"O autismo não está na cara." Mitos e verdade sobre a Síndrome de Asperger

As pessoas com Asperger são mais inteligentes? Só os rapazes têm esta condição? Os adultos não têm Asperger? Todos os mitos sobre a Síndrome de Asperger desconstruídos por Rita Nolasco e pela psicóloga Ana Isabel Aguiar, na TSF.

"Tem graça... não pareces nada autista" é a frase que Rita Nolasco mais vezes ouve quando diz a alguém que tem Síndrome de Asperger. A editora de imagem, casada e mãe de três filhas, foi diagnosticada com esta perturbação do espetro do autismo aos 40 anos, depois de sofrer durante décadas por não perceber a origem de alguns dos seus comportamentos e pensamentos.

Foi para explicar à sociedade que "o autismo não está na cara" que, em 2016, criou um blogue e uma página de Facebook para contar a sua experiência e expor as implicações desta forma diferente de estar no mundo.

No dia internacional da Síndrome de Asperger, Rita Nolasco e a psicóloga e investigadora Ana Isabel Aguiar desconstroem alguns mitos sobre esta condição de vida.

O autismo e a Síndrome de Asperger são a mesma coisa?

"A Síndrome de Asperger é uma perturbação do desenvolvimento neurológico que faz parte, hoje em dia, das perturbações do espetro do autismo, associada, normalmente ao extremo mais ligeiro desta perturbação", explica a psicóloga Ana Isabel Aguiar.

A investigadora sublinha, no entanto, que "a diferença em relação ao extremo mais elevado do autismo clássico é abismal", podendo ser comparada, por exemplo, à diferença entre "um cego e uma pessoa que precisa de uns óculos muito graduados para conseguir ver".

Apesar de as características centrais do autismo, como "as dificuldades na socialização, na comunicação, a existência de alguns comportamentos repetitivos e a dificuldade na participação do jogo do "faz de conta", no jogo simbólico", serem as mesmas, podem manifestar-se de forma diferente.

"Por exemplo, a dificuldade de socialização pode não se manifestar através do isolamento, mas sim de uma abordagem até excessiva, embora um bocadinho indiferenciada, quer se conheça a pessoa há muito tempo ou há pouco. Fazem parte, efetivamente, do mesmo tipo de condição, mas são completamente diferentes no sentido da gravidade da condição de cada um", sublinha Ana Isabel Aguiar.

Ainda assim, Rita Nolasco prefere usar a palavra autista para definir a sua condição: "As pessoas têm muito medo da palavra autismo, de ser autista e, portanto, refugiavam-se um pouco no Asperger, porque achavam que era uma coisa completamente diferente. Ser Asperger é ser autista."

As pessoas com Asperger são mais inteligentes do que as outras?

Rita Nolasco acredita que as pessoas com Asperger não são mais inteligentes do que outras, embora possam ter um conhecimento mais profundo sobre aquilo que lhes desperta interessa: "O que os autistas têm é interesses muito específicos e aprofundam muito cada um dos seus interesses, vão até ao limite, não largam sem perceberem e conhecerem. Portanto, tornam-se 'doutorados' em cada coisinha que lhes interessa."

No mesmo plano, Ana Isabel Aguiar que o interesse aprofundado por questões como " música e o cálculo" ou um fascínio particular "por elevadores ou comboios", por exemplo, existe numa percentagem significativa no universo de pessoas com Síndrome de Asperger. No entanto, isso não significa que todas as pessoas com esta condição tenham um "dom especial".

"Se na população dita normal esta percentagem é de menos de 1%, na população com Síndrome de Asperger sobe para cerca 10%, mas não nos podemos esquecer que existem os outros 90% que não têm este dom especial", esclarece.

Só os rapazes têm Síndrome de Asperger?

Há uma percentagem maior de diagnósticos da Síndrome de Asperger no sexo masculino, o que não significa que as mulheres não possam viver com esta condição.

"Quando falamos, por exemplo, no autismo no extremo mais grave do espetro, a incidência é de cerca de uma menina para quatro rapazes. Quando falamos no extremo mais ligeiro da condição, onde está incluído o Síndrome de Asperger, a diferença sobe para cerca de uma menina para oito a dez rapazes", avança Ana Isabel Aguiar.

Na visão da psicóloga, "o diagnóstico nas meninas está sub-realizado", não só porque "a expectativa em relação a uma menina não é tanto ainda que tome iniciativas, que interaja com todo aquele conjunto de estereótipos que ainda existem em relação aos rapazes, mas também porque "as meninas têm uma maior capacidade em compreender as situações sociais - muitas vezes estão muito pacatas e muito atentas ao que os outros estão a fazer e às vezes esta socialização é mais aparente do que real".

