Os riscos da reabilitação urbana: euforia sem fiscalização e falta de mão de obra

Engenheiros e arquitetos retratam "euforia" que pode ter consequências nas cidades e no maior risco de acidentes.

Em dois meses caíram duas gruas na cidade do Porto. As razões ainda estão a ser investigadas e a autarquia já suspendeu licenças e mandou fiscalizar todas as gruas instaladas na cidade, mas a Ordem dos Engenheiros e a Ordem dos Arquitetos estão preocupadas com a forma como se está a fazer muita da reabilitação urbana que se vê pelo país.

O bastonário dos Engenheiros adianta à TSF que "não tem dúvida nenhuma de que a abundância de trabalho e a falta de mão-de-obra especializada se conjugam para que acidentes desta e de outra natureza possam acontecer".

Carlos Mineiro Aires considera que não é normal a queda de duas gruas em tão pouco tempo, recordando que a longa crise de uma década que afetou a construção civil afastou engenheiros mas também outro pessoal especializada, por exemplo capatazes que sabiam muito bem, pela experiência adquirida, como usar, com segurança, determinado tipo de máquinas.

"Um défice tremendo"

Numa altura em que a reabilitação urbana está de novo em alta, tal como o mercado imobiliário, com obras por todo o lado, o representante dos engenheiros diz que "hoje, em Portugal, há um défice tremendo de mão-de-obra - mas, pior do que isso, é não termos mão-de-obra qualificada".

"É esse drama que o país está a viver, pois durante dez anos houve um período fatal em que os mais novos não puderam aprender com os mais velhos e os mais velhos foram obrigados a sair do país", defende Carlos Mineiro Aires.

Em resumo, afirma o engenheiro, "estamos a pagar a falta de experiência e incúria", mas há ainda outro problema grave: "As câmaras municipais deixaram de fiscalizar o que quer que seja e não há quem as substitua".

Lamentando que seja preciso caírem duas gruas no Porto para avançar com fiscalizações, a Ordem dos Engenheiros alerta que, além de terem perdido competências para fazer aleatoriamente fiscalizações, os municípios não têm meios.

"Cortou-se muita gordura, é verdade, mas chegámos a um ponto em que cortámos o músculo e, neste momentos, as autarquias e os serviços públicos estão debilitados, havendo uma falta de engenharia no país que é tremenda", conclui Carlos Mineiro Aires.

Cuidado com a euforia

A Ordem dos Arquitetos também defende que "se facilitou" a realização de obras pelas cidades e que agora "quase que não há fiscalização de alguns trabalhos".

O presidente desta Ordem, José Manuel Pedreirinho, sublinha que no caso das gruas até há algum controlo e é preciso, inclusive, licenças, mas "a fiscalização de todas estas responsabilidades é, muitas vezes, incongruente e diferente de câmara para câmara, pelo que o que está hoje a acontecer é uma razoável confusão de caráter legislativo numa série de aspetos de segurança, nomeadamente sobre quem fiscaliza, como, quando e que regras se seguem".

O responsável da Ordem dos Arquitetos destaca que se vive "uma pressão muito grande de se rentabilizarem as obras e as intervenções, estando num período de euforia, e, às vezes, num período de euforia é fácil fazer asneiras".

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de