Estudo de médica portuguesa comprova que ioga melhora saúde e qualidade de vida

Sara Ponte, médica de medicina geral no Centro de Saúde de Ponta Delgada, conduziu o primeiro estudo experimental em Portugal sobre o impacto do ioga nos tratamentos de saúde de cerca de 90 utentes.

Durante seis meses, Sara Ponte alternou as consultas de medicina geral com as aulas de ioga no Centro de Saúde de Ponta Delgada. Com a ajuda de um grupo de 86 utentes - 49 no grupo experimental e 37 no grupo de controlo - a médica desenvolveu um estudo experimental sobre o uso do ioga como terapia de uma medicina integrativa. Sara Ponte comprovou que o ioga tem benefícios para a saúde. Houve até utentes que abandonaram a medicação que estavam a fazer. O estudo deu origem a uma curta-metragem que foi selecionada para o International Short Films & Arts Festival na índia.

Como desenvolveu o estudo e quais foram as principais conclusões da investigação?
Do nosso conhecimento, este foi o primeiro estudo prospetivo em Portugal a avaliar os efeitos terapêuticos do Ioga, como terapêutica complementar a ser inserida nos cuidados de saúde primários. E aquilo que nós concluímos e observamos é que, de facto, a introdução do ioga no Centro de Saúde de Ponta Delgada é exequível, é segura, apresenta uma taxa de adesão na ordem dos 79.5%. Os níveis de satisfação por parte dos nossos utentes foi muito positiva, na ordem dos 90%. Nós também verificamos que o ioga constitui uma abordagem terapêutica com boa recetividade ente os utentes do Centro de Saúde de Ponta Delgada, uma vez que, para além dos participantes contemplados nestes estudo, nós recebemos mais de 80 inscrições dos utentes a quererem ingressar nas aulas.

Conseguiram observar alterações nos utentes?
Para além de avaliar a exequibilidade, nós também demonstramos que ao fim de de seis meses de prática regular de ioga, há uma melhoria significativa nos diferentes domínios da qualidade de vida: a nível geral, psicológico, físico, social, ambiental. E estes achados encontram-se em linha com as investigações mais relevantes e recentes da área. Nós sabemos que os benefícios psicofisiológicos do ioga são consistentes e reprodutíveis e ocorrem em diferentes níveis, nomeadamente na redução dos níveis e stress, na melhoria da função cognitiva a nível da capacidade de atenção, de memoria, da própria performance neuromuscular. E isto acontece porque é uma prática que proporciona a integração do movimento corporal e do próprio corpo com a mente através da respiração.

É também uma prática - e algo curioso que este estudo demonstrou - que melhora a qualidade de vida social. As pessoas ganham uma nova predisposição para a interação social e isto também é explicado pelos ganhos em saúde que ocorrem a nível físico e psicoemocional.

Que retorno e comentários tiveram por parte dos utentes?
O feedback pessoal dos participantes foi muito positivo. Muitos referiram que os níveis de ansiedade, de stress, de depressão melhoram. Houve até utentes que conseguiram reduzir na dose da medicação antidepressiva, ansiolítica e hipnótica que estavam a tomar. Houve até utentes abandonaram a medicação que estavam a fazer e que, devido às técnicas que aprenderam nas aulas, permitia-lhes autorregularem-se e a melhor gerirem a sua ansiedade. Depois também têm benefícios em termos físicos, de bem-estar físico, mais ágeis, mais flexíveis, com maior equilíbrio e todos eles tiveram benefícios bastante interessantes.

Como é que se alia o ioga à medicina tradicional? Uma equipa médica pode passar a encarar o ioga como forma de tratamento?
De certa forma este estudo permitiu integrar também os profissionais de saúde, médicos de família, nutricionistas, psicólogos, uma vez que que foram eles que referenciavam os utentes para as aulas. E os profissionais do Centro de Saúde de Ponta Delgada foram muito colaborantes e isso foi uma aspeto muito positivo. Penso que é perfeitamente conciliável e exequível.

Será possível, no futuro, vermos professores de ioga a trabalharem em hospitais e em centros de saúde?
Este estudo demonstra que é possível agora a tomada de decisão pertence aos conselhos administrativos dos centros de saúde, mas sim. Eu penso que o futuro passa pela medicina integrativa e se nós pensarmos bem, este já é um caminho incontornável para o desenvolvimento sustentável dos sistemas públicos de saúde.

E como e que surge a curta-metragem "Vive"? Decidiram fazer a curta-metragem para falar sobre o estudo ou o estudo surge depois da curta-metragem?
A curta-metragem vem na sequência do estudo e surge muito como forma de complementar os resultados mais objetivos e parametrizados da investigação. Habitualmente, quando se faz uma investigação na área médica, a linguagem baseia-se muito em dados estatísticos, numa linguagem fechada, tecnicista. Aqui o objetivo da curta-metragem foi chegar a um público mais abrangente, partilhar a experiência humana vivenciada ao longo dos seis meses da intervenção de forma a que, através do testemunho direto e espontâneo dos participantes, o espectador e público que assiste à curta-metragem pode refletir de que forma é que a prática de ioga altera a vida das pessoas. Também permite uma reflexão sobre o panorama atual dos cuidados de saúde primários em Portugal e da necessidade em se integrar novas estratégias para o desenvolvimento mais sustentável do sistema público de saúde.

A curta foi selecionada para o International Short Films & Arts Festival, parte da Conferência Mundial de Saúde Rural, promovida pela Organização Mundial dos Médicos de Família. O evento decorreu em Nova Deli na Índia no mês passado. Como é que acontece tudo isso?
Foi uma feliz coincidência. O filme já estava pronto e como eu vinha para a índia fazer uma formação na área da Ioga-terapia procurei conferências médicas em que pudesse conciliar a vinda aqui à Índia. Encontrei uma conferência e nesta conferência integrava o festival internacional de curtas-metragens. Estamos muito felizes e gratos pela oportunidade de termos partilhado o nosso projeto e a nossa investigação neste palco internacional, onde estavam médicos e profissionais de saúde de todo o mundo.

A seguir ao estudo e à curta-metragem, o que se segue?
Da minha parte, aquilo se segue é a divulgação dos resultados deste estudo. Estou muito motivada a levar esta investigação e a partilhá-la em diferentes conferências médicas, congressos. Acima de tudo, aquilo que eu penso que é mais importante é gerar debate público e também alguma reflexão entre os profissionais de saúde para que eles também sintam que é necessário mudar o paradigma. A abordagem da medicina não deve ser tão centrada na doença mas sim mais na saúde, no paciente e para isso é necessário a medicina integrativa.

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