Cesariana? Qual é a urgência?

Uma investigadora do ISEP desenvolveu um sistema que centraliza todos os dados para ajudar a diminuir o número de cesarianas, mas o presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia considera que o problema não se resolve através da informática.

A tecnologia desenvolvida pela investigadora Ana Almeida foi elaborada em parceria com a Faculdade de Medicina do Porto e apresentada como tese de mestrado no ISEP, onde recebeu 18 valores.

O objetivo de Ana Almeida é ajudar a que se cumpra a recomendação da Organização Mundial de Saúde para baixar o número de cesarianas em Portugal. "O sistema pega nos dados das instituições de saúde, de acompanhamento da mãe, da gestação e mesmo depois do parto e efetua o tratamento dos dados disponibilizando aos profissionais um conjunto de indicadores que vai permitir-lhes usar os dados de forma mais simples e rápida. Eles assim poderão tomar algumas conclusões que, de outra forma, poderiam ser mais demoradas", explica a recém-mestre em Engenharia Informática pelo ISEP, o Instituto Superior de Engenharia do Porto.

Ana Almeida adianta que o sistema vai cruzar e fornecer informação aos profissionais de saúde, que pode ser útil no momento de tomada de decisão. Na prática "o sistema vai dar-lhes um conjunto de valores, vai ajudá-los a tentar perceber o que podem fazer para reduzir as cesarianas".

Para Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetricia e de Medicina Materno-Fetal, o problema do excesso de cesarianas, não se resolve com um sistema informático.

"A taxa de cesarianas obviamente é uma brutalidade em Portugal. Não propriamente nos hospitais do SNS. Desde que se implementaram algumas regras, desde há 6, 7 anos, a taxa de cesarianas diminuiu significativamente. No Hospital Santa Maria e na Maternidade Alfredo da Costa, ronda os 24%, 25%, tendo em atenção que são hospitais de apoio parental diferenciado, onde se apanham muitas patologias. Em contrapartida, nos hospitais privados, ronda os 66%, ou seja, cada 2 em 3 bebés nasce por cesariana. Isto vai estragar a média nacional, atirando-a para os 34%. Isto tem que se diminuir, mas não creio que vá lá a não ser por auditorias e regras e punições", sublinha.

A taxa aceitável, explica Luís Graça, andaria entre os 20 e os 25%.

E o que é que explica esta taxa tão elevada nos hospitais privados? "É muito mais cómodo fazer-se uma cesariana do que vigiar um trabalho de parto durante horas seguidas. Torna-se mais expedito", responde acrescentando que "as auditorias levariam a expor esta anormalidade de uma taxa de 60 e tal por cento, dizendo que é uma má prática da medicina, que envolve riscos para o bebé e para a mãe". Isso, conclui, "levaria a que houvesse uma pressão" para reduzir as cesarianas.

Num ponto, o presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia é inflexível: "As cesarianas com justificação devem fazer-se todas. Sem justificação, não se deve fazer nenhuma".

Isto porque há riscos associados às cesarianas.

"Em primeiro lugar, os riscos cirúrgicos propriamente ditos: abre-se o abdómen, correm-se riscos de lesar a bexiga, o intestino, órgãos que não têm que ser lesados pelo parto.
Em segundo lugar, existe um risco cirúrgico de maior hemorragia e infeção.
Falando no feto, um feto que nasce por cesariana tem quatro a cinco vezes maior risco de ter dificuldade respiratória a seguir a nascer.
Nos riscos a longo prazo, a mãe fica com uma cicatriz uterina, um maior risco de ter complicações numa gravidez futura, uma rutura no útero. Há uma panóplia de consequências imediatas e a longo prazo que devem ser evitadas tanto quanto possível".

O médico obstetra sublinha que, de uma maneira geral, as grávidas não estão conscientes destes riscos.

"É relativamente fácil dizer a uma parturiente que vai ser necessário fazer uma cesariana por uma razão que se arranja no momento. Já vai havendo um número significativo de mulheres que prefere ter uma cesariana, porque lhes dizem que é mais seguro. São coisas que são transmitidas de forma superficial, são ideias falsas que são transmitidas pelos médicos e pelas redes sociais, formando a ideia errada de que é mais seguro para o bebé nascer por cesariana do que por via vaginal", faz notar Luís Graça.

Falta perceber em que circunstâncias é clinicamente justificável uma cesariana.

"Podem ser razões maternas ou fetais. As maternas são, por exemplo, o facto da mãe ter uma doença, uma diabetes, uma hipertensão grave que obrigue a que se faça o parto mais cedo, quando o colo do útero não está preparado para isso.
Em segundo lugar, aquelas mulheres que fazem uma prova de trabalho de parto e não há progressão do dito, ou seja, o bebé não desce, o colo não se dilata.
Da parte fetal, são as situações de patologia fetal, em que o bebé se apresenta de forma anómala, de nádegas ou de transverso, mas isso justifica apenas 3% das cesarianas".

Se apenas estas razões fossem tidas em conta, a taxa de cesarianas baixaria. É o sublinhado de Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e de Medicina Materno-Fetal.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de