Proteção Civil fala em "erros e omissões graves" no relatório sobre Pedrógão

Documento a que a TSF teve acesso recusa as principais conclusões da Comissão Técnica Independente criada pelo Parlamento.

A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) recusa as falhas apontadas pelo relatório da Comissão Técnica Independente criada pelo Parlamento para avaliar o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande onde morreram 64 pessoas e ficaram feridas mais de 200.

A análise de 23 páginas a que a TSF teve acesso tem data de 16 de outubro, dias antes da demissão da ministra e do presidente da ANPC, Joaquim Leitão, ainda em funções enquanto não é substituído.

O documento contesta quase 30 pontos do relatório da Comissão Técnica Independente (CTI) sublinhando, em conclusão, que "as falhas apontadas, na prática, ou não existiram ou se traduzem em situações decorrentes da complexidade" do fogo de Pedrógão.

O documento acusa a CTI de não ter "chamado a prestar depoimento, tão-somente, o Comandante Operacional Nacional", que entretanto se demitiu, bem como outros "elementos absolutamente cruciais" naquele fogo.

"Levar a pensar que houve inoperância"

A ANPC defende que o relatório da CTI tem "erros e omissões na análise dos factos que geram inclusivamente contradições de referência, confundindo as conclusões a reter", acusando-se partes do relatório de terem "o propósito claro de levar o leitor, cidadão comum, desconhecedor dos meandros da resposta operacional, a formular o juízo de que houve inépcia e inoperância do Comando Nacional de Operações de Socorro".

Razões que levam o documento entregue pelo presidente da ANPC a propor que este desmentido fosse tornado público "por respeito às vitimas e ao bom nome da instituição e dos seus operacionais", algo que nunca aconteceu.

Dias depois, com a saída da ministra, o presidente da ANPC demitiu-se alegando, na carta de demissão, "inverdades que foram ditas ao longo dos últimos meses sem que fossem criadas condições para as desmentir".

Fita do tempo não foi 'cortada'

Nos quase 30 pontos contestados, destaque para a acusação de que o atual comandante operacional nacional da Proteção Civil, Albino Tavares, tinha ordenado que não se registassem mais alertas na "fita do tempo" do incêndio de Pedrógão Grande.

Os responsáveis da ANPC garantem que falaram com o na altura 2º comandante nacional de operações e que esta afirmação é falsa.

Aquilo que aconteceu terá sido algo diferente: só colocaram os alertas validados para fazer da fita do tempo algo "realista" e nunca, como diz o relatório da CTI, por excesso de informação, facto facilmente verificável caso a audição tenha sido gravada".

A ANPC garante ainda que o texto do relatório contradiz as conclusões do mesmo pois estão expressos várias comunicações e alertas depois da alegada proibição, "bastando ouvir os dois operadores do Posto de Comando Operacional para que estes rapidamente esclarecessem o que se passou pois toda a informação passou por eles".

"Contradições" e "factos que não são verdade"

O contra-ataque da ANPC ao relatório pedido pelo parlamento sublinha que este tem várias "contradições", factos que não são verdade, além de "opiniões subjetivas", "sem factos reais" ou "fáceis" de ter depois da tragédia mas que durante o combate inicial eram impossíveis de prever.

A ANPC diz que naquela tarde de 17 de junho era "impossível ao Comando percecionar a evolução extrema do incêndio", algo que, defende, também é assumido noutras partes do relatório da CTI. "A resposta inicial não foi lenta, nem rápida, mas a possível e aconselhável no momento em que a mesma foi desencadeada", defende a Proteção Civil.

Proteção Civil garante que não enganou ministra

Um dos pontos mais criticados pelo documento a que a TSF teve acesso é a mobilização de meios de ataque ampliado que o relatório da CTI diz ter sido tardia, algo que a ANPC afirma ser mentira porque logo de início foram mobilizados um grupo de reforço e um helicóptero.

Sobre a acusação de que os meios terrestres e aéreos seriam menos do que foi dito à ministra da Administração Interna, a ANPC diz que as "afirmações do relatório são graves e distorcem a realidade por compararem o incomparável e com isso intuírem que a ANPC terá prestado falsa informação".

Comissão Independente garante rigor

A TSF tentou falar com o presidente da CTI, João Guerreiro, para responder às críticas da ANPC, mas até ao momento não foi possível.

Sande Silva, um dos 12 membros da Comissão, garante no entanto que o relatório foi feito "com o máximo de rigor e cuidado por todos, apesar de ninguém ser infalível", sublinhando que "foram consultados imensos documentos, quase 200 pessoas, num trabalho completamente isento para apurar o que aconteceu e fazer recomendações para o futuro".

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