Nas asas da memória

No dia em que o Aeroporto Francisco Sá Carneiro faz 70 anos, a TSF recupera as memórias de um dos primeiros pilotos da TAP. Roque Braz de Oliveira perdeu a conta às milhas que fez entre Lisboa e Pedras Rubras.

O aeroporto da "capital do norte" abriu em 2 de dezembro de 1945 e não demorou muito até que Braz de Oliveira começasse a voar para lá. Era, na altura, um dos jovens pilotos da TAP, que aproveitavam o facto de Pedras Rubras ter ainda pouco movimento, para treinarem eventuais situações de emergência.

Peça com o antigo piloto da TAP, Braz de Oliveira, da jornalista Guilhermina Sousa com sonorização de José Guerreiro

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"Cortávamos todos os motores, ou ficávamos só com um... Enfim, fazíamos aqueles treinos de que poderíamos precisar quando tivéssemos avarias. Estávamos à vontade", recorda.

O aeroporto do Porto nasceu em 1945, no lugar de Pedras Rubras, freguesia de Moreira, no concelho da Maia. Uma grande mudança na vida das pessoas que ali viviam. Ainda assim, "foi um sucesso, uma coisa sensacional".

Muito desse sucesso, diz Roque Braz de Oliveira, deve-se a Joaquim Barros Prata, o segundo diretor de Pedras Rubras, entre 1955 e 1970. Era, em simultâneo, comandante da TAP.

O Douro não facilitava

A primeira viagem que Braz de Oliveira fez entre a Portela e Pedras Rubras aconteceu em 1946. Ia aos comandos de um Dakota DC-3, "um dos primeiros aviões da TAP". Nesta "linha", comandou vários tipos de aviões. Dos bimotores DC-3 e DC-4 ao primeiro jato da companhia aérea portuguesa, o Caravelle, nos primeiros anos da década de 60.

Com o "Dakota, fazia uma hora, 50 minutos. Com o Caravelle, fiz 28 minutos"! De gargalhada contagiante, recorda que, quando os pilotos da TAP começaram a pilotar jatos, "era ver quem é que fazia menos tempo"!

Ainda assim, um aeroporto a norte, com o rio ali ao lado, dava trabalho aos pilotos. O nevoeiro não facilitava. "Interferia muito. Aterrei lá com muito pouca visibilidade. 400, 500 metros.... Fazíamos umas aterragens a baixar muito"!

Gente "famosa"

Nos idos de 40, o avião facilitou, e muito a vida, a quem queria, ou precisava, de ir ao Porto com mais ou menos frequência. A bordo havia gente de todo o tipo, mais ou menos conhecida, a companhia era procurada por todos.

No TAP de Braz de Oliveira, houve também muitas caras conhecidas. Amália; o Padre Américo, fundador da Casa do Gaiato; e até um herdeiro do trono, D. Duarte. "Era pequenino, haveria de ter uns 8 anos. O pai pediu para ir lá à frente, mostrar ao filho o cockpit. Sentou-se ao meu lado, muito contente".

Noutra vez, o passageiro ilustre era o Padre Américo, fundador da Casa do Gaiato, que nascia, por aqueles dias, em Paço do Sousa, no Porto. Motivo quanto bastou para que se apelasse à "contribuição" de todos os que estavam a bordo. "E a tripulação também deu".

Roque Braz de Oliveira tirou o "brevet" com apenas 16 anos. Voou durante mais de 5 décadas, grande parte delas ao serviço da TAP. O último voo foi em 1983, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Diz, a rir, que lhe "tiraram as asas" aos 60 anos. Mas as memórias, essas, ainda voam bem alto.

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