Falta de dinheiro trava implante de corações artificiais

Dois anos depois de ter sido implantado o primeiro coração artificial definitivo em Portugal, falta dinheiro para novas cirurgias. O preço do aparelho, que chega aos 100 mil euros, tem de ser suportado pelos hospitais, o que está a aumentar o número de doentes em lista de espera.

O primeiro coração artificial definitivo em Portugal foi implantando no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, em 2017, num doente com insuficiência cardíaca, diabetes e insuficiência renal, cujo quadro clínico o impossibilitava de receber um transplante de coração de um dador.

A intervenção, em que foi utilizada uma bomba por levitação magnética que aspira o sangue da ponta esquerda do coração e injeta na aorta, contribuiu para aumentar a qualidade de vida do doente e foi apontada como um avanço técnico e um marco histórico no Sistema Nacional de Saúde (SNS).

Apesar disso, desde então, realizaram-se menos de 10 cirurgias deste género em todo o país, porque cada aparelho custa 100 mil euros e não há um programa nacional para financiar as intervenções, que têm de ser suportadas pelos hospitais.

Ouvido pela TSF, o cirurgião cardiotorácico responsável pelo primeiro implante lamenta a falta de investimento do Governo e avisa que o número de dadores para transplante de coração está a cair drasticamente: "No passado, os dadores de órgãos eram uma população jovem, vítima de desastres de viação, mas a segurança rodoviária melhorou imenso no país e hoje o perfil dos dadores não é muito favorável, por serem dadores mais velhos, para a transplantação cardíaca. Portanto, neste momento, estamos a deparar-nos com listas de doentes para serem transplantados e as unidades de insuficiência cardíaca estão a ficar sem solução para estes doentes", garante José Fragata.

O diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica do hospital de Santa Marta, que é também vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa, lembra que em Portugal há, em média, 50 transplantes por ano e admite que a redução de dadores está a criar um problema grave no sistema de saúde.

"Se entrarmos numa falência grande de corações para transplante, temos de estar preparados para ir aumentando progressivamente o número de aparelhos de assistência mecânica que vamos fazendo, que é o que todo o mundo está a fazer. Eu penso que, por uma questão de sustentabilidade, o Governo devia introduzir aqui um programa nacional financiado exatamente para este fim", considera José Fragata.

O especialista lembra que o investimento é uma forma de aliviar a fatura de medicamentos e internamentos cardíacos no orçamento da saúde e dá como exemplo outros programas do SNS: "Como para a hipertensão pulmonar, ou para outras doenças complexas, foi criado um programa especifico de financiamento. Assim, pelo menos nós sabemos com o que podemos contar, o número de doentes que podemos tratar e podemos priorizar as indicações."

Só no Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC), a que pertence o Hospital de Santa Marta, há três doentes em lista de espera para receber um coração artificial.

Contactado pela TSF, o CHULC refere que "mais [doentes] poderão seguir-se, como, por exemplo, os que permanecem em lista de espera para transplante cardíaco, e nos quais estes dispositivos poderão ser usados como ponte para transplante."

O centro hospitalar sublinha que estes implantes são uma opção definitiva que permite recuperar em grande parte a qualidade de vida, com sobrevidas de 80% a dois anos, mas explica que "dado o seu elevado custo, aguarda-se a criação de um programa nacional financiado que permita realizar esta atividade."

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