"A saúde precisa de um plano Marshall com acordo entre partidos"

Adalberto Campos Fernandes é o convidado desta semana da entrevista DN/TSF.

O ex-ministro da Saúde saiu no meio de várias guerras no setor, mas não se arrepende do que fez e deixou, exceto não ter conseguido estabelecer um plano para a área que envolvesse menos luta política e mais acordo de regime. Porque a Saúde precisa de um choque tecnológico e de inovação.

Na saúde, o desfasamento entre aquilo que é orçamentado e a realidade das coisas é tão grande que é quase impossível equilibrar as contas?

É difícil, não digo que seja impossível. Mas estamos a lidar com um setor que expande naturalmente. E expande porquê? Porque a demografia leva-nos a viver mais anos, em condições muitas vezes mais difíceis, porque a inovação terapêutica e tecnológica é - felizmente para todos nós - incessante, e também porque as expetativas deste direito, que é um direito consagrado na Constituição da República Portuguesa e na generalidade dos países desenvolvidos, são hoje cada vez mais intensas. Portanto, nós temos de olhar para o sistema de saúde não com os olhos de há 30, 40, 50 anos, mas para as dinâmicas sociais, a transição da demografia e o contexto social e económico dos países. Este equilíbrio é difícil.

Mas há ou não um subfinanciamento crónico?

Ainda ontem foi dito no Parlamento pela senhora ministra da saúde que nós estamos, neste momento, a atingir um dos níveis mais baixos de dívida a fornecedores. Eu fico muito satisfeito, porque fiz parte da equipa, aliás fui o responsável pela elaboração do orçamento que está neste momento a ser aplicado, e este é um sinal de que o Governo tem feito um esforço muito grande para recuperar a queda do investimento e do financiamento nos anos de intervenção externa. É importante que os portugueses percebam que Portugal passou por coisas concretas. A intervenção externa e o período entre 2011 e 2015 não é uma abstração teórica. Nós tivemos um choque de grandes dificuldades económicas e financeiras e não era possível, em boa verdade, no exercício de uma legislatura recuperar tudo. O limite para o orçamento da saúde é, em termos teóricos, um limite que tende para infinito. Vou dar um exemplo muito concreto para que as pessoas possam perceber: começámos a implementar, nos centros de saúde, consultas de saúde oral. Era uma condição que não estava satisfeita e até no plano constitucional nós tínhamos obrigação de o fazer. Estamos neste momento com algumas dezenas, pouco mais de uma centena, de centros de saúde com médicos dentistas. Mas, satisfazer essa necessidade, que até está inscrita no espírito e na letra da Constituição da República, significará que nós temos de ter mais oferta de saúde oral, de medicina dentária, significará uma despesa que não vai parar de crescer. Temos também a inovação terapêutica, os novos medicamentos. Portanto, dizer que o subfinanciamento é uma doença crónica dos sistemas de saúde é dizer que é uma doença que por ser crónica provavelmente não terá cura e que vai ter de ser gerida. Nós temos é de, em cada momento, fazer tudo para que o país seja orientado para a saúde, para a promoção da saúde, e para conseguir que, sendo certo que a maioria de nós acabará por ficar, mais tarde ou mais cedo, doente, o possamos ficar o mais tarde possível e nas melhores condições de tratamento possíveis.

O Observatório da Saúde assumiu esta semana que se nada for feito o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai definhar. Falta tempo, falta dinheiro, falta vontade, o que é que falta?

Com todo o respeito por essas afirmações e que têm sido, aliás, acompanhadas por outras afirmações de outras entidades e de outros setores, nós temos de separar o que é uma visão demasiado catastrofista, demasiado negra, do que é uma preocupação de alguém que tem receio de perder aquilo que de melhor a democracia trouxe às funções sociais do Estado e ao Estado Social. Mas também não podemos iludir que há agentes que, no setor, fazem uma política de terra queimada.

Quem são esses agentes?

Há um jogo político entre os partidos que estão no governo e os que estão na oposição. Mas o exagero na apreciação dos factos, muitas vezes é feito para tirar consequências ou vantagens que não são rigorosamente aquelas que defendem o interesse público.

Essa política alarga-se às organizações profissionais do setor?

