Marcelo não esquece quem ajudou o povo que Salazar abandonou

Cinquenta anos depois das cheias de 1967, a Grande Reportagem TSF ouviu testemunhos de quem sobreviveu à força da água e de quem trabalhou para ajudar os outros perante a inércia e censura do regime.

Os dias que se seguiram às cheias de novembro de 1967 foram "intensamente vividos" por Marcelo Rebelo de Sousa. "Com a intensidade da gravidade da situação, mas também da idade que tinha", conta à TSF.

O Presidente da República era então um jovem de 18 anos, no segundo ano do curso de Direito. Com um grupo de estudantes ligado a movimentos católicos juvenis, arregaçou as mangas para ajudar.

"Estivemos durante praticamente 24 horas permanentemente com equipas de socorro e de apoio, desorganizadas. Nós achamos que nos organizamos da melhor maneira, mas era o que era possível fazer no meio daquele caos".

"Tudo clandestino, porque não havia estruturas do regime" de Oliveira Salazar. O apoio do Estado só chegou volvidos vários dias da tragédia. Enquanto isso, apenas estudantes e bombeiros trabalharam para salvar vidas, resgatar os mortos e cuidar dos mais de mil desalojados.

Uma situação "insustentável" que representou para Marcelo Rebelo de Sousa "um choque pelo lado mais chocante, que é o lado social". Cinquenta anos depois garante: "Eu nunca mais esqueci isso na vida".

A injustiça de uma "Lisboa paralela"

Devido a um grande fluxo migratório, Lisboa cresceu desordenadamente nos anos 60. "À volta do que era a Lisboa dos anos 40 e começo dos 50, uma outra Lisboa tinha nascido de forma selvagem, anárquica", explica Marcelo.

Sem planeamento urbanístico nem condições financeiras, centenas de pessoas viviam de forma clandestina em bairros de lata, habitações sem condições para resistir à força da água.

"Houve uma precipitação superior ao normal, mas as inundações acabaram por atingir essa outra Lisboa, essa Lisboa paralela", que muitos na capital nem conheciam, "o que acabaria por explicar a dimensão da tragédia". Foram oficialmente reconhecidos 462 mortos, mas estima-se que o número real supere os 700.

"As pessoas souberam, apesar do que foi filtrado pela censura (...) e foi um grande choque porque se percebeu que, para além da injustiça da ditadura, uma injustiça política, havia uma injustiça económica e social traduzida nas condições de vida daquelas pessoas que ali morreram, ou perderam as suas casas, por causa da sociedade em que viviam, do contexto social em que viviam. Isso marcou a sociedade portuguesa."

Fingir que não aconteceu nada

"Quem passou por aquelas inundações nunca mais ficou igual", concorda Diana Andringa. A "revolta" de perceber que havia "uma população completamente abandonada à chuva, ao mau tempo à inclemência, que vivem em bairros completamente frágeis que desaparecem na água" foi para a estudante um "salto político".

"Com as cheias tivemos um Estado completamente paralisado, que levou dias a reagir (...) Quando começaram a aparecer as primeiras forças militarizadas foi para correr com os estudantes, que eram os subversivos", conta. "A preocupação do governo não era que as pessoas tivessem morrido numa catástrofe, era 'estes malandros destes comunistas estão a tornar isto demasiado visível'".

Antes de enveredar pelo jornalismo, em novembro de 1967 Diana Andringa frequentava o curso de Medicina. Passou os dias depois das cheias a dar centenas de vacinas conta o tétano e a febre tifóide, algo que nunca fizera antes.

No Instituto Superior Técnico, fazia também por difundir a verdade que o regime queria esconder, através de jornais estudantis. "As pessoas tinham morrido engolidas pela lama, mas o que havia era 'vamos fingir que não aconteceu nada'. Não era verdade. Tinha acontecido e as pessoas sabiam".

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