Os bêbados têm uma padroeira. No andor não vai a santa, mas um pipo

Chama-se Bebiana e é a padroeira dos bêbados. Pelo menos em Paul, no concelho da Covilhã, onde o povo sai à rua para venerar uma santa que não tem imagem, nem está numa capela ou igreja.

Na chamada procissão profana, que é um dos pontos altos dos festejos, Bebiana é representada por um barril de vinho, que percorre as ruas da localidade em cima de um andor, numa festa que serve de pretexto para as pessoas provarem vinho e sobretudo a jeropiga, não fosse Paul a capital desta bebida alcoólica.

A festa pagã tem mais de um século e começou com os pastores da serra da Estrela, que se deslocavam à aldeia no início dezembro e, em jeito de procissão, percorriam as adegas das casas das pessoas mais abastadas, onde abriam as pipas para provar o chamado vinho novo. Com os chocalhos na cintura, bebiam e festejavam junto dos barris. Depois faziam uma "grande ceia" que acabava com um dos pastores a pregar o chamado sermão bebiano.

A tradição foi-se perdendo com o tempo até que, em 2004 e em jeito de "brincadeira", a Casa do Povo de Paul resgatou este costume, que "pegou", e que de ano para ano atrai cada vez mais pessoas para participar na festa dedicada aquela que é conhecida, entre os habitantes locais, como a santa dos bêbados, embora a organização prefira não referir-se ao evento nesses termos.

"A santa Bebiana não existe. É um pipo de vinho que é um agradecimento e um louvar ao Deus Baco. É um louvor ao vinho que é um bem tão preciso e uma bênção", explica Leonor Narciso, da direção da Cava do Povo, acrescentando que na iniciativa se valoriza este néctar, "mas [que deve ser] sempre bebido com moderação".

"O vinho está presente, mas o que conta é a alegria, o convívio e a valorização deste bem precioso e da nossa história, da nossa tradição", sublinha.

As ruas de Paul enchem-se com milhares de pessoas durante os festejos, que manda a tradição que se realizem sempre no início de dezembro. Este ano decorre de 30 de novembro a 2 de dezembro.

O evento é um convívio e por isso ajuda a reunir as pessoas da terra. David Sardinha não perde uma edição e aproveita estes dias para "estar com a família". "O melhor disto é o convívio do pessoal e o vinho também é bom", afirma.

Já José Valezim conta que a santa Bebiana é sinónimo de "festa rija" e de "bebedeira". "É uma festa para os bêbados e uma tradição antiga do povo", destaca.

José Alberto participa nos festejos "desde pequenino" e acrescenta que o evento atrai sempre "muita gente". "Nos últimos anos tem sido assim e, de ano para ano, tem progredido. As pessoas vêm à procura de diversão e dos copos", salienta.

Os turistas que passam pela iniciativa são muitos. Nicolau Veríssimo, natural de Viana do Castelo, marca presença nos festejos da santa Bebiana há três anos consecutivos. Considera o evento "muito interessante" e descreve o vinho e a jeropiga, que são servidos em cerca de três dezenas de espaços, como "uma maravilha". "Ajuda a passar a noite e a dormir melhor", diz.

"Quer chova, quer neve, quem tem sede bebe", pelo menos durante os festejos, sublinha a organização, já que nestes dias frios de outono a festa também ajuda a aquecer.

"Isto vai dar garantidamente para aquecer porque acima de dez graus tudo aquece", sustenta Joaquim Rosa, que se deslocou com um grupo de seis amigos de Lisboa só para marcar presença na festa da santa Bebiana.

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