Não. Eu tenho uma visão benigna e até profundamente respeitadora das organizações socioprofissionais. Elas fazem o seu papel, elas chamam a atenção para os problemas, podem naturalmente, aqui e ali, dar-lhes maior ênfase ou maior destaque, mas fazem-no no sentido de defender o que é o seu capital próprio, que são os recursos humanos, as pessoas. E mal dos governos, mal dos Estados, que olharem para esse tipo de conflito ou de reivindicação com receio, com medo ou até com distanciamento. É preciso ir ao diálogo com as pessoas. Eu separo aquilo que é da política, que é, digamos, da luta político-partidária daquilo que é a reivindicação socioprofissional que sempre existiu. O Estado tem obrigação de gerar equilíbrios, de dialogar, de ir ao encontro dos agentes, de explicar quais são as condições reais que o país experiencia e procurar gerar acordos e consensos. Naturalmente, há quase sempre da parte dessas entidades um esticar de corda, uma pressão mais acentuada. É assim que as democracias amadurecem. Para completar o meu raciocínio e porque falei de alguma política de terra queimada: estar constantemente a denegrir o SNS, a sua condição de funcionamento e até a sua filosofia, quando nós temos apreciações internacionais que dizem, de forma independente que o sistema nunca deixou de melhorar do ponto de vista dos resultados. Que é mérito dos profissionais de saúde que nele trabalham. Há em quem quer denegrir o SNS uma intenção que seria a de pôr em causa este modelo do ponto de vista do financiamento, da prestação, da organização, e dizer que o melhor se calhar é repensar tudo isto e voltarmos a uma ideia fundacional que seja diferente e desistir do SNS.

À esquerda e à direita, certo?

Talvez a maior fragilidade do debate político seja ele ter pouca sustentação na evidência técnica e até científica, quer nacional quer internacional. Quando nós olhamos para coisas concretas - taxas moderadoras, parcerias público-privadas, separação entre público e privado -, temos de procurar densificar as propostas para que o próprio cidadão nos possa acompanhar ou até contrariar a nossa opção política. Para isso basta fazer um exercício simples, que é comparar aquilo que melhor se faz a nível internacional na Europa, por exemplo, com o que se faz em Portugal. Portanto, a ideia de tornar os serviços públicos todos gratuitos em geral, em abstrato, é uma boa ideia ou uma má ideia? Eu não lhe sei responder. Por exemplo, tenho dúvidas sobre se as propinas gratuitas são uma boa ideia no quadro em que o que faz falta no país são a ação social, o apoio social, residências universitárias e o apoio às famílias. Quando um país pobre generaliza o exercício de direitos que têm uma matriz regressiva, que não são indexados à condição económica e social, então nós confundimos os planos. E a justiça social não se realiza com medidas cegas, abstratas e generalizadas.

É a mesma coisa com as taxas moderadoras?

As taxas moderadoras não têm o intuito do financiamento do sistema. Como o próprio nome definiu, destinam-se a moderar consumos. É esse o sentido da discussão que se deve ter sobre as taxas. Se calhar é mais importante rever o dinheiro que se ia perder ou que se ia perder pelas taxas moderadoras, que é pouco, e que poderia ser para a melhoria na comparticipação dos medicamentos para os doentes mais idosos e mais pobres. Aí, eu acompanho essa medida. A justiça social e a redução das desigualdades não pode ser um exercício de pura demagogia e de pura irresponsabilidade. Todas as gratuitidades e todos os direitos que são exercidos de uma forma irresponsável têm um pagamento: pagamo-los todos mais tarde quer seja através dos impostos, seja depois com situações de maior dificuldade do país que, infelizmente, já experimentámos por três vezes.

Nesta discussão da Lei de Bases, que aliás se tornou uma luta bastante ideológica tanto à esquerda como à direita, acha então que o governo devia encostar-se mais ao PSD e à direita numa visão mais equilibrada, sobretudo na questão entre o público e o privado?

Eu recuso-me a entrar nesta discussão, balcanizando-a e dizendo que de um lado estão os bons e do outro estão os maus. Portanto, não vejo esta questão entre direita e esquerda e acho que reduzi-la apenas à combinação público-privado é manifestamente insuficiente e inadequado.

Acha que é isso que está a acontecer?

