinho o meu leque de palhaçorrice. Como percebi que tinha algum público, a coisa foi-se desenvolvendo. Nas festas de família, os meus primos e primas e eu fazíamos o entertainment, e eu era líder daquilo tudo. Aí não tinha vergonha.

Tu própria escrevias os textos, como fazes hoje?
Inventava, nem escrevia nada. Eu faço assim, tu vestes-te assim, fazemos assado, uma coisa muito primária de miúdos. Tive a sorte de os meus pais me levarem muito ao teatro e ao cinema desde pequenina. Na pós-adolescência, talvez, quando comecei a ir ver teatro para pessoas mais crescidas, percebi que gostava de ser uma daquelas pessoas e que aquilo era uma coisa poderosa.

Em que sentido?
Poderosa no sentido de pôr uma plateia de centenas de pessoas presas a um texto, a uma pessoa, a três atores. Não sei se tem a ver com poder, se calhar tem. Ou era uma maneira de ultrapassar aquela timidez que toda a gente achava que eu não tinha, mas tinha. Gostava sobretudo de comédia e de ver a interação dos atores.

Lembras-te de alguém em particular?
Lembro-me do Rui Mendes, imagina tu, que vi no Teatro Adóque, numa das primeiras revistas a seguir ao 25 de Abril. Lembro-me de ele ter uma cena em que interagia com o público e descia do palco até à plateia. Fiquei fascinada, como se ele tivesse saído do ecrã e fosse uma coisa mágica, como se aquela criatura não devesse ter descido do palco. "Olha, isto é possível, aqui está uma coisa que eu se calhar gostava de fazer".

E realmente estreaste-te no Adóque [1926, Noves Fora Nada, 1976].
Estreei-me no Adóque porque o meu núcleo de amigos era principalmente de músicos, mas toda a gente das artes se cruzava um bocadinho naquela altura, ali pelos Vavás [café Vavá, em Alvalade] desta vida.

És uma menina da Avenida de Roma?
Sou, mais da Avenida Almirante Gago Coutinho. Os músicos cruzavam-se com os atores, fazia-se grandes conversetas de café, não lhes vamos chamar tertúlias, não tinha esse peso. Mas passava-se muito tempo no café a conversar, a trocar ideias. O 25 de Abril era muito recente, estava tudo a efervescer, era do Vavá que se partia para as manifestações, era ali que se falava de tudo e mais alguma coisa. Conheci o Henrique Viana, um dos fundadores do Adóque. Perguntou-me: Que idade tens? Tenho 24. Gostavas de fazer teatro? Gostava. Então anda lá fazer uma audição ao Adóque.

Vamos explicar o que era o Adóque.
Era uma cooperativa que se instalou numa barraca que havia no Martim Moniz, 40 graus lá dentro no verão, os batons derretiam todos, mas onde se fizeram revistas muito revolucionárias. Até ali, tinha sido tudo censurado pelo lápis azul.

Esta entrevista coincide com o 25 de Abril. Podes dizer que de algum modo és um produto desse período?
Sem dúvida. O meu pai era um homem de esquerda, penso que nunca foi filiado no Partido Comunista mas era simpatizante. Fui educada com princípios de esquerda, princípios mais humanistas do que outra coisa. Nunca fui engajada politicamente, nunca militei num partido nem dei a cara por ninguém, gosto muito da minha liberdade, mas a minha educação deve ter tido alguma coisa a ver com isso. O que se passava no Adóque era a grande explosão do que tinha sido proibido até à altura. Fazia-se espetáculos em que se dizia tudo e mais alguma coisa, às vezes até coisas de mais. Mas para isso depois há as peneiras que como o tempo vão deixando o que é bom.

Foi um tempo intenso para ti?
Foi maravilhoso. Acumulei ainda durante algum tempo o escritório com o Adóque, onde fiquei depois da audição, com uns papelinhos muito pequeninos, umas coisas divertidas mas ainda muito timidamente. Encaixei-me muito bem e gostei muito. No horário de expediente, ia dormir para o escritório. À noite ia fazer teatro, porque havia duas sessões por dia, aos sábados e aos domingos duas ou três. Era um exagero. Um dia o senhor francês que mandava na empresa disse: "Ó minha senhora, se calhar era melhor fazer uma opção". E eu fiz a opção, com muito, muito medo. Com os meus pais sempre a dizer-me "tu vê lá o que vais fazer, porque o teatro..." Mas eu fiz a opção e no dia em que estreei no Adóque os meus pais foram lá, mandaram-me um enorme ramo de flores e o meu filho escreveu um bilhete a desejar-me boa sorte na minha nova profissão. E parece que não correu mal.

