"Não vou ganhar o suficiente para constituir família." A precariedade que condena a vida dos jovens

No Dia Mundial da Juventude, a CGTP organiza uma manifestação em defesa dos direitos laborais das gerações mais novas. A TSF juntou um jovem sindicalizado e um trabalhador aposentado para perceber saber se as reivindicações de outros tempos se mantêm atuais.

Virgílio Guerreiro tem 75 anos, trabalhou durante 32 na Carris. Dinis Lourenço está na casa dos 27, trabalha no setor social e, esta tarde, será um dos rostos que vão desfilar entre o Rossio e a Assembleia da República, em defesa de melhores condições de trabalho para quem entrou há pouco tempo no mercado laboral.

As razões para o protesto são várias, mas há uma à cabeça: "A precariedade é o maior problema que afeta a juventude ", diz Dinis, que traça um retrato negro do problema."Há milhares de trabalhadores com vínculo precário, a recibos verdes, falsos recibos verdes, subcontratados por empresas de trabalho temporário,..."

À medida que Dinis vai elencando os problemas que afetam os mais novos, Virgílio esboça um sorriso. "Aquilo que hoje nós combatemos, a precariedade, era precisamente o trabalho que eu e as pessoas do meu tempo, considerávamos trabalho anormal. Era aquele trabalho que havia no Alentejo, sazonal - monda, ceifa, apanha da azeitona - que tinha de ser feito naquele período, e então os proprietários iam buscar as pessoas às aldeias para irem fazer aquele trabalho".

Tudo mudou anos depois, sublinha Virgílio, com a chegada da Revolução de Abril. "Trabalhando muito tempo nessas condições, tivemos a sorte de vir o 25 de Abril. Para nós, foi um momento de salvação".

Entre as principais conquistas da Revolução dos Cravos, este alentejano de gema destaca "o direito às férias, o direito de sabermos que chegamos ao fim do mês e recebemos o rendimento para suportar tudo o que a gente idealiza".

Foi sol de pouca dura. Virgílio e Dinis consideram que as últimas décadas têm sido de retrocesso. "Eu não tenho perspetiva de ganhar o suficiente para constituir família", afirma o mais jovem. Problema tanto maior para quem vive em Lisboa, fruto do preço das habitações: "Já há pessoas que têm de se juntar com outras para suportar uma renda".

"Fora de Lisboa não há emprego, em Lisboa não há sítio para viver, sintetiza Dinis, explicando o dilema com que se confrontam muitos jovens.

Os baixos salários não são, para Dinis, o único problema. Sublinha, por exemplo, o caso dos horários de trabalho: "Cada vez há mais trabalhadores, especialmente jovens, com folgas rotativas, com horários rotativos, o que não lhes permite planear o mês." "Às vezes recebem ao mês o horário para o mês inteiro, muitas vezes recebem à semana, quando não recebem um sms a perguntar: vens trabalhar amanhã, ou não vens trabalhar amanhã?", diz. O mesmo acontece em relação aos bancos de horas. "É muito mais fácil pôr horas no banco de horas do que tirar. O trabalhador trabalha mais meia hora, mais meia hora, mais meia hora, mas depois, quando é para tirar...oh! Ó amigo, agora não dá, não pode ser, estamos em período disto e daquilo. Não pode ser."

Entre os sinais dos novos tempos, estão algumas das designações associadas ao mundo laborar, que são motivo de surpresa para Virgílio. Por exemplo, uma palavra que parece coisa do passado: «trabalhador». "Deixou de existir. [Hoje] é colaborador. É uma palavra mais pomposa, mais simpática. Colaborar com o quê? Um trabalhador que está a trabalhar numa empresa, ganha o salário mínimo, vê a empresa a florir e os seus dirigentes.... Mas é mais simpático.", diz Vírgilio, para quem não há simpatia possível pelo termo. "O trabalhador é sempre trabalhador. O trabalhador é aquele que trabalha, é aquele que cria riqueza, é aquele que produz, é aquele que é explorado e é aquele que menos proveitos tem do seu rendimento de trabalho."

Em defesa deste conceito, da luta pela melhoria das condições de trabalho, Dinis sugere que é nos sindicatos que os mais jovens devem encontrar um espaço de combate comum. Lamenta, a este propósito, que o número de sindicalizados nas últimas décadas tenha diminuído.

"Há muito uma cultura de isolamento dos jovens. Faça você mesmo! É um individualismo que é muito potenciado e que leva a este tipo de descrença na unidade e na união", refere.

Virgílio reforça este ponto com uma ideia preconcebida que traduz uma certa resignação: "Havia muitos jovens que diziam que não valia a pena descontar.... com incentivos aos seguros, aos PPR´s... e muita juventude de hoje em dia, pouco esclarecida, diz que não vale a pena descontar para a segurança social porque vão chegar à idade deles e não vão ter direito à reforma. Isto é uma utopia".

Se há realidade defendida e partilhada por Dinis e Virgílio, apesar da diferença de quase 50 anos, é que a luta pelo equilíbrio das relações laborais só se faz percorrendo um caminho. "A luta não pode parar. Enquanto houver isto, a luta tem de continuar. Entre os novos, os médios e os velhos", defende Virgílio. Dinis subscreve: " A luta continua. Assim como diz o Virgílio, onde haja trabalhadores a recibos verdes, a falsos recibos verdes, onde haja trabalhadores subcontratados, onde haja horários desregulados, onde haja baixos salários, a luta tem que continuar. Tem que continuar".

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