É isso que está a acontecer e eu penso que há aqui alguma utilidade política errada que está a ser retirada deste debate. Nós não estamos a discutir o essencial que é a resposta às necessidades concretas das pessoas. Quando, numa discussão política, criamos uma balcanização e criamos zonas de trincheira, isso gera uma excitação mediática muito grande, muitos debates, muitos frente-a-frente, muita discussão, e não vamos ao essencial. Vamos então arrumar as questões sobre aquilo que é o meu pensamento sobre esta matéria da Lei de Bases da Saúde: nós não podemos estar, 30 anos depois, com o mesmo enquadramento. Porque o país de 1979 não é o país de 2019. Como nós nascemos, crescemos e morremos hoje, não tem nada que ver com a forma como tal acontecia em 1979. Hoje, somos um país envelhecido e isso é bom, vivemos mais tempo, temos o privilégio de ter connosco os nossos pais e os nossos avós até muito mais tarde, mas o que é facto é que a carga de doença que vem associada a esse tipo de transição demográfica traz para os sistemas de proteção da saúde e social encargos imprevistos e de difícil provisionamento. Alguém discute no setor social e na Segurança Social a combinação público-privado ou público-social? Ninguém discute, porque é quase, diria, uma condição de funcionamento. Sejamos claros: temos de gerir bem os equipamentos públicos, com uma boa gestão pública. Se me perguntar se eu tenho preferências respondo-lhe que tenho preferência pela melhor gestão, idealmente que ela seja pública nos equipamentos públicos. Segundo, temos de trabalhar naquilo que são as relações de fronteira entre os setores, e eu acredito que até as entidades privadas e sociais preferirão que haja uma separação tendencial. Quem trabalha no Estado poderá ter condições de motivação, de enquadramento e de progresso profissional que o faça sentir-se muito melhor a trabalhar no Estado. E os privados devem, também eles, investir em quadros próprios. Porque não? Já o estão a fazer. Esta relação mal definida entre os setores gera, de facto, ineficiências, gera provavelmente sobregasto etc. As pessoas fazem exames num lado, exames no outro, não há comunicação entre as partes, e estamos a ter pessoas que têm cuidados a mais. A maior crueldade que pode haver num sistema de saúde é ter cidadãos que têm cuidados a mais, alguns deles desnecessários, por oposição a cidadãos que têm cuidados a menos que também lhes fazem muita falta.

No setor social essa convivência é pacífica. Porque é que não é na área da saúde?

Porque nós estamos a cometer um erro que é o de considerar que as dificuldades do SNS - o subfinanciamento, a desorçamentação - têm tudo que ver com uma relação de convivência de setores. Estamos a esquecer os dois pilares do edifício que estão mais diminuídos: a modernização de infraestruturas e equipamentos. O que tem sido feito nestes últimos três anos é importante, mas tem de ser fortemente intensificado. Eu disse duas vezes no Parlamento que entendia que o SNS precisaria de um Plano Marshall. E para isso tem de haver um acordo, que seja um acordo de gente boa, de homens bons na Assembleia da República, independentemente do local onde se sentam no Parlamento. Significa que, se queremos defender aquilo que de melhor a República nos trouxe, temos de ter um plano de médio prazo de fortíssimo investimento e modernização. Muitas vezes diz-se: "Ah, os médicos fogem para o privado por isto ou por aquilo". Não, os médicos, enfermeiros e outros profissionais desmotivam-se porque veem que o privado vai tendo os equipamentos todos modernos e o público demora muito tempo a substituir. O que é que faz reter um jovem médico no SNS? Bom, falei do pilar da modernização das infraestruturas, falta falar do pilar do edifício das carreiras, do enquadramento. Um jovem médico pensará em ficar no SNS se tiver a perspetiva de evoluir num tempo relativamente previsível na sua posição e carreira profissional, no seu prestígio, na sua reputação, se puder fazer investigação clínica, se tiver uma relação aberta com a comunidade científica, e se tiver, de facto, condições de trabalho que sejam apelativas. Não é com dedicação exclusiva à força, porque não é sequestrando os profissionais que nós temos profissionais mais motivados. É um erro. Eles têm que estar porque querem estar. Mais do que a exclusividade eu diria que a dedicação plena ao trabalho no hospital onde estão faz com que tenham uma vida muito mais compensadora do ponto de vista do seu trabalho, mas também tenham condições de exercício, de constituição de equipas. O que penalizou muito o SNS nos últimos anos foi a disrupção das equipas. Portanto, a criação de centros de responsabilidade integrada, como houve há uns anos com muito sucesso com o Professor Manuel Antunes em Coimbra, em que aqueles que querem estar dentro do SNS estão, até com compensação até material, económica. Não podendo o Estado, naturalmente, pagar muito mais a todos deve considerar um tratamento diferenciador positivo para aquelas pessoas que querem vestir a camisola do SNS intensamente, esse caminho deve ser prosseguido. Essa questão de procurar regular o sistema à força é parar o vento com as mãos..., Eu sou de um tempo, quando me formei, em que os grandes professores tinham na sua placa do consultório na Av. da Liberdade, "Médico dos Hospitais Civis". É preciso recuperar esse sentimento de pertença, esse prestígio. Há pouco falávamos das novas gerações, eu vejo esta discussão muito centrada em torno das gerações que são mais experientes e que têm uma visão do processo talvez um pouco menos atualizada. É preciso ouvir as pessoas que têm menos de 35 anos, de 40 anos, partilhar com elas, saber que futuro sistema de saúde elas querem.