Pois se tu até chegaste a ministra!
Pois cheguei.

Primeiro foste mulher do senhor ministro, depois foste ministra.
Exatamente... Há pessoas que foram do teatro e chegaram a lugares muito importantes. Por exemplo a doutora Maria Barroso não chegou a ministra mas foi mulher do doutor Mário Soares, e uma mulher importantíssima na vida política e social portuguesa. Não sou caso único.

O Adóque, disseste, foi uma explosão.
E foi um viveiro. Muitos atores começaram ali, porque era um sítio onde se podia fazer teatro de uma maneira muito livre. Havia outros também.

Havia o teatro independente.
Sim, fazia outro tipo de peças, fundamentais também na altura. Mas quem gostava de comédia e quem tinha tendência para fazer comédia acabava ali no Adóque. Depois houve no Parque Mayer tentativas de de revista sem a censura, mas que já não correram tão bem, acho que aquilo estava muito minado, muito viciado. O Adóque foi uma pedrada no charco.

E tinhas muitos amigos músicos, e ficaste sempre nesse mundo. És casada com um músico, o Zé Nabo.
Desde mil novecentos e troca o passo, há 37 anos. Eu adoro música, sempre adorei.
Chegaste a substituir o Luís Filipe Barros no Rock em Stock [Rádio Comercial].
Eu gosto de música e os meus amigos eram músicos, foi uma coisa com que vivi sempre. Na minha casa ouvia-se música. Antes da televisão, havia telefonia. E os meus pais ouviam discos brasileiros, daquelas cantoras maravilhosas, a Tânia Maria por exemplo, e muitos boleros.

Tu cantas bem?
Eu era cantadeira, gosto de cantar, é muito libertador, é como dançar. Mas não me considero uma cantora. Canto se for preciso e sou capaz de fazer uns coros bem feitinhos, fazer umas vozes e não desafinar.
Foste a dois festivais da Eurovisão.
Sim, na condição de cantar juntamente com outras pessoas e fazer uns coros bem feitinhos sem desafinar. Sempre que participava nos coros a canção ganhava. Mas cantar bem tem muito que se lhe diga, é uma coisa completamente diferente.

Como foram as experiências dos festivais da Eurovisão?
Eu fiz isso por desporto. Estava com os meus amigos, podia cantar e viajar a sítios onde eu jamais teria dinheiro para ir naquela altura. Era uma grande oportunidade de conhecer um mundo que eu não imaginava que existia. O Festival da Eurovisão no estrangeiro, e penso que aqui será a mesma coisa, é uma máquina inacreditável. Estamos a falar de há imensos anos, e na altura já era uma coisa extraordinária.

Foste com Os Amigos e com o Carlos Paião.
A Inglaterra com Os Amigos e depois à Irlanda com o Carlos Paião. Foi uma grande experiência, muito engraçada. Percebe-se ali a pequenez de Portugal em relação aos outros países da Europa. Íamos: os cantores, os coralistas, o maestro e duma pessoa da RTP, eventualmente outra pessoa da editora. Éramos os pobrezinhos da Eurovisão, literalmente. As outras editoras faziam festas enormes, todos os dias havia cocktails - e claro que éramos convidados para todos.

E aproveitavam?
Aproveitávamos e bem. Jamais poderíamos ganhar porque aquilo é um business e quem tem unhas toca guitarra. Aquilo era para vender discos, vender músicas e vender cantores, nunca tivemos hipótese nenhuma. A coisa transformou-se no ano passado, o Salvador ganhou e acredito que por duas razões muito simples: a cantiga é mesmo muito bonita e o Salvador é um ser muito especial, fez uma coisa que mais ninguém teria feito. Teve muito a ver com isso, porque não demos festas por aí além. E também provavelmente porque Portugal está na moda.

Entretanto apareceu na tua vida o Júlio Isidro.
Tivemos um caso de amor, durante dois anos. Eu adoro o Júlio. Enquanto estivemos juntos foi muito feliz, quando nos separámos - obviamente, uma separação deixa sempre alguma mágoa - mas continuamos muito amigos

E a trabalhar juntos.
A trabalhar juntos. Não houve drama nenhum. Não era ele ainda, e eu não era para ele ainda. De tal maneira que cada um de nós encontrou depois a sua metade com quem ainda está.

