Memórias do Salto

Chama-se "Memórias do Salto" e é um projeto que pretende por "em museu" o património das memórias da emigração clandestina durante o Estado Novo e na região de Trás-os-Montes.

Durante dois anos, a Associação Amigos do Museu Abade de Baçal de Bragança em parceria com o próprio Museu e a Faculdade de letras da Universidade do Porto, reuniram 74 testemunhos de pessoas que emigraram a "salto" para França, entre os anos de 1954 e 1974.

Julieta Alves foi uma das que emigrou a salto e uma das entrevistadas. Tem 65 anos. Era adolescente quando foi para França, a salto. "Tinha feito 17 anos. Combinámos, eu e mais 7 e o passador sair no dia da festa da aldeia de Pinela, em agosto. Saímos de madrugada para a PIDE (Polícia do Estado) não dar por ela. Éramos oito".

Oito mais o passador. Iam de carro fora das localidades. Nas aldeias e vilas de Espanha passavam a pé e pelo monte, por causa da Guardia Civil. "A Espanha vivia uma ditadura com o general Franco tal qual como Portugal com Salazar. Ninguém podia sair do país. Demorámos mais de três dias a chegar a Paris. Dormíamos ao relento", acrescenta.

Dormiam junto às cortes dos animais fora das localidades para não serem vistos. Julieta Alves pagou em 1969 7 contos, "uma fortuna!", salienta. Um dia de trabalho nessa altura valia 7 escudos. O que mais lhe ficou na lembrança, dos mais de três dias de caminho, grande parte a pé e descalça, foi a passagem da ponte na fronteira de Espanha para França, debaixo de tiros.

"O passador tinha-nos dito para, à meia-noite quando mudavam o turno, aproveitar e correr para o outro lado. Assim fizemos. Os guardas espanhóis viram-nos e começaram aos tiros. Só os sentia passarem por cima de nós. Acho que eles olharam para nós e viram um grupo de rapazes e raparigas (nenhum tinha 20 anos) e não quiseram fazer-nos mal".

Julieta Alves conta emocionada que "os guardas franceses aperceberam-se do que estava a acontecer e vieram ter connosco ao meio da ponte. Os espanhóis deixaram logo de disparar. Nesse momento começou um mundo novo para mim. Estive em França 26 anos".

Um mundo novo que muitos alcançavam a muito custo. As memórias de 74 emigrantes que foram a salto para França e de outros atores dessas vivências, estão agora reunidas em filme num projeto que já leva dois anos. Ana Pereira, presidente da Associação dos Amigos do Museu Abade de Baçal diz que conseguiram recolher muitas histórias incríveis.

"Não só dos emigrantes mas também de agentes da PIDE e dos Guardas-Fiscais que muitas vezes fechavam os olhos porque conheciam as pessoas e não lhe queriam mal". Ana Pereira acrescenta que para lá dos depoimentos, "as pessoas podem experimentar uma passadeira interativa onde poderão vivenciar alguns caminhos dos que foram a salto".

Este trabalho, acrescenta Ana Afonso, diretora do Museu Abade de Baçal em Bragança, vem dar corpo e voz a um património que estava no esquecimento e é apresentado num altura em que as migrações estão na ordem do dia.

"E será um primeiro passo para um projeto muito mais vasto de museografia das memórias ligadas à emigração clandestina. Faz todo o sentido apresentar o projeto no ano europeu do património e com o lema o passado encontra o futuro. O tema das migrações está também na ordem do dia até pela multiculturalidade e construção de espaço europeu económico e social. No fundo o que nós queremos com este projeto é dar futuro a esta memória".

Este sábado, um ciclo de conferências com investigadores de França, País Basco e Portugal, preenchem o programa. Amanhã, durante toda a tarde e noite, um ciclo de cinema francês e português pode ser visto nas instalações do Museu centenário na zona histórica de Bragança.

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