O americano que em 2009 previu o que aconteceu em Portugal em 2017

Mark Beighley previu que podiam arder, num ano, 500 mil hectares em Portugal. As razões são muitas, admite, mas à TSF destaca uma: o abandono do Interior. "Os idosos não conseguem tratar os campos".

A frase foi escrita em 2009 num relatório entregue a uma das comissões parlamentares sobre fogos: "Na próxima década, o risco catastrófico de uma época de incêndios que consuma uma área igual ou superior a 500 mil hectares, em Portugal, deve ser levado muito a sério".

O principal autor do aviso é Mark Beighley, antigo dirigente dos Serviços Florestais do EUA, que antes, em 2004, tinha ajudado o governo português a fazer o Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndio.

Dos vários cenários possíveis em 2009 para o futuro presentes no relatório, Mark Beighley conta à TSF que aquele que apontava para 5% de hipóteses de arderem 500 mil hectares num ano era o mais extremo. Mas a verdade é que se concretizou.

Beighley já andou várias vezes por Portugal onde percorreu muitos quilómetros e recorda que na altura debateu com o outro autor do estudo, Al Hyde, se deviam colocar esse pior cenário no relatório pois muitos diziam que nunca iria acontecer.

Decidiram fazê-lo porque em 2003 já tinham ardido 425 mil hectares e com as alterações climáticas e épocas de fogo mais longas chegar aos 500 mil não seria, afinal, assim tanto.

"Idosos não conseguem tratar os campos"

Oito anos depois desse e de outros estudos que fez sobre os fogos em Portugal, Mark Beighley admite que algumas coisas melhoraram, mas muitas estão iguais e isso é um problema.

De todos os problemas que potenciam tantos fogos em Portugal, o especialista destaca um: "As razões são muitas, a resposta é complexa e não é fácil, mas o principal fator é o abandono das zonas rurais.

Os idosos que ficam não conseguem manter os campos que antes bloqueavam o avanço do fogo, dando lugar a árvores ou mato que ardem facilmente", defende o norte-americano.

Beighley explica que conjugando o abandono do Interior, a progressão de espécies sem controlo que ardem facilmente e as alterações climáticas, era previsível que o resultado podia ser este.

Consultor sobre incêndio florestais, Mark Beighley prepara-se para voltar a Portugal atualizar o relatório de 2009, numa iniciativa organizada com Tiago Oliveira, entretanto nomeado pelo governo presidente da Estrutura de Missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais.

"É sexy anunciar mais aviões"

Além do abandono do Interior, Beighley diz que Portugal tem vários outros problemas que aumentam os riscos de incêndio, nomeadamente o excesso de ignições por mão humana, quase sempre por negligência, mas também a aposta exacerbada no combate e não na prevenção.

"É sexy anunciar mais aviões, helicópteros, meios aéreos pesados, todos os políticos gostam de o fazer... mas não é o mais importante", defende.

Para Mark Beighley "o inesperado deve ser cada vez mais esperado" pois "as coisas estão a mudar" resultado das alterações climáticas.

Tal como os furacões são cada vez mais comuns nos Estados Unidos da América, em Portugal os grandes fogos serão cada vez mais a norma e não a exceção.

O exemplo francês e italiano

Além de conhecer bem o mundo rural norte-americano, Mark Beighley já andou por Espanha, Itália e França, outros países com zonas mediterrânicas quentes, e conta que é certo que a maior diferença de Portugal é o abandono do mundo rural e dos campos.

"Estive há pouco tempo em Itália, por exemplo, e uma das coisas que reparei é que lá as zonas rurais não estão abandonadas, há imensas pessoas a cultivarem uvas ou árvores de fruto... França também não tem esse problema e há muitos programas para manter as pessoas no campo". Projetos que segundo este norte-americano fazem falta para travar, também, os incêndios florestais.

O erro de combater os fogos com base no calendário

Além das críticas ao abandono do interior e pouca prevenção, Mark Beighley recorda que uma das coisas que criticavam em 2009 no combate aos fogos em Portugal era a existência de um calendário pré-programado que define os meios disponíveis em cada fase do ano (Bravo, Charlie, Delta, etc.).

Lendo o que está na página 27, o especialista cita o que escreveram há 8 anos: "Com padrões climáticos sazonais cada vez mais variáveis, o histórico de incêndios pode não ser um indicador tão fiável como anteriormente", defendendo-se que os meios disponíveis variem conforme as previsões climatéricas.

Planear de acordo com o calendário, defende Beighley, "pode ser bom em termos orçamentais, mas como se viu este ano é um erro".

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