Foi aí que começaste a fazer televisão.
Comecei a fazer televisão desafiada - não assediada - pelo Júlio Isidro. Comecei devagarinho a fazer o Fungagá da Bicharada, o Passeio dos Alegres e fui andando por aí fora. Mas a culpa é dele.

Tens outro culpado no meio disto tudo que é o Herman.
São bons culpados, culpados de categoria! O Herman convidou-me mais tarde. As pessoas acham que eu estava no Tal Canal mas não.

Só começaste no Humor de Perdição.
Pois foi. Quem estava no Tal Canal era o Zé [Nabo], a tocar na banda que acompanhava o Tony Silva, com o Ramon Gallarza e mais dois ou três músicos. Como tinha algum tempo livre, consegui assistir a algumas gravações. E ficava fascinada com o Herman, toda a gente ficava.

Pela maneira de trabalhar?
O génio que ele tem, a inteligência, a relação com as pessoas com quem trabalha, de uma educação exemplar. Não conheço ninguém que trabalhe daquela maneira, tão calma, tão certeira. Às vezes, parece que não se está a trabalhar, anda-se por ali. Ele paira, não deixando de ir dizendo o que tem para dizer. "Isto é assim, isto está mal, era melhor se fizéssemos assim", sempre com uma doçura incrível, sempre tratando muito bem todos os colegas. É uma aprendizagem única. Um dia enchi-me de coragem e disse: "Ó Herman, tenho e entrar num programa teu, eu quero, tem que ser, é a coisa que mais quero na vida". E quando foi o Humor de Perdição ele convidou-me e a partir daí continuamos sempre a trabalhar.

Depois até te independentizaste.
Sim, ele abriu-me ali um espaço para eu dar a minha voadela.
Tradicionalmente, havia mulheres que faziam comédia, grandes atrizes, mas não havia autoras de comédia.
E mesmo atrizes não havia muitas, em comparação com os homens. Mas autoras não havia. Foi o Herman que me deu, dentro do programa dele - do Parabéns - um espaço de cinco minutos para eu escrever um sketch que fazia com o Vítor de Sousa. Foi ele que me pôs a voar. Quando dizem que o Herman suga as pessoas, que as agarra, é completamente mentira. Ele sabe, como qualquer pessoa muito inteligente que está neste ofício, que quanto melhor for o teu colega, melhor vai o teu programa. Ele sempre soube disso e sempre me deu espaço.

E não tiveste medo?
Pavor. É pôr a cabeça no cepo. As pessoas adoram julgar sumariamente e está julgado. Uma mulher a fazer isso é julgada quatro, cinco, seis, sete vezes com mais violência, porque a comedia tradicionalmente é uma coisa de homens, continua a ser. Há países onde não é assim. Em França tens n mulheres comediantes, tantas ou mais do que homens, nos países de língua francesa há muitas.
Nos de língua inglesa também há algumas.
Também, mas aqui não. Havia umas senhoras que eram comediantes, como a Ivone Silva, a Marina Mota, a Anabela, que faziam textos de autores masculinos. Mas jamais passava pela cabeça de alguém deixar uma mulher escrever um texto. Ainda hoje há muito mais homens do que mulheres entre os autores de comédia.

Sai-te naturalmente, é-te fácil escrever?
É. Escrevi centenas de programas de televisão. É muito desgastante pelo julgamento. Se um ator fizer pior ou melhor e o texto não for dele, há sempre a desculpa do texto que não era bom, podia ter feito melhor mas não tinha um bom texto. Quando o texto é teu e a representação é tua, ou fazes bem ou estás tramada. E esse julgamento é muito cansativo.
Esse julgamento é do público ou dos teus pares?
É sobretudos meus pares.

O público gosta de ti?
Gosta, tenho essa sorte. Posso dizer hoje com muita certeza que as pessoas que me veem há anos e anos na televisão e no teatro gostam de mim. Evidentemente, ninguém vai chegar ao pé de mim e dizer "Ó minha senhora, a senhora é muito má".

Mas podem ser desagradáveis, antipáticos, virar a cara.
Podem, mas eu acho que tenho uma vida tão banal, tão parecida com a delas, que isso ajuda a transformar esta situação numa coisa não tão distante. Sou igualzinha a elas. As pessoas são muito gentis, de uma maneira geral. Há uma coisa que me comove muito. Hoje, a maior parte das pessoas que vêm ter comigo agradecem-me o facto de eu as fazer rir há anos. A vida não está fácil para ninguém. Isso deixa-me muito feliz porque essa é a minha missão, deixar as pessoas mais descontraídas.

