Dia Europeu da Ação contra a Enxaqueca

Enxaqueca: "um bicho-papão" que pode ser controlado com a comida

Três em cada quatro pessoas que sofrem da doença são mulheres. É uma doença que torna a luz, o som ou os cheiros numa dor de cabeça.

Assinala-se esta quarta-feira o Dia Europeu da Ação contra a Enxaqueca, doença que afeta três vezes mais mulheres do que homens e que tem uma prevalência de 9% ao longo da vida, em Portugal.

A enxaqueca consiste, segundo Margarida Martins Oliveira, neurocientista e nutricionista - com trabalho realizado na Califórnia, em Londres e na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto - numa "doença neurológica relacionada com a forma como o cérebro processa estímulos sensoriais externos".

Isto é, fenómenos como "luz, som e cheiro" tornam-se na raiz de um problema que leva quem sofre desta doença a, por exemplo, isolar-se em quartos escuros e sem barulho, além de não conseguir tolerar certos odores "como incenso ou lixívia".

Mas o que acontece, afinal, dentro de uma cabeça a sofrer com enxaquecas? "Todos (estes fatores) estão a estimular o cérebro. Nas pessoas com enxaqueca, o cérebro responde com a ativação de um conjunto de neurónios muito específicos: os do nervo trigémeo", explica a neurocientista. Mas há uma ressalva: "a enxaqueca é muito mais que uma dor de cabeça".

(Ainda) Não se sente no dia anterior, mas já está em marcha

Cada episódio "tem várias fases sintomáticas e, para além da dor, há uma fase premonitória que prevê, com alguma precisão, a enxaqueca. Isto acontece algumas horas ou até mesmo um dia inteiro antes da dor e inclui sintomas não dolorosos: sensibilidade sensorial, irritabilidade, cansaço extremo, fome (apetite muito maior que o habitual) e a procura por alimentos com alta palatabilidade", explica Margarida Martins Oliveira.

As enxaquecas são, por vezes, confundidas com episódios esporádicos de dores de cabeça muito fortes, mas a população tem vindo a aperceber-se cada vez "mais cedo", daquilo que realmente está a sentir. "Há estudos recentes que mostram que os doentes já estão mais conscientes de que uma enxaqueca não é só a fase da dor e apercebem-me mais cedo de que vão ter um episódio nas próximas horas ou no próximo dia", pelo que também a prevenção pode ser feita numa fase mais inicial.

Antes da prevenção há, no entanto, que diagnosticar, algo que não é fácil. O diagnóstico "deve ser feito por neurologista com especialidade em enxaqueca (...) É necessário seguir uma lista de critérios para diagnosticar. Aconselho a que o médico de família encaminhe para um neurologista especialista na doença", alerta a investigadora. As mulheres são especialmente afetadas, numa razão de "três para um" em relação aos homens.

A nível mundial, "afeta 15 a 18% das pessoas. Em Portugal tem uma prevalência ao longo da vida de 9%", segundo números de um estudo do Professor Pereira Monteiro, especialista em enxaquecas.

"Não há uma dieta para a enxaqueca", mas há dicas

Margarida Martins Oliveira enaltece o papel da nutrição no combate e prevenção da doença, deixando alguns conselhos práticos:

- Evitar estar em jejum prolongado ou saltar refeições;

- Saber identificar corretamente alimentos que causem episódios de enxaqueca: "comer chocolate é descrito como fator desencadeante e temporalmente pode parecer relacionado. Mas só é desencadeante se provocar enxaqueca de todas as vezes que for ingerido", pelo que "é preciso entender a diferença entre fatores desencadeantes e sintomas";

- Manter um peso saudável: "a obesidade é um fator de risco para a doença. Aumenta a frequência e duração das enxaquecas";

- Controlar a glicose no sangue: "estudos clínicos mostram que indivíduos com enxaquecas têm níveis altos de glicose no sangue, o que sugere que o metabolismo de glicose e insulina pode estar alterado";

- Ter uma boa qualidade de sono: "existe uma grande influência da alimentação durante o dia, e antes de dormir, que influencia a qualidade do sono. Evitar a ingestão elevada de cafeína, álcool e comida com alto teor de gordura" ajuda a dormir melhor.

- Beber água e evitar bebidas com adição de açúcar;

Por fim, há um fator que não se pode controlar: o genético. "Habitualmente, uma mulher com enxaqueca terá uma mãe e uma avó com enxaqueca na família. Há uma componente hereditária" e essa não pode ser controlada.

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