Pastar o gado à vez. A vezeira foi recuperada pelos mais novos em Montalegre

Prática comunitária atravessou séculos e continua viva graças a associação criada pelos mais novos.

A pastorícia tem sido, desde tempos imemoriais, uma das atividades mais relevantes do Baixo Barroso. O gado da raça autóctone é uma das imagens de marca de um território singular, pleno de atrativos.

Por ali, há cascatas deslumbrantes como a de Pincães, com a água a precipitar-se de alturas consideráveis e a desfazer-se em borbotões de espuma dezenas de metros mais abaixo, esgueirando-se rio abaixo, pressurosa, entre fraguedos.

Há cumes alcantilados que desafiam os mais afoitos, lagoas onde sabe bem dar um mergulho quando o calor aperta; levadas por onde corre a água que irriga os lameiros e os campos de milho; boa gastronomia. Há muito para descobrir e apreciar no vasto concelho de Montalegre.

Num dos extremos, a 55 km daquela vila e a 500 metros de altitude, Fafião, aldeia localizada no Parque Nacional da Peneda-Gerês, é conhecida pela vivência comunitária. Uma prática que atravessou séculos e continua viva graças ao empenho de gente jovem.

Para manter as tradições, os mais novos fundaram uma associação a que deram o nome de uma das práticas comunitárias da aldeia: vezeira. Mas, em que consiste, então, a vezeira?

A vezeira, com regras e procedimentos muito próprios, começa por alturas de maio, quando o tempo fica mais ameno.

Limpam-se os abrigos de teto em colmo e toscas paredes graníticas, abandonados durante o inverno. Reconstroem-se as cónicas «mariolas», colunas de pedras e pedrinhas que sinalizam os percursos do gado nos montes.

Por cada duas cabeças de gado, um vizinho passa uma noite no monte; caso tenha quatro, a pernoita é a dobrar. Em caso de acidente ou doença de uma rês, o prejuízo é dividido por todos que integrem a sociedade ou seja, a vezeira, cuja prática termina em setembro.

A prática comunitária conhecia ainda outros cenários, entretanto recuperados. Todavia, um dos equipamentos acabou por não ter índice de utilização muito elevado.

Hoje, recuperar usos e costumes de outrora é uma dor de cabeça, imagine-se, noutros tempos, o pânico causado pelos lobos.

Para grandes males, lá diz o povo, grandes remédios: para apanhar os dizimadores dos rebanhos foi construída uma engenhosa armadilha, hoje ainda em bom estado de conservação.

O fojo dos lobos era o nome dado a essa ratoeira, uma espécie de triângulo delimitado por muros de pedra com um fosso num dos vértices. Nesse buraco, dissimulado por vegetação, caíam os lobos.

Um dia, já lá vão muitos anos, houve mesmo festa rija na aldeia. "Numa caçada, foi em 1947, foram 4 lobos" apanhados nesta armadilha, conta Lino Pereira.

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