Tu crias personagens, como a do Faz-me espécie. Como é que as personagens aparecem?
Eu conheço-as, estas mulheres existem. Continuo a ser muito observadora. Se estou no supermercado ou numa esplanada, estou sempre a observar. Esta senhora existe, é de um bairro tradicional, conservadora, viúva, não percebe muito bem as modernices, no entanto tenta encaixar-se. Estas senhoras existem. Se entrares na Mexicana às cinco da tarde, estão todas com o mesmo cabelo de 1970, com a mesma quantidade de laca. Normalmente, a menos que seja uma personagem tão diferente e tão exótica que eu tenha de criá-la de raiz, inspiro-me em duas ou três pessoas que conheço.

Como apareceu A Mulher do Senhor Ministro?
Foi mais uma vez um desafio em que eu me atirei para a frente e podia-me ter corrido muito mal. Felizmente correu muito bem. O José Eduardo Moniz tinha uma produtora de televisão, fazia programas para a RTP - já tinha saído de lá - e conhecia algumas coisas que eu tinha feito no Herman. Um dia convidou-me para almoçar e disse-me: "Quero fazer uma série chamada A Mulher do Senhor Ministro. Queres escrever e queres fazer?" Quero.

Logo assim?
Logo. Cheia de medo. Combinámos que eu fazia um episódio piloto, ia lê-lo a casa dele com mais duas ou três pessoas e veríamos se era aquilo que ele queria, se estava no bom caminho. Deu-me duas ou três ideias, que tipo de ministro era aquele, que tipo de mulher era aquela, que família, eventualmente, poderiam ter. Lá fui para casa, para a máquina de escrever manual fazer o primeiro episódio, que é o mais difícil de todos. Era a tomada de posse do ministro, ainda ela não tinha aquele cabelão, ainda tinha um rabo-de-cavalo.

Ela só ficou com aquele cabelão depois?
Só depois de ele tomar posse. Ele toma posse e o cabelo toma posse dela. Fui a casa do Zé Eduardo Moniz, onde estavam o Pedro Curto e a Manuela Moura Guedes, e estava também o Paulo Portas, amigo do Zé Eduardo. E eu: olha a minha vida, então eu agora vou ter de ler o episódio à frente desta gente toda, aqui com o Paulo Portas a olhar para mim? Bom, eu conhecia o Paulo de outras vidas, de termos alguns amigos comuns, mas ter ali o Paulo Portas a ler o meu episódio...

Mas leste?
Li o episódio, tentei interpretar cada uma das personagens, explicando alguma coisa. Eles adoraram e avançou-se com a série. Fez-se uma primeira, uma segunda, uma terceira, uma quarta, uma quinta. Fiz centenas de episódios até cair para a banda de cansaço.

Foi quando foste ministra.
Tinha que se refrescar aquilo de alguma maneira. O Rocha, coitadinho, já não dava, reformou-se e então eu transformei-me em ministra.

Essas personagens continuam na tua vida?
Continuam na minha e na do público, até porque os episódios passam em pescadinha na RTP Memória, constantemente. Foi uma série que na altura marcou bastante. Houve alguma crítica menos simpática que dizia que se eu estava convencida de que estava a fazer o Yes Minister podia ir para casa. Acontece que eu nunca estive convencida de que estava a fazer o Yes Minister, primeiro porque não seria capaz, e depois porque não foi isso que me foi pedido, não foi isso que me foi encomendado. Com muita pena minha de não poder fazer o Yes Minister, que era uma série genial. Mas de uma maneira geral correu muito bem, as audiências eram muito boas, de tal maneira que se foi prolongando no tempo.

Na série 1986 és uma pessoa muito normal.
Gostei muito de fazer aquela personagem, gostei muito do texto do Markl. Tinha uma grande confiança no texto e no realizador, que tem feito coisas ótimas. O principio da série pareceu-me muito engraçado. O desafio para mim era não fazer mais do mesmo.

Não fazer comédia?
Exatamente. Embora aquilo tenha um tom muito leve, e aquela senhora tenha alguma leveza, não fui fazer palhaçorros. Devo dizer-te que estou um bocadinho cansada disso. Se calhar é por não ir para nova e andar nisto há muitos anos.

