Médicos e enfermeiros chumbam Serviço Nacional de Saúde

Bastonários dão nota negativa ao atual Serviço Nacional de Saúde (SNS). Médicos e enfermeiros sublinham que não pode valer tudo para o "défice zero" e sublinham que são precisos mais de 35 mil profissionais para dar uma resposta adequada.

"Se quiser saber qual a perceção que os profissionais de saúde têm do atual estado do SNS, é evidente que a classificação será abaixo de 5, não terá nota positiva". Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos é taxativo, como também o é Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros: "Se tiver de fazer uma diferenciação para dar uma nota aos profissionais de saúde, de 0 a 10, dou 10. Se tiver de dar uma nota aos equipamentos, hospitais, paredes, estrutura, organização, recursos, teria de dar um 3".

Chumbo ao SNS cujos profissionais estão em modo "grito de alerta". Ainda esta terça-feira, as duas ordens profissionais sublinharam que, para um funcionamento adequado, o sistema teria de contratar mais de 35 mil profissionais. Destes, mais de 5 mil são médicos. Isto numa altura em que as demissões dos diretores de serviço em Vila Nova de Gaia ainda estão na memória, como também prometem ficar na memória as mais de 2000 cirurgias já adiadas devido à greve dos enfermeiros em curso. Mas vamos por partes...

Além do limite

"Hoje lidero uma classe que ultrapassou o seu limite", conta à TSF a bastonária da Ordem dos Enfermeiros. Com a atual greve em curso em 5 blocos operatórios do país, Ana Rita Cavaco explica que o "copo já transbordou" porque "em vez das 35 horas, [os enfermeiros] cumprem 50 e 60 horas por semana, o Estado deve-lhes milhares de horas em horas extraordinárias que eles nem são obrigados a fazer, cumprem turnos seguidos de 12 horas, muitas vezes não conseguem ir à casa de banho, almoçam às 5 da tarde quando têm tempo, estão muitas vezes nos serviços sozinhos onde há situações, que já presenciámos, de 1 enfermeiro para 40 doentes".

O cenário apresentado pela bastonária não é animador e tem uma explicação: "o número mínimo de enfermeiros para manter uma dotação segura, ou seja, cuidados em segurança e que variam de serviço para serviço". "A média dos países da OCDE é de 9,2 enfermeiros por 1000 habitantes, a média em Portugal é de 4,2", afirma. Além disso, Ana Rita Cavaco sublinha que há hospitais em Portugal com quase tantos médicos como enfermeiros. "Esse número deveria ser de um médico para quatro enfermeiros", explica.

Questionada se não há nenhum local que cumpra esse rácio, Ana Rita Cavaco diz que "os únicos serviços que, ainda assim, vão cumprindo são as unidades de cuidados intensivos". No entanto, fica o alerta: "não é em todos os hospitais".

"O hospital de Cascais [que venceu um prémio de desempenho atribuído pela consultora IASIST] tem situações em que tem um enfermeiro sozinho no turno da noite. Isto não é aceitável do ponto de vista da segurança das pessoas", realça Ana Rita Cavaco.

Ameaças de demissões? Não são pontuais!

Estimando que faltam mais de 5 mil médicos ao SNS, Miguel Guimarães sustenta a matemática com os gastos da tutela. "Em 2017, o Governo gastou com a contratação de serviços médicos através de empresas prestadoras de serviços mais de 100 milhões de euros. Por outro lado, na remuneração média mensal dos médicos, cerca de 21% são horas extraordinárias. No caso da contratação externa, se transformássemos isso em contratação de médicos para os diversos serviços que têm deficiências a nível do país e se transformássemos as horas extraordinárias na contratação de médicos também, significava que o SNS precisaria de mais de 5 mil médicos de diferentes especialidades, em várias áreas, incluindo os cuidados de saúde primários", diz o bastonário da Ordem dos Médicos.

Fazendo uma avaliação negativa da perceção que os profissionais têm do SNS, Miguel Guimarães é mais generoso na avaliação que faz à própria medicina. Em termos práticos, o médico nota que, há 15 anos, quando operava uma doente com incontinência urinária de esforço, demorava cerca de uma hora na intervenção cirúrgica. À época, era feita uma incisão abaixo do umbigo de cerca de 10 cm, a doente ficava internada cerca de 10 dias, a taxa de sucesso era de 60% e a taxa de complicações andava perto dos 10%. "Hoje a cirurgia demora 5 minutos, a doente não precisa de ficar internada, pode ser feito em ambulatório, a taxa de sucesso anda perto dos 97% e a taxa de complicações é inferior a 1%", compara.

"A medicina evoluiu de tal forma que arrasta tudo à sua frente", diz o bastonário ao lembrar que o SNS tem de acompanhar esta evolução. "Não é só a questão das greves, é a questão dos diretores de serviço que apresentam a sua demissão. Neste momento, tenho conhecimento de outros hospitais do país, nomeadamente em Lisboa, de pessoas que estão na disposição de apresentar a demissão, dar um grito de alerta, dizer que alguma coisa está mal e que é preciso uma intervenção nestes hospitais", afirma Miguel Guimarães.

Questionado, o representante dos médicos diz que não pode especificar de onde vêm esses "gritos de alerta". "Estas questões que têm acontecido em vários hospitais portugueses e que, infelizmente, o anterior ministro da Saúde e o atual primeiro-ministro consideraram ser situações pontuais, não são situações pontuais. É mentira", acusa o bastonário. "Isto acontece em praticamente todos os hospitais, é uma questão de mais ou menos coragem dos profissionais de saúde para assumirem as situações. Há mesmo pessoas a apresentar demissões ou a ameaçar, não porque se queiram demitir das funções de direção, mas porque querem dar um grito de alerta. Vou tendo estes reports regularmente, de norte a sul do país. Infelizmente, continua a acontecer", lamenta.

Défice zero

Em entrevistas separadas, os dois bastonários repetem a mesma ideia: o governo não pode estar fixado no défice em detrimento de outras questões. "Entendo que não pode valer tudo para o défice zero, nesse défice zero estão vidas de pessoas", alerta Ana Rita Cavaco. Já Miguel Guimarães considera que áreas como educação, saúde ou justiça têm de funcionar e, para isso, o défice não deve ser critério principal. "Não podemos apenas estar fixos no défice zero, que é o que está a acontecer atualmente. Estamos a concentrar tudo naquilo que são as finanças e a economia, não pode ser. Ao não se investir, as situações vão-se agravando", avisa o bastonário dos médicos.

Ambos fazem valer a ideia de que há uma discussão que o país tem de fazer e muito trabalho pela frente. Para um SNS de boa saúde, a prescrição de Miguel Guimarães passa por repensar todo o sistema e capacitá-lo. Lembrando que o título do livro de João Semedo e António Arnaut (Salvar o SNS) "não aparece por acaso", Miguel Guimarães diz que é preciso meter mãos à obra para que o SNS cumpra "aquilo que é o seu código genético". "Ser um serviço que confere dignidade às pessoas, que confere solidariedade àquilo que existe no nosso país e um serviço que tenha equidade naquilo que é o acesso dos portugueses aos cuidados de saúde", conclui. Depois do trabalho, nova avaliação virá. Para já, é a negativa a aparecer na pauta.

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