Mais depressa morre um idoso do que a Segurança Social paga um lar

A Reportagem TSF "O patinho feio" acompanhou o dia-a-dia no hospital para onde mais portugueses são encaminhados. Um dos graves problemas do Amadora-Sintra são os idosos sem outro sítio para ir.

"É praticamente cama sim, cama não". O retrato da enfermeira Isidoro, chefe no serviço de Ortopedia do Hospital Amadora-Sintra, é feito em frente à cama onde está uma senhora com 84 anos, acamada, mas cuja filha passou a espaçar as visitas e a apresentar sempre uma razão para evitar levar a mãe para casa desde que surgiu a notícia da alta.

"Vários telefonemas, com várias desculpas", o que leva o caso a estar "numa linha final, sendo preciso tomar uma decisão, pois já passou um, dois, três meses...". Situações cada vez mais frequentes no Amadora-Sintra quando um idoso tem de voltar para casa mas está acamado ou precisa de muitos cuidados.

"E depois temos doentes na urgência a aguardar numa maca quando temos aqui casos sociais que não se justifica estarem na enfermaria", resume a enfermeira.

As responsáveis do hospital contam que, sem resposta da Segurança Social, a única solução que a administração do Amadora-Sintra encontrou foi colocar os idosos em lares pagos pelo orçamento próprio que, mesmo sem essa despesa, já é curto para todas as outras necessidades.

Pode encontrar aqui, completa, a Reportagem TSF desta semana: "O patinho feio", um retrato do dia-a-dia do Hospital Amadora-Sintra.

À espera da Segurança Social desde 2011

O presidente do hospital admite que ao contrário do que acontece ao lado em Lisboa, aqui não há apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que tem as receitas do jogo, nem há tantos apoios de cuidados continuados ou instituições sociais, apesar de Amadora e Sintra estarem "cheias de casos sociais".

Francisco Velez Roxo conta que têm mais de 50 ex-doentes em lares, um número muito maior que outros hospitais e que custa 1,5 milhões ao orçamento anual.

A coordenadora do Serviço Social acrescenta que têm um caso que aguarda desde 2011 por um pedido de financiamento de lar. Outros casos, conta Adélia Gomes, arrastam-se desde 2014, 2015, 2016... "o que é ilustrativo da demora da Segurança Social que só responde pontualmente".

"Infelizmente", confirma a coordenadora do Serviço Social, muitas vezes mais rapidamente morre o idoso do que a Segurança Social dá uma resposta a um pedido de lar.

"Se quiser deite-o para o lixo"

Adélia Gomes admite que ao longo de duas décadas de Amadora-Sintra já ouviu coisas que nunca imaginou: "Estava na urgência e houve um familiar, filho, que teve a coragem de me dizer 'se quiser deite-o para o lixo'".

A responsável do serviço social do hospital acrescenta, contudo, que na maioria dos casos não podemos falar de abandono de idosos como muitas vezes se lê nas notícias.

Maioria dos casos não são abandono

Adélia Gomes, mas também a enfermeira Isidoro, conta que com frequência estes problemas sociais nascem porque os idosos não têm família, estas estão distantes ou então não têm mesmo condições para cuidar de alguém acamado, sobretudo porque estamos numa zona com muita muita classe média-baixa e baixa, em que as pessoas em idade ativa têm mesmo de trabalhar.

Várias vezes as famílias sublinham explicitamente que não estão a abandonar o pai ou a mãe, com Adélia Gomes a aperceber-se que por norma estão a sofrer por deixarem alguém tão próximo no hospital, apesar dos alertas de risco sérios de infeção hospitalar.

A dona Isaura é um dos casos sociais do Amadora-Sintra. Tem 92 anos, caiu de noite enquanto ia à casa de banho, partiu uma perna e veio parar ao hospital. A perna já está melhor, já teve alta médica, mas a filha também é doente e não consegue tratar da mãe em casa.

Quando a visitámos, Isaura aguardava há algumas semanas por vaga numa unidade de reabilitação. Com um sorriso nos lábios, conta que o objetivo é voltar a andar, nem que seja com uma bengala. Caso contrário... não faz ideia para onde vai...

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