"O patinho feio" dos hospitais. Reportagem TSF no Amadora-Sintra

A TSF acompanhou o dia-a-dia num hospital feito para uma população de 250 mil pessoas que serve mais do dobro. Encontrou problemas estruturais, mas também histórias de sucesso.

Tem o nome oficial de Hospital Fernando Fonseca, mas é raro quem não lhe chame Amadora-Sintra. A morada oficial diz-nos que fica no IC19, na fronteira entre o oitavo e o segundo concelhos mais populosos do país.

É o hospital para onde mais portugueses são referenciados quando estão doentes, mas foi mal planeado, mal construído e tem má fama.

A Reportagem TSF desta semana chama-se "O patinho feio" e andou alguns dias pelo Amadora-Sintra. Ouviu doentes fartos de esperarem nas urgências, idosos acamados que não têm outro sítio para onde ir, mas também mães e pais que agradecem o apoio que o hospital dá aos filhos pequenos com doenças graves, numa das zonas do país com mais classes média-baixa ou baixa e muitas carências sociais.

Mais do que ler, ouça a Reportagem TSF desta semana. Um trabalho de Nuno Guedes com sonoplastia de Luís Borges

00:0000:00

O presidente da administração do Amadora-Sintra admite que a imagem que existe é que este "é um hospital complicado, difícil" e confessa que teve amigos que lhe perguntaram, quando foi convidado (e aceitou o cargo), se queria "endoidecer ou ficar internado na psiquiatria do Amadora-Sintra".

Francisco Velez Roxo acredita, aliás, que o hospital que dirige é uma espécie de "patinho feio" entre os hospitais da Grande Lisboa.

O professor de Gestão da Saúde que tenta aplicar na prática aquilo que ensina aos alunos na universidade fala numa falta de planeamento que gerou a situação atual de um hospital num edifício mal pensado, até mal construído, com vários equipamentos obsoletos e a precisar de algumas dezenas de milhões de euros de investimento (e orçamento anual) do Estado.

"Faz-se o edifício e logo se vê", sintetiza o presidente do Amadora-Sintra que hoje serve uma população de quase 600 mil pessoas, apesar de ter sido construído para apenas 250 mil e de na Amadora e em Sintra já viverem, na altura da decisão da construção, em 1985, 400 mil pessoas, algo que é explicado, na reportagem, por um dos ministros envolvidos na construção.

Um cenário de mau planeamento estrutural que se sente com especial força nas urgências regularmente notícia no pico do frio e da gripe pelas horas e horas de espera.

"Uma aventura" nas urgências

"Uma aventura", "horrível" e até "matadouro" são palavras que doentes ouvidos dentro das urgências não se coíbem de dizer ao microfone da TSF, fartos das longas demoras, regulares, mesmo fora do pico da gripe, quando têm de recorrer ao hospital que lhes calhou no Serviço Nacional de Saúde, numa zona que, ainda por cima, tem uma grave falta de médicos de família e de bons centros de saúde.

Não é por acaso que as estatísticas internas do próprio hospital dizem que 50% dos doentes que recorrem às urgências avaliaram de forma negativa o serviço.

O Amadora-Sintra é mesmo o hospital com mais reclamações no país registadas pela Entidade Reguladora da Saúde: perto de mil ou 5 a 6 em média por dia no primeiro semestre de 2016 (últimos dados disponíveis), mais 200 que o segundo nesta lista, o Garcia de Horta, em Almada, que sofre de problemas semelhantes.

Resultados complicados, mas que não levam o presidente, Francisco Velez Roxo, a deixar de dizer que o hospital fez e faz um excelente trabalho com os meios que tem, recordando, por exemplo, que tem falta de cerca de 100 enfermeiros e 50 médicos, sendo que na urgência os médicos dedicados ao serviço são apenas metade daqueles que deveriam existir.

Prematuros que passam a vida nas urgências

Servindo uma população com frequência pobre, o Amadora-Sintra apercebeu-se há alguns anos que tinha mais crianças prematuras que no resto do país.

As soluções aplicadas passaram pela criação da Unidade Móvel de Apoio Domiciliário (UMAD) que vai à casa de adolescentes, crianças e bebés muito doentes, numa parceria com a Fundação do Gil.

O principal foco, mas não único, está nos prematuros pois muitos bebés passavam a vida nas urgências, como explica Margarita Lopez, uma enfermeira espanhola que vive há 17 anos em Portugal e que defende que o trabalho do hospital para as crianças é excelente, recordando, por exemplo, as visitas que fazem a alguns dos bairros mais complicados da região (Cova da Moura, 6 de Maio...).

Margarita tem no telemóvel várias fotografias com as famílias que ajudam e mostra uma mãe que depois de vários abortos em Angola decidiu meter-se num avião e vir para Portugal ter o seu filho. Naturalmente acabou no sítio onde tinha família... e no Amadora-Sintra.

A filha nasceu bem, mas a mãe estava ilegal, sem visto e teria de pagar os cuidados de saúde, num caso social grave que foi ajudado pelo hospital.

A enfermeira recorda que um dia a mulher apareceu no serviço a pedir ajuda pois há dois dias que não comia nada.

"Djam nasci e agora?"

Além da UMAD, que leva na parte detrás da carrinha-ambulância sacos com comida oferecida por uma cadeia de supermercados para o hospital dar às famílias mais carenciadas, todas as mães e pais que têm um filho no Amadora-Sintra levam para casa um pequeno livro e um DVD em português, crioulo e russo.

O vídeo em português é apresentado por Catarina Furtado; a versão em crioulo pela cantora Sara Tavares; e a edição em russo tem a voz e a cara de Mariana Ceban, uma enfermeira russa que trabalha no bloco de partos.

Este livro e este vídeo mostram duas coisas: a diversidade de quem é servido pelo hospital, onde ao contrário de outras zonas do país não há falta de bebés; mas também as carências e as muitas dificuldades de grande parte dos que vivem na Amadora e em Sintra.

O vídeo tem três nomes: "Nasci. E agora?"; "Djam nasci e agora?" em crioulo; e algo num alfabeto cirílico russo impossível de repetir no teclado onde escrevemos esta reportagem.

O "livro de instruções do bebé" surgiu, como explica a coordenadora dos cuidados intensivos neonatais, Rosalina Barroso, porque quem trabalhava no hospital se apercebeu que quase metade das crianças que ali nascem têm pelo menos um pai ou mãe estrangeiro com quem a comunicação era muito complicada.

Uma falha no diálogo que dificultava a vida a famílias que não sabiam bem como cuidar dos filhos naqueles problemas comuns a todos os bebés como as cólicas ou a melhor forma de dar de mamar.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de