Quando a chuva mata, o regime esconde, mas a memória não se apaga

50 anos depois das cheias de 1967, a Grande Reportagem TSF ouviu testemunhos de quem sobreviveu à força da água e de quem trabalhou para ajudar os outros perante a inércia e censura do regime.

Nuno Caetano tinha 10 anos quando, na noite de 24 para 25 de novembro de 1967, caiu em Lisboa e arredores um quinto de toda a precipitação média anual.

Com a inocência de uma criança, a partir da janela de casa, na rua António Serpa, viu carros a boiar, arrastados pela força da água. "Pareciam brinquedos".

"Nós, miúdos, divertidíssimos, a ver os carros passar e os nossos pais preocupadíssimos, sem achar piada nenhuma". Imaginavam os adultos que o problema seria muito pior noutros locais.

A casa da família Grilo, em São Domingos de Benfica, ficou inundada. Perdeu-se tudo, menos a vida. Nos arredores da cidade muitos não tiveram a mesma sorte.

Não foi a chuva que matou nessa noite mas sim a miséria. Enquanto na zona do Estoril, o local onde mais choveu, ninguém perdeu a vida, numa "Lisboa paralela", como descreve Marcelo Rebelo de Sousa, centenas morreram.

Em Quintas, Castanheira do Ribatejo, onde vivia Luísa Fajardo, "em todas as casas morreu alguém. Um, dois, famílias inteiras".

"Uma tragédia tão grande numa aldeia tão pequenina"

Depois de um dia a trabalhar "debaixo de chuva", Luísa Fajardo passara o serão com a mãe e o irmão na casa onde viviam os avós e a irmã Teresa. Queria lá passar a noite, mas a avó achou que a menina de 13 anos devia ficar com a mãe. "Foi uma despedida", nunca mais os voltou a ver.

Luísa acordou com gritos. "Maria, tanta gente morta neste lugar", chorava um primo que lhe entrou encharcado pela casa a dentro.

No meio do caos, da escuridão e da lama, o pai de Luísa procurou a filha mais velha os sogros. "Água, lixo, animais, o meu pai tropeçava em tudo, mas não os encontrou".

Quando amanheceu, o dia era de sol, mas a casa dos avós de Luísa desaparecera. "Estavam só as paredes e nada dentro. Não sabíamos onde eles estavam".

A família foi encontrando coisas espalhadas que sabiam pertencer aos seus, como as calças do avô "penduradas de uma oliveira."

Teresa foi encontrada por um amigo do pai, "a boiar", a avó foi encontrada no dia seguinte, "na vala do Carregado" e o avô só apareceu ao fim de nove dias, no Tejo.

"Houve um senhor que apareceu ao fim de 18 dias", houve quem nunca aparecesse. Luísa perdeu três familiares chegados e 30 ao todo.

"Uma tragédia tão grande numa aldeia tão pequenina", lamenta. Mais de dois terços da povoação de Quintas perdeu a vida.

Enfrentar o que o regime ignorou

Enquanto os números oficiais apontam apenas para 462 mortos, estima-se que mais de 700 tenham perdido a vida nas cheias. Mais do que esconder a dimensão da tragédia, o regime de Salazar fechou os olhos. No terreno, apenas estudantes e bombeiros trabalharam para socorrer as vítimas.

Abílio Rodrigues da Silva, então com 28 anos, estava a trabalhar em Beja, mas fora passar o fim de semana a casa, em Odivelas, para estar com a mulher e os filhos, de dois e quatro anos.

Bombeiro voluntário, ouviu a sirene mal chegou, mas não foi chamado. Só as 6h30 do dia 25 foi para o quartel, onde o mandaram ir de carro a Olival de Basto "buscar uma família completa - pai, mãe, cinco filhos e um cunhado". O mais novo tinha oito dias.

"Assim que entro dentro da casa não fui capaz de mexer em nada. 'Tenho que me ir embora', disse. Fui à Arroja a pé para ver os meus filhos a dormir e voltei para baixo".

"A gente diz não sou capaz, mas temos de ser. Temos que ir enfrentar as coisas como elas são". Assim foi. Passaram-lhe "pelas mãos" dezenas de mortos, incluindo uma mulher que nem era da zona, com uma criança ao colo "nunca largou".

Em três dias, passaram pelo quartel de Odivelas "cerca de 200 pessoas mortas, entre adultos e crianças", recorda Guilherme Duarte Esteves, de 77 anos. Os cadáveres eram ali lavados e aqueles que não eram recolhidos pela família iam para a morgue.

No Instituto de Medicina Legal estava tão cheio "tínhamos de por os pés cima dos corpos por vezes para lá entrar dentro", conta Abílio.

Por falta de lugar ou instituição que os acolhesse, no quartel iam ficando também os desalojados. "Havia pessoas que tinham pedido os óculos e nem viam", centenas de pessoas que, diz Guilherme, só começaram a receber alguma ajuda do Estado volvido mais de um mês.

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