Rita Nolasco acredita que as raparigas mascaram o seu comportamento para serem aceites pelos pares: "Como não se compreendem e não se aceitam, fazem tudo para que as outras pessoas não percebam essas características de que não gostam tanto nelas próprias. Os testes de diagnóstico ainda estão feitos para o perfil masculino, deixando muitas raparigas de fora. Não existe praticamente um diagnóstico precoce, que é super importante para as raparigas não perderem a autoestima, não perderem o amor-próprio, não perderem a confiança nelas próprias."

Os adultos não têm Asperger?

"Quando eu fui diagnosticada não se falava em autistas adultos, muito menos mulheres, ou seja, eu era tudo aquilo que não era possível acontecer. Era mulher e era autista", conta Rita Nolasco que defende que esta ideia "não tem fundamento nenhum" e que os profissionais não estão muitas vezes preparados para lidarem com este tipo de situação.

"Na altura em que fui à procura de ajuda não havia terapeutas, não havia psicólogos, havia pouquíssimos psiquiatras que soubessem acompanhar uma pessoa adulta, mulher, casada, com filhos, que trabalhava, que tinha um vida aparentemente nos parâmetros que se dizem normais e que era autista. Não tem fundamento nenhum, porque as crianças crescem. As pessoas não ficam para sempre crianças e o autismo é uma condição para a vida: nasce-se autista, morre-se autista."

É precisamente por esta ideia ter subsistido durante tantos anos que Ana Isabel Aguiar defende que os profissionais estão "cada vez mais preocupados" com o Asperger nos adultos.

Para desmistificar a imagem de que os adultos não têm Asperger, a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto vai organizar, em parceria com a Elos e com a Associação Finais Felizes, uma conferência de imprensa durante a qual uma jovem com Síndrome de Asperger vai explicar como é viver com esta condição.

"Esta iniciativa serve precisamente para alertar para a necessidade de contemplar também os adolescentes, jovens e adultos e para dar voz a alguém com Síndrome de Asperger. São sempre os outros a falar por eles - ou são os pais que falam por eles, ou são os profissionais que falam por eles."

As pessoas com Asperger não gostam de estar com outras pessoas?

Sempre que está num meio confuso e com muita gente, Rita Nolasco sente-se exausta. Não porque não goste de conviver com outras pessoas, mas porque não consegue desligar-se do mundo à sua volta.

"É tudo muito estimulante. Eu capto tudo à minha volta, ou seja, há uma frase que se diz muito que é "too much information" (demasiada informação, em português). Eu não desligo de nada e, por isso, tudo me deixa exausta muito mais depressa. Estar com muitas pessoas deixa-me extremamente exausta."

Durante muitos anos, Rita Nolasco lutou contra esta necessidade de parar e de escolher ambientes mais calmos: "Eu achava que era um disparate o meu limite ser aquele, porque os outros não tinham o mesmo limite que eu. Eu sentia que não conseguia mais, mas eu tinha que dar mais, porque toda a gente conseguia dar mais. Quando soube que era autista comecei a perceber que preciso de parar, porque a minha cabeça não desliga, está sempre a captar tudo."

A investigadora Ana Isabel Aguiar explica que é um mito dizer que as pessoas com Asperger "são pessoas que se isolam, que não estabelecem uma interação".

"Isto não é verdade, no Síndrome de Asperger, muitas vezes, as pessoas evoluem para patamares onde gostam genuinamente de estar com outras pessoas, mas não, por exemplo, em grande grupo. Gostam de estar com uma ou duas pessoas, porque o conviver e o conseguir comunicar ao mesmo tempo com uma diversidade grande de pessoas é muito difícil."

Os principais obstáculos nas interações com outras pessoas prendem-se com a dificuldade em "atender às trocas rápidas na comunicação, às subtilezas da comunicação não-verbal, mas a partir de uma certa altura e, sobretudo se houver alguma intervenção, a pessoa começa a adquirir uma genuína vontade de estar com os outros, de interagir com os outros."

Rita Nolasco fez da sua história de vida um cavalo de batalha para provar que as pessoas com Síndrome de Asperger podem ter tão felizes e tão saudáveis como as pessoas neurotípicas. Pode acompanhar os passos do movimento "Claramente Autista" aqui.

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