Fazes televisão, o teu corpo, a tua cara são muito visíveis. Como vives as mudanças da idade?
A grande batalha que tenho comigo mesma é aquilo que sinto, que penso. Aquilo que sou não condiz com a idade que tenho no bilhete de identidade. É uma batalha de todos nós, acredito que contigo seja o mesmo. Como temos a sorte de trabalhar em meios onde temos muita informação, somos muito curiosas, estamos a par da vida das coisas que vão acontecendo, das coisas que aparecem, das novas tecnologias. E há muitas mulheres assim, felizmente. A nossa cabeça não corresponde a uma cabeça de 66. Essa batalha da cabeça com o corpo é um bocado estranha, porque o corpo, sobretudo nas mulheres, vai fazendo questão de avisar "olha minha menina que estás a envelhecer". O que faço contra isso? Estava gordíssima, resolvi fazer uma dieta. Agora não precisava de fazer dieta porque tenho aqui uma coisa, uma doençazinha intestinal sem importância, posso comer porque não engordo. Se soubesse não tinha feito a dieta.

Tinhas esperado.
Como sou atriz, não tenho nenhum desejo, nem nunca tive, de transformar a minha cara, de fazer o que quer que fosse, nem sequer uma injeção de botox. Não sou fundamentalista, cada um é livre de fazer o que entender e ficar com a cara com que lhe apetecer ficar, mesmo que nós fiquemos de boca aberta. É-me completamente indiferente. Enquanto eu não mexer na minha cara e no meu corpo, para mim é sinal de que o meu cérebro consegue ultrapassar isso muito bem e que eu vou encarando o envelhecimento com alguma harmonia. No dia em que isso não acontecer, suponho que vou àquele doutor do boné aos bonequinhos e digo "ó senhor doutor, tire-me aqui os papos". Não sei. Acho que se não me aconteceu até agora já não me vai acontecer. Também não sou tão fundamentalista que diga, como a Simone de Oliveira - mas ela é muito dramática, muito engraçada - "cada ruga é uma marca das coisas que eu passei". Eu se por acaso tivesse menos umas rugas não me chateava nada. Mas eu olho para o espelho e não me vejo com 66 anos. Não me vejo com idade nenhuma. Os casais que vivem juntos muitos anos continuam a ver-se como quando eram mais novos, portanto o meu marido também não me vê com 66 anos.

E tu também não o vês com a idade que tem?
Eu também não o vejo com quase 70. Enquanto estivermos assim, nada farei que seja invasivo na minha saúde física e mental. Não sou apresentadora de televisão, não tenho concorrência. Acredito que noutros países onde isso exista estejam mais pressionadas - as mulheres e os homens também - para tirar uma ruga, fazer um lifting.

Vais voltar a fazer o Ana Bola sem filtro?
Farei o princípio do Ana Bola sem filtro, voltarei a fazer com certeza, cada vez há mais matéria. Entretanto hei de fazer uma peça. A minha vontade é fazer cada vez menos televisão e cada vez mais teatro. Já fiz televisão com muitas condições, com as melhores pessoas. Continuo a trabalhar com as melhores pessoas mas não com as melhores condições. Andámos todos muito de cavalo para burro, porque não há dinheiro, porque não há dinheiro, porque não há dinheiro. Há dinheiro mas não há para nós, não vamos discutir isso. Mas eu já não tenho idade para isso.

E o palco é outra coisa?
O palco é outra coisa, não tem nada a ver. Na plateia estão as pessoas que pagaram o bilhete e foram para te ver. E tu tens certeza de que vão lá para gostar de ti. Se te correr mal, correu mal, é pouca sorte, há dias em que corre pior. Mas quando corre bem, e corre quase sempre bem, tu sais com os pés no ar, é quase um alívio. É uma coisa muito mais humana, muito mais direta. Isto é um exagero, o que eu vou dizer, mas é muito mais limpa. Tenho uma peça para fazer, um clássico chamado Shirley Valentine [do dramaturgo inglês Willy Russell], que já foi feito pelas atrizes cotas como eu em quase todo o lado.

Já tens data para isso?
Não sei ainda se vou estreá-la já em outubro, se vamos ficar com ela para janeiro. É um monólogo de uma mulher que está sozinha numa cozinha. É uma comédia com o seu quê de acidozinho, e gosto disso também. É a vida de uma mulher que está numa cozinha. É um excelente texto inglês que está muito bem traduzido e que quero muito fazer.

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