Conhece o Pavilhão dos Furiosos?

Era o nome dado ao panótico, um edifício com celas onde os doentes mentais eram vigiados a partir de um ponto central. Pode visitá-lo no Hospital Conde Ferreira até dia 2 de fevereiro.

Vigilância. Vigilância total. "Big brother is watching you". Quando se entra aqui, há uma frase que nos avisa que "é possível descobrir analogias entre o panótico e distopias contemporâneas como o big brother do romance 1984 de George Orwell.

Mas antes de mais, é preciso perceber o conceito de panótico. Decompomos a palavra. Ela vem do grego "pan", que significa "tudo", e "opticon", que significa "visão".

Paula Aleixo, diretora do departamento de atividades culturais da Santa Casa da Misericórdia, lembra que a ideia foi elaborada por Jeremy Bentham: "Ele defendia que se houvesse uma estrutura que permitisse o visionamento das pessoas detidas em celas e se essas pessoas soubessem que estavam constantemente a poder ser observadas - sem saberem - isso de alguma forma modificaria o seu comportamento".

Os edifícios panóticos têm uma forma circular, um ponto central de observação e, à volta desse centro, pequenas células. "Há aqui um conjunto muito grande de pequenas celas que são controladas por um único posto de trabalho colocado no meio", explica Paula.

Para aqui vinham os doentes psiquiátricos agitados. Os denominados "furiosos" que dão nome à ala. Anteriormente, esses doentes eram contidos com coletes de forças.

O Conde Ferreira data de 1883 e foi o primeiro hospital construído de raiz para a Psiquiatria em Portugal.
Nessa altura, chamava-se Hospital dos Alienados.

O primeiro diretor clínico do Conde Ferreira foi António Maria de Sena. Há uma imagem dele nesta exposição ao lado de umas algemas, grandes, antigas, enferrujadas, que por ele foram proibidas. "Havia um regulamento elaborado por ele que proibia o uso destas formas de contenção, que eram muitas vezes utilizadas antes das pessoas virem para o hospital", contextualiza a responsável da Santa Casa.

Estes doentes, por serem agitados, muitas vezes eram eles próprios a causa da sua degradação física. "Porque se atiravam violentamente sobre outros, porque não tinham noção do perigo, era necessário contê-los e, se isso não fosse suficiente, usar um colete de forças"

Isso fazia-se porque não havia medicação para estas situações.

Antes da construção do hospital, estes doentes não eram tratados mas presos. Na exposição podem ver-se exemplos dos métodos utilizados anteriormente: tabuleiros onde as pessoas eram presas, cadeiras onde eram amarradas, o interior de um quarto forte. "Tudo isto se assemelha a uma prisão", resume Paula Aleixo.

Os aspeto fica ainda mais de prisão quando são construídos dois panóticos, entre 1891 e 1894. Um para homens, outro para mulheres. O panótico feminino foi demolido em 1959 para a construção da VCI.
O masculino mantém-se, como estrutura museológica.

Paula Aleixo chama a atenção para o facto de o panótico ser um edifício raríssimo. Em Portugal só existem dois. Este do Hospital Conde Ferreira, no Porto, e o do Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. "Enquanto que o do Porto é direcionado para doentes furiosos, o do Miguel Bombarda é um pavilhão de segurança", elucida.

A contenção química, através dos medicamentos, veio tornar o panótico obsoleto. A sociedade já não se refere a estes doentes como os furiosos ou os alienados. Essa terminologia, admite a responsável da Santa Casa da Misericórdia, acabou por criar medos, preconceitos e tabus em relação aos hospitais psiquiátricos como o Conde Ferreira. Já lhe chamaram hospício ou manicómio. Agora, o hospital quer romper esse estigma, abrindo as portas ao exterior.

"A saúde mental é uma noção muito vasta e que nos diz respeito a todos, é um espaço que tem que ser cada vez mais vivido sem esse complexo. Cruzámo-nos com algumas pessoas que estão aqui em permanência e que têm uma vida social, têm o seu tratamento, a sua medicação, mas não estão confinados a uma sala".

Os tempos do panótico acabaram. Agora este espaço é apenas um edifício com história inserido na área ajardinada do Conde Ferreira, perto das hortas comunitárias e do elegante edifício do século XIX do arquiteto Manuel d'Almeida Ribeiro.

O panótico. Um espaço frio, austero, a meio caminho entre uma prisão e um manicómio, destinado a pessoas que viviam em isolamento, nuns casos por punição. Neste caso, por doença mental.
Um espaço onde viviam pessoas que eram constantemente vigiadas à força, numa altura em que a sociedade estava ainda longe de imaginar que viria a entregar-se voluntariamente à vigilância.
Estávamos ainda tão longe do Facebook... ou talvez não.

"O Panóptico - do dispositivo de vigilância ao paradigma da biopolítica" - para ver gratuitamente no hospital Conde Ferreira, no Porto, até 2 de fevereiro, mas só por marcação, através dos seguintes contactos: publicos@mmipo.scmp.pt ou +351 220 906 961.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de

Outros Artigos Recomendados