Crianças hiperativas: excesso de medicação disfarça falhas nos serviços

Psicólogos e psiquiatras avisam que falta de técnicos nos serviços está a levar médicos a aumentar o recurso à medicação. Especialistas consideram que é preciso um investimento urgente por parte do SNS.

O Parlamento debate, esta quarta-feira, a questão dos medicamentos para a hiperatividade. Em causa está um projeto de lei e vários projetos de resolução do PAN (Partido Pessoas - Animais - Natureza), que quer proibir os médicos de prescreverem medicamentos para a hiperatividade a crianças com menos de 6 anos. Psicólogos e psiquiatras discordam e dizem que mais do que proibir é preciso investir nos serviços.

Evidências cientificas e bom senso

Apesar de ser frequente, não há provas científicas sobre os benefícios de usar medicamentos para a hiperatividade em crianças com menos de seis anos.

Ouvido pela TSF, o presidente da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, Augusto Carreira, diz ser contra a prescrição e administração de fármacos nesses casos, mas adverte que a decisão de prescrever ou não deve ser exclusivamente dos médicos, sem limitações políticas.

"O ato clínico deve ser um ato livre mas baseado na evidência e nas provas científicas. A limitação de natureza política ou legislativa é um precedente com gravidade." É desta forma que Augusto Carreira reage à proposta do PAN, que vai a debate esta quarta-feira no Parlamento.

O psiquiatra, que é também diretor do serviço de psiquiatria do Hospital D. Estefânia, lembra ainda que, em muitos casos, a medicação é usada porque faltam técnicos nos serviços: "Psicomotricistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, técnicos de variada formação. As estruturas que deviam existir para ajudar crianças mais agitadas, mais turbulentas, não têm recursos e respostas e, infelizmente, o recurso mais à mão é a pastilha."

Augusto Carreira avisa que a falta de investimento pode tornar as crianças em adultos consumidores crónicos de medicamentos e que há muito a fazer em termos sociais, como por exemplo, impor limites ao excesso de tecnologia na educação dos mais novos, promover o contacto com o ar livre, traçar alterações pedagógicas nas escolas e reequacionar o ritmo de vida dos pais.

Tratar as causas além dos sintomas

O bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Rodrigues, reforça a crítica e nota que a medicação em idade precoce pode mesmo comprometer o desenvolvimento da criança: "Muitas vezes estamos a atuar simplesmente nos sintomas, não nas causas, e não estamos a ajudar a que estas pessoas se desenvolvam para que no futuro sejam saudáveis de forma sustentável, sem necessitar de medicação desta natureza."

Em declarações à TSF, Francisco Rodrigues diz ainda que é inconcebível que o próximo Orçamento do Estado não contemple um reforço de psicólogos nos cuidados de saúde primários.

No ano passado, o último relatório do Programa Nacional para a Saúde Mental já alertava para o excesso de medicação em Portugal. Um grupo de trabalho que estudou a prescrição em idade pediátrica concluiu que a medicação é muitas vezes a única alternativa perante a falta de técnicos nos serviços.

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