Aos 75 anos, é cuidadora do marido com alzheimer: "Pensava que não aguentava"

Rejeitou que o marido fosse para um lar mas em alguns momentos pensou que "não aguentava". As dificuldades e as angústias por que passou um casal do Porto quando a mulher, de 75 anos, se tornou a cuidadora do marido, doente com alzheimer.

Desde a reforma antecipada do marido que Maria Manuela Gil Mata vinha reparando nos sinais. "Começou a desorientar-se muito e, em 2016, fui ter com a médica e disse-lhe que ele tinha este problema de esquecimentos e que estava a piorar de dia para dia. Estava a tornar-se galopante", recorda.

Exames posteriores confirmaram a Joaquim Gil Mata o diagnóstico de alzheimer. "Posso dizer-lhe que foi o dia mais triste que tive até hoje. Foi uma machadada muito grande. Chorei a bandeiras despregadas, como se costuma dizer. Pensava que o alzheimer era uma doença que matava", desabafa o marido.

Maria Manuela Gil Mata tem 75 anos e é quem cuida do marido. Os primeiros tempos obrigaram a uma permanente vigilância. "Começou a levantar-se de madrugada, a vestir-se e a dizer que ia ter com os amigos. Aí passei três meses muito angustiantes. Não dormia nada. Chegou a perder-se nas compras, tivemos duas situações de grande aflição e a partir daí nunca mais saiu sozinho", conta a mulher revelando que desde então o marido passou a usar pulseira de identificação.

A entrada num centro de dia especializado em alzheimer ajudou a aliviar os sintomas de Joaquim e o desgaste da cuidadora. "Cheguei a ter acompanhamento. Agora estou a recuperar mas na altura fui muito abaixo porque era muito desgastante. Sofri bastante porque comecei a pensar como será esta vida, depois falavam-me em ir para um lar interno e eu não queria de modo algum, mas também pensei que não aguentava e foi um dilema muito grande. Agora vem para aqui das 10 às 16 horas, já há um descanso e recomendo a qualquer cuidador", revela Manuela Gil Mata.

A falta de vagas em centros especializados em azheimer é um problema acrescido para as famílias. Com frequência, Alexandra Cardoso, diretora técnica da Memória de Mim, em Lavra, Matosinhos, abre a porta a cuidadores em exaustão.

"São ótimos cuidadores porque cuidam muito bem da pessoa que tem a doença e deixam-se para segundo e terceiro plano. Muitas vezes precisam de ir ao dentista tratar de um dente, fazer fisioterapia e não vão, porque não têm com quem deixar o familiar. Efetivamente, as respostas ainda são muito poucas", adianta.

Alexandra Cardoso lembra ainda que apesar de um acompanhamento em centro de dia ajudar a aliviar a pressão não resolve tudo. "Podemos pensar que durante o dia, enquanto estão no centro, o cuidador pode descansar mas a maior parte destas pessoas não consegue dormir durante o dia ou tem outros afazeres. E se a noite foi complicada há roupas para lavar, roupas para estender e tudo isso é um desgaste que não os deixa parar para descansar", acrescenta.

Além disso, a falta de vagas em centros especializados nesta área compromete os resultados de uma intervenção, na medida em que "é nas fases iniciais da doença que é importante trabalhar com estas pessoas, conseguindo manter por mais tempo as capacidades que ainda mantêm".

Além da terapêutica, o combate ao isolamento e a interação social é outra das vantagens do acompanhamento do doente com alzheimer em centro especializado. "Ter um objetivo, sair de casa, vestir-se, estar com outras pessoas é muito importante. Aqui trabalhamos não apenas a parte cognitiva mas também a motora e aproveitamos a proximidade do mar para umas caminhadas. O senhor Gil adora e vai a cantar, a cantar alto, mete conversa com os caminheiros de Santiago, e tem efeitos muito positivos", salienta a diretora técnica do centro "Memória de Mim".

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