Saúde

Vacinação: contra factos (e números) não há argumentos

Do medo da doença ao medo da vacinação. Números e factos para quem tem dúvidas sobre se deve ou não vacinar os filhos, no dia em que a Assembleia da República discute uma petição pela obrigatoriedade das vacinas do Plano Nacional de Vacinação.

Depois de mais de duas décadas sem casos registados em Portugal, e da doença ter sido considerada erradicada, uma rapariga com 17 anos, que não estava vacinada, morreu vítima de sarampo .

A petição pela obrigatoriedade das vacinas que já constam do Plano Nacional de Vacinação, que esta quinta-feira vai a discussão no Parlamento, deu entrada na Assembleia da República a 23 de abril de 2017, dias depois da morte da jovem, e desde então recolheu mais de 12 mil assinaturas.

Há apenas duas vacinas obrigatórias no Programa Nacional de Vacinação - contra a difteria e contra o tétano. "Não é possível haver vacinação obrigatória, mas é muito importante que muitos portugueses percebam a importância da vacina", defendeu em março deste ano Marcelo Rebelo de Sousa .

E esta é a importância da vacina: a cada 20 segundos, uma criança morre de uma doença que podia ter sido prevenida. Porquê? Porque uma em cada cinco crianças em todo o mundo continuam a não ter acesso a vacinas.

São números do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, que estima que a vacinação evite a morte de 2,5 milhões de crianças com menos de cinco anos, todos os anos.

Mas nos países onde o acesso a vacinas é garantido e gratuito, ainda há pais que escolhem não vacinar os filhos.

O "crescimento da hesitação perante a vacinação" é o culpado por "surtos de sarampo perfeitamente evitáveis", condenou a Comissão de Saúde do Parlamento Europeu em 2017, ano em que foram registados 14.451 casos de sarampo na Europa - três vezes mais do que em 2016.

Assim nasceu um novo medo

Porquê hesitar em vacinar? Desconfiança e descrédito são os principais motivos: a ideia de que a vacinação é uma necessidade criada pela indústria farmacêutica para obtenção de lucro; de que o risco de contrariar certas doenças é pequeno; de que as pessoas vacinadas também ficam doentes; de que a melhoria das condições de higiene e outros fatores contribuíram mais para a erradicação das doenças do que as vacinas; de que um sistema imunitário forte dispensa a imunização com recurso a fármacos e químicos. No fundo, a ideia de que, por um motivo ou outro, as vacinas são perigosas.

Os movimentos antivacinação, com maior expressão no Reino Unido e Estados Unidos, associam as vacinas ao autismo, uma perturbação do desenvolvimento motivada por inúmeros fatores e sem uma causa específica conhecida.

Tudo começou em 1998, quando o ex-cirurgião britânico Andrew Wakefield divulgou um estudo que ligava a vacina VASPR (antissarampo, parotidite e rubéola) ao aparecimento do autismo.

Depois de nenhum outro cientista ter chegado às mesmas conclusões, em 2010 foi provado que o médico falsificou os dados que sustentavam as suas alegações, motivado por um conflito de interesses económico.

O estudo foi desacreditado e Andrew Wakefield perdeu a licença para praticar medicina. No entanto, continuou a defender publicamente a não vacinação, tendo publicado dois livros sobre o assunto que venderam milhares de cópias.

Há milhares de estudos sobre a eficácia das vacinas , mas nunca a comunidade científica conseguiu encontrar uma relação direta entre a vacinação e o autismo ou morte prematura.

Outro argumento dos opositores à vacinação prende-se com a ideia de que o potencial benefício da imunização é inferior ao potencial risco individual. Se a maioria das pessoas está vacinada, que diferença faz apenas uma sem as vacinas em dia?

A decisão de vacinar ou não as crianças pode ser, aos olhos da lei, uma liberdade individual, mas afeta toda a comunidade. Isto porque as pessoas não vacinadas comprometem a chamada "imunidade de grupo". Podem ser um foco de infeção para quem tem um sistema imunitário fraco ou para quem não pode, de todo, ser vacinado e mesmo espoletar a propagação de doenças já erradicadas.

Em Portugal, no caso de os pais estarem em desacordo relativamente à vacinação dos filhos, a decisão pode ser tomada por um juiz. E pode mesmo ser a criança, ainda que menor de idade, a levantar a questão judicialmente.

Um retrocesso civilizacional

Margarida Vaqueiro Lopes, a primeira signatária da petição esta quinta-feira em debate, sublinha a muito alta taxa de vacinação que existe em Portugal (cerca de 95%), mas diz não querer voltar a temer doenças como a tuberculose, o sarampo, a tosse convulsa ou a escarlatina.

Os ganhos em saúde obtidos com a vacinação não um dado adquirido, lembram Graça Freitas, Diretora Geral da Saúde, e Ana Leça, pediatra, Vice-Presidente da Comissão Técnica de Vacinação, num artigo de opinião .

As vacinas são "submetidas a avaliações de eficácia e de segurança muito rigorosas", mas a hesitação em vacinar continua a constituir "um grande desafio para os profissionais de saúde", notam as especialistas.

Doenças possíveis de prevenir voltaram a contagiar milhares de pessoas nos últimos anos. Através de um mapa interativo (que pode consultar clicando na imagem abaixo), podemos analisar a propagação de novos surtos de sarampo, parotidite, rubéola e pólio entre 2008 e 2018.

Segundo dados do Serviço Nacional de Saúde, entre 1956 e 1965 foram registadas em Portugal 2.625 mortes por tétano (em 3.923 casos), 873 mortes por tosse convulsa (em 14.429 casos registados), 316 mortes por poliomielite (em 2.723 casos), e 1.457 mortes por difteria (em 19.100 casos).

Entre 2006 e 2015, houve 15 mortes por tétano (em 33 casos), 8 mortes por tosse convulsa (em 880 casos), zero mortes por poliomielite e zero mortes por difteria, doenças que também não registaram nenhum contágio.

São 5.271 mortes antes da implementação do Programa Nacional de Vacinação e 23 mortes depois. A diferença está na picada de uma agulha.

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