Para tudo isso é preciso financiamento, por isso voltamos aqui ao início da nossa conversa: como é que se resolve esta equação da melhor forma?

Vou-lhe responder de uma forma politicamente incorreta. Com crescimento económico, com economia. É preciso explicar às pessoas que nenhum país consegue distribuir aquilo que não tem. Passar para o país a ideia de que sem crescimento económico vigoroso, sem capacidade de gerar emprego para que as pessoas tenham rendimento e se possam alimentar convenientemente, tenham esperança e acreditem em si próprios, não melhoramos os indicadores de saúde. Nomeadamente da saúde mental que é um problema gravíssimo entre nós. Nós podemos ter, como algumas das ideias que aí andam, um estado social fugazmente forte durante três ou quatro anos até à próxima crise.

Aconteceu aqui uma mudança na Lei de Bases da Saúde que foi proposta em relação à que tinha sido desenhada ainda na sua vigência. O que é que aconteceu? Foi um condicionamento pelo BE, pelo PCP?

Eu acho que o Governo não virou para nenhum lado. O Governo está onde sempre esteve, até porque quem lidera a política do Governo e quem conduz a política do Governo é o mesmo primeiro-ministro. Outra coisa é ponderarmos se do ponto de vista técnico e jurídico, a proposta da comissão de revisão era mais completa, mais abrangente e permitiria um debate mais sólido. Eu penso que sim. A esmagadora maioria do que desapareceu não tem nada que ver com a relação público-privado. Tem que ver com outras dimensões. Nomeadamente da saúde pública, da promoção da saúde, da transformação digital, do papel do cidadão, etc. É mais prático para justificar determinado tipo de coisas, dizer que [o Governo] virou à esquerda, ou é mais a favor do Estado ou contra o Estado. Isso não está em causa. Aliás, no debate foi reafirmada, pela atual ministra da saúde, a intenção de haver estatização. Portanto, o sistema terá de ser melhorado. Terão de ser bem definidas as relações de fronteira. Quem faz o quê e como? A proposta da comissão era mais ambiciosa e eu diria que era também, tecnicamente, mais bem construída e permitiria um debate mais rico. Eu acredito que agora em sede de comissão de especialidade, teremos todas as condições para ter uma boa lei que projete os próximos dez ou vinte anos com mais segurança e melhor qualidade.

O que é que acha que vai acontecer aos privados? Vai haver uma diminuição dessa prestação, manter-se-á ou até aumentará?

Vamos a factos. Portugal tem dez milhões de habitantes. Todos nós, felizmente, temos a cobertura que nos é garantida por via constitucional, pelo SNS. À parte disto, existem cerca de três milhões e meio de portugueses que têm uma ou outra cobertura. Subsistemas de proteção de saúde. Todos estes somados, falamos de três milhões e meio de portugueses a caminho dos quatro milhões. São cidadãos que entendem pagar do seu bolso uma cobertura adicional para terem liberdade para escolher o hospital e o médico que pretendem. É um direito de exercício de liberdade sobre o qual o Estado não terá de se intrometer, penso eu. Essa pessoa paga os impostos e também tem o direito de usufruir do SNS. Portanto, um SNS forte, que é referência, exemplo, reserva de competências para a formação, para a diferenciação, para a retenção dos melhores, é um imperativo público que esta Lei de Bases que emergir do consenso parlamentar deve garantir. Outra questão é a vida dos cidadãos na reserva de direito privado. Sobre isso, eu creio que o Estado não tem grande necessidade de intervir desde que torne mais bem definidas as relações de fronteira.

Partilha de alguma forma da ideia que aliás, foi deixada aqui pela ministra numa entrevista há algum tempo, de que os serviços só devem crescer em função do que for melhor para o SNS?

