Gostava de dançar até perder uma perna. Agora, quer viver "seja o tempo que for"

Manuel Dionísio é um dos utentes da Unidade de Cuidados Continuados Integrados São Roque, onde faz recuperação depois de uma amputação.

Manuel Dionísio chegou há cerca de três meses à Unidade de Cuidados Continuados Integrados (UCCI) São Roque, depois de uma amputação a parte da perna direita. "Fiz uns ferimentos nos dedos do pé e depois aquilo cicatrizava, e depois quase que sim, outras vezes, quase que não. E aquilo não tinha solução", conta.

Esperava uma recuperação mais fácil e rápida. "Isto demora. Meti-me aqui numa alhada jeitosa."

Agora, Manuel Dionísio prepara o corpo e a perna para receber uma prótese e a fisioterapia é essencial para a recuperação. "Já faz muitos dos exercícios sozinho", gabam as fisioterapeutas e, às vezes, até vem duas vezes ao dia. "Sinto que estou mais seguro e até mais forte, com mais vitalidade do que tinha."

Antes da cirurgia, Manuel Dionísio fazia uma vida normal. Assim que se reformou, passou a frequentar a universidade sénior e era presença assídua nas aulas de danças de salão. "Eu gosto muito de dançar", recorda e, apesar de não saber se vai poder voltar à rumba e ao pasodoble, descansa dizendo que "a pessoa até pode dançar parada, no mesmo sítio, sem sair dali. E está dançando bem, apanhando o ritmo e mexendo".

A primeira unidade em Lisboa para curar com tempo

A UCCI está instalada no Pulido Valente em Lisboa e abriu portas em julho deste ano. É a primeira unidade de cuidados continuados de média e longa duração em Lisboa e resulta de um protocolo entre o Centro Hospitalar Lisboa Norte e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

Ana Jorge, ex-ministra da saúde e coordenadora da UCCI São Roque, considera que há "uma grande lacuna, uma grande falta de camas" na região de Lisboa e Vale do Tejo, mas mais do que camas para recuperação, estas unidades contam com equipas multidisciplinares empenhadas na reabilitação de cada doente.

"Todo o doente tem um plano individual de terapêutica. Implica a terapêutica médica, portanto a medicação que está a fazer, implica a indicação do que é que tem de fazer de reabilitação, que pode ser de fisioterapia, terapia ocupacional ou terapia da fala. Tem um acompanhamento por uma animadora sociocultural na sala, tem psicólogo e temos a assistente social, que de facto é um dos elementos-chave nesta equipa", explica Ana Jorge.

A unidade tem 44 camas à disposição para receber doentes com várias patologias. A permanência na unidade pode ir dos 30 aos 180 dias, mas o objetivo é sempre permitir que o doente regresse a casa com o acompanhamento de equipas domiciliárias, procurando "com o doente, com a família e com a comunidade para onde ele vai encontrar soluções que ele, às vezes, não sabe que existe", explica a coordenadora da UCCI São Roque.

Mas o segredo para a recuperação, revela Ana Jorge, é mesmo a ligação entre doente e profissional. "É fundamental a relação humana e a relação terapêutica."

Manuel Dionísio concorda. Gosta dos enfermeiros, das fisioterapeutas e dos outros profissionais e garante ver melhorias entre os vários utentes. "As pessoas, de facto, têm progressos. Vêm andando numa cadeira de rodas e, passado algum tempo, já andam pelo pé. Não andam bem mas já andam. Porque, por vezes, as pessoas têm medo. Desabituaram-se de andar. As fisioterapeutas não vão na conversa e depois vê-se que afinal podem."

Manuel Dionísio está a preparar a saída da unidade. Vai sentir a falta das pessoas e de ter um ginásio sempre à disposição mas garante que vai continuar a trabalhar para receber a prótese. Às vezes fala de um tempo que escasseia mas garante que quer seguir em frente.

"Eu não tenho assim um objetivo. No fundo, viver. No fundo é isso. Queria viver, seja o tempo for, Mas quero ainda viver. E se possível que me mexa, que ande. Ou mesmo se não me mexer, nós queremos é viver."

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