"Ministério Público disse que não havia perigo. Levei sete facadas nas costas"

Iolanda esteve na manifestação contra a violência doméstica a dar a cara. Conta os dias desde que o marido a tentou matar, já passaram mais de seis meses e "sair à rua é um terror, sempre a olhar por cima do ombro".

"Vou dar a cara para que nenhuma mulher se cale, para que quem sofre peça ajuda." O testemunho é de Iolanda, uma mulher que foi vítima de violência doméstica e que sobreviveu a um ataque com sete facadas. O homem continua a monte e o medo continua a fazer parte do dia a dia desta mulher, do seu filho e da família.

Na manifestação contra a violência doméstica, há centenas de cartazes nas mãos de mulheres e homens: "O amor não mata", "Violência não é amor", "Neto de Moura processa-me" ou "O machismo mata". Um deles salta à vista pela imagem de umas costas com cicatrizes. "Meses de terror, um assassino a monte, marcada para sempre", pode ler-se.

As palavras são de Iolanda, que se emociona no testemunho e que admite ter receio, mas que não esconde a necessidade de dar a cara, de mostrar que o silêncio não é uma solução.

"Comecei a ser vítima de violência psicológica durante a gravidez. Quando o meu filho nasceu - tinha ele 15 dias - fui agredida pela primeira vez. Ainda aguentei, passado uns tempos separei-me e aí começaram as perseguições, a chantagem, as tentativas de rapto do meu filho", recorda, realçando que começou por pedir ajuda aos pais, à PSP e ao Ministério Público (MP), que lhe "fechou a porta".

Iolanda contou com o apoio da PSP da área de residência, mas o Estado falhou-lhe quando mais precisou. "Quando pedi ajuda ao Ministério Público, para que ele não se pudesse aproximar de mim, do meu filho, nem da minha família, o MP disse que não havia perigo", relembra.

Passados seis dias de ter recebido uma "carta a dizer que não havia perigo", o marido "invadiu" a casa onde vivia. "Agrediu-me com o meu filho ao colo. Dois meses depois tentou-me matar", recorda.

"Tenta-se viver e, um dia, quando saio de casa para ir trabalhar, levo sete facadas nas costas." A imagem das costas no dia em que Iolanda saiu do hospital está no cartaz que traz na mão. "Sete cicatrizes. E tenho sete nas costas e muitas na cabeça que não se apagam, é muito difícil", conta, tentando controlar a emoção.

Passaram seis meses e 13 dias. Contam-se os dias, sabem-se de cor, até porque quem lhe fez isto "continua a monte". São "seis meses e 13 dias em que sair à rua é um terror, sempre a olhar por cima do ombro porque ele pode estar no meio de nós e eu não sei onde ele está e a minha dúvida é se ele vem para acabar... todos os os dias o pensamento é o mesmo".

Iolanda acredita que "talvez o MP precise de redefinir um bocadinho mais as leis e o que atribuiu [no seu caso]". "Naquele dia em que ele me tentou matar, se ele tivesse uma pulseira eletrónica eu sabia que ele estava à porta da minha casa desde as sete horas da manhã e não tinha saído de casa", afirma, apelando a medidas diferentes daquelas que estão definidas para os casos de violência doméstica.

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