Deduzo que a senhora ministra quereria dizer na dependência de dinheiros públicos.

Claro. Ela explicava isto dizendo que há hospitais cuja viabilidade é assegurada apenas com a participação, colaboração, subvenção do Estado.

O que eu acho e sempre achei, e disse-o a alguns operadores privados, é que os seus modelos de negócio deviam ser feitos sempre tendo como princípio que o Estado não é um financiador.

Mas por norma, isso não acontece?

Neste momento eu não tenho o cotejo fino daquilo que é o modelo de exploração de cada entidade privada. O que eu sei é que a ADSE tem um peso relativamente importante. Talvez 20,30,35%. Nessa medida, concordo que desenvolver atividades privadas a contar com que mais tarde ou mais cedo o financiamento público apareça, é um erro. Mas vamos também ser justos. Imagine que amanhã o setor convencionado das pequenas clínicas de análises clínicas, de radiologia, de cardiologia, etc., fechava. Havia um shutdown. O que é que acontecia às dezenas de milhares de pessoas que por dia fazem a frequência desse serviço com a credencial emitida pelo SNS? Quanto a mim, a opção política deve ser certamente que a eficiência do sistema público seja cada vez maior e que consiga responder e tornar mais eficientes os seus equipamentos, mas há aqui uma questão que é: a transição, o tempo de transição e também a eficiência. Se calhar ao Estado, sair-lhe-á sempre mais caro ter um posto de colheita de análises num local relativamente remoto do que fazer uma convenção a um preço controlado com uma entidade privada. Pensemos primeiro no interesse concreto das pessoas. A obrigação do Estado é prover cuidados e para isso deve usar o seu braço forte e sólido que é o SNS. O desenvolvimento do setor privado não deve ser feito na sua modelação e na construção dos seus modelos de negócio, a pensar que virá a ter dinheiro do Estado. Agora, isso não significa que nós sejamos irrazoáveis ao ponto de dizer que a combinação em determinadas áreas do país, como aliás na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados onde ¾ são assegurados pelo setor social, por IPSS, que essa cooperação não deva existir. O problema são as definições de fronteira. Eu não digo para se construir um muro. Não tenho sobre isto uma visão trumpiana, se me permitem a nota de humor. É preciso haver regras.

Nessa medida, como é que vê o fim da parceria público-privada no hospital de Braga?

Também aí há que repor a pureza dos factos. Houve prazos que foram ultrapassados e o operador não respondeu em tempo útil. Portanto aquilo que está no programa do Governo está a ser cumprido.

Saiu do governo com muitas coisas para fazer, muitas metas por cumprir. Não tem por vezes uma sensação de frustração?

Frustração temos sempre ao longo da vida porque gostamos de em cada momento, ter a sensação de missão cumprida. Eu cumpri ¾ da legislatura, e agora a minha sucessora vai fazer o último ¼. Um governo é uma equipa. É uma equipa onde a substituição do titular da pasta não deve significar nada a não ser a continuidade da política. Nós vamos cumprir na legislatura as cem USF que estão no programa. Eu sinto-me parte, com muito orgulho, dessa circunstância. Dia 25 foram apresentados os onze hospitais com autonomia. Esse processo foi desenhado com a minha equipa e a do ministro das Finanças e agora está a ser implementado. O mesmo acontecerá com os Cuidados Continuados Integrados e com a questão da dívida que está a atingir neste momento valores completamente históricos do ponto de vista do seu montante. É isso que traz responsabilidade à política. É que às vezes nos governos, há determinados titulares que por força das circunstâncias, ficam com a parte que é mais combativa e mais difícil. Mas fizeram aquilo que tiveram de fazer para quem completa a legislatura possa dar continuidade. Portanto este, é o meu Governo. Eu sou membro do PS como é do conhecimento geral, faço parte da comissão política e mesmo que eu não fosse, este continuaria a ser o meu Governo.

Se há uma continuidade de políticas, porque é que saiu?

Eu tinha justamente discutido com o primeiro-ministro que a visão da política deve ser a de que em cada momento, a consciência de se estamos a acrescentar mais ou menos valor e tranquilidade deve ser assumida. Entre nós os dois, tínhamos este pacto. Eu tinha-lhe dito que talvez fosse bom haver uma saída e um refrescamento. E ele tinha a prerrogativa, como tem qualquer primeiro-ministro, de escolher o momento em que o faria. Porque é que o exercício de uma política de um Governo que é avaliado ao final de quatro anos em eleições fica melhor ou pior se for sempre com o mesmo titular ou com titulares diferentes? As políticas são mais importantes que as pessoas. Se virem a duração média de um ministro da Saúde em Portugal é relativamente baixa. O Paulo Macedo conseguiu fazer os quatro anos porque tinha aquele cimento que era a presença da troika em Portugal. É uma pasta de muita intensidade política, de muito combate e, por vezes, o refrescamento não só traz uma melhor relação com o terreno, como traz também alguma frescura política que eu admito que se perde ao fim de três anos na Saúde.

Quais foram as maiores dificuldades que fizeram perder essa frescura? Foram financeiras?

Eu gostava muito de ter tido a sorte de ter feito muito mais investimento nestes três anos, de ter melhorado os hospitais. Foi e está a ser feito muito investimento, mas continua a ser claramente insuficiente. Queria que o Hospital Oriental de Lisboa que nós lançámos já estivesse com o concurso em condições de se concretizar, o do hospital de Évora foi agora recentemente concretizado; os centros de saúde estão a ser feitos... enfim, eu sinto que o que faz falta ao SNS é um choque de modernização. Com essa renovação conseguimos atrair mais e melhores profissionais. Faz também falta arrumar, no bom sentido do termo, o edifício das carreiras profissionais. Não estou a falar de dinheiro, mas sim do edifício de carreiras. O dinheiro pode não existir, mas os enfermeiros têm razão. Precisam de ter de um enquadramento profissional diferente. A enfermagem de hoje não tem nada que ver com a enfermagem do tempo em que eu acabei o meu curso. A enfermagem é das áreas profissionais que mais se transfigurou, que mais se densificou e a sua função é fundamental para o SNS. Em síntese, para lhe responder: se eu voltasse atrás nestes três anos o que é que eu gostaria que tivesse acontecido? Gostava que tivesse tido mais recursos financeiros para que o tal Plano Marshall já tivesse começado. Seria bom que alguns processos de carreiras que foram concretizados ainda no meu tempo, como o dos farmacêuticos hospitalares, e o início das negociações com os enfermeiros pudessem estar terminados. Creio que estarão até ao final da legislatura. Na altura foi muito mal interpretado por alguns sectores, quando eu no Parlamento disse em matéria de rigor orçamental e de controlo das contas públicas "nós somos todos Centeno." Foi-me dito "ai você como ministro da Saúde devia ter uma posição mais reivindicativa, mais distanciada." Não. Porque eu sei que não haverá saúde e não haverá sustentabilidade do sistema de saúde sem o país encontrar de uma vez por todas o seu caminho de equilíbrio no exercício orçamental e na capacidade de criar valor na economia para os serviços públicos. Pode não ser muito popular, pode ser algo que não fica bem, mas eu dir-lhe-ia hoje, quatro meses depois de sair do governo, que continuo a ser não pelo Mário Centeno em concreto, mas adepto da ideia de que é preciso prevenir que pela quarta vez, entremos em situação de default ou dificuldade orçamental. Isso seria imperdoável para as futuras gerações. Elas diriam: "mas afinal o que é que os meus pais e os meus avós andaram a fazer com o meu país?"

Como é que ficaram as suas relações com Mário Centeno e António Costa?

O melhor possível. Com o Mário Centeno tenho duas particularidades em comum: somos os dois benfiquistas e temos os dois um razoável sentido de humor. O mesmo se aplica com o primeiro-ministro que é benfiquista, também tem sentido de humor e naturalmente que as relações pessoais são as que existiam. As relações políticas são as de alguém que acredita que este Governo contribuiu decisivamente para transformar não só o clima político do país, mas também a própria reconciliação dos portugueses com o seu próprio país. Mas falta algo muito importante que é: nós não podemos morrer na praia. Seria fatal, não tanto para o Governo nem para o PS, mas seria fatal para as próximas gerações.

Acha que corremos esse risco?

Nós vemos o mundo, vemos a Europa, a realidade externa, sabemos o quão pequenos somos, a vulnerabilidade que temos, por isso isto não é uma ficção. As coisas negativas infelizmente acontecem. A melhor forma de não termos uma gripe muito violenta, é vacinarmo-nos. Em matéria de estabilidade do país, temos de ter presente a noção de que essa vacinação deve ser feita.

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