O ortopedista que trata doentes que ninguém quer operar

Carlos Evangelista, médico ortopedista especialista em doentes com mais de 65 anos, defende que todos os pacientes têm direito a tratamento médico de qualidade, independentemente da faixa etária.

É pelos corredores do Hospital de Sant'Ana que todos os dias o médico Carlos Evangelista vai encontrando pacientes. Durante as verificações de rotina vai dando os bons dias a quem passa e visita quem ainda está de cama. A primeira paciente que encontra está deitada a ler A Missão de Ferreira de Castro e levanta os olhos quando Carlos Evangelista refere que tem 96 anos. "São 95", corrige e acrescenta que "com pernas partidas não tem graça".

Caiu devido a um acidente isquêmico transitório (AIT), uma alteração da função cerebral causada por um bloqueio temporário do fornecimento de sangue ao cérebro. "Dou por mim já no chão", contou.

Carlos Evangelista não é o ortopedista comum. É especialista em doentes maiores de 65 anos. "A ortopedia geriátrica é um conceito que tenho vindo a defender há 10 anos a esta parte e é um conceito de dar aos seniores a melhor qualidade de vida. Nós defendemos que, independentemente da idade, qualquer pessoa tem direito a ter qualidade de vida. Aquele conceito que existia que 'a pessoa tem 80 anos, já não vale a pena' é errado. Nós hoje vamos durar até aos 90. Hoje podemos durar até aos 100", defendeu.

O ortopedista não gosta de trabalhar com prazos de validade e é conhecido no meio por dar uma oportunidade a quem não a encontra noutros sítios. "Nós aqui começamos a operar pessoas que ninguém queria operar. Nós hoje operamos uma senhora com 103 anos, caiu e fez uma fratura do colo de fémur", disse.

Ninguém me opera porque eu sou velha

Carlos Evangelista recorda outra paciente que o marcou. "Ela, com 90 anos, subiu ao meu consultório que, na altura era num segundo andar, com duas canadianas, arrastou-se até lá cima e chegou lá cima e disse: doutor, ninguém me opera porque eu sou velha".

A paciente foi operada, recebeu duas próteses das ancas e hoje é uma mulher autónoma. "É a professora Clotilde e até há pouco tempo continuava a dar, uma vez por semana, aulas de ioga no Ginásio Clube Português".

Cerca de 50% das pessoas que procuram o Centro de Ortopedia Geriátrica de Sant'Ana têm idade superior a 65 anos e por isso é preciso tratar mas também acompanhar com cuidado as pessoas de grande idade. Carlos Evangelista quer sobretudo que encarem a vida com vontade de viver. "As pessoas vivem sozinhas e chegam um bocadinho aquela conclusão que eu já vivi tanto, já não tenho nada para fazer, já não vale a pena. Nós temos esta obrigação de fazer com que as pessoas sejam felizes com o pouco que têm e com a vida. Dentro das nossas possibilidades, temos que tentar implementar esta vontade de serem felizes", defendeu.

Mudar o paradigma nos hospitais

Carlos Evangelista lamenta que existam dois pesos e duas medidas quando se tratam doentes mais velhos e defende que é preciso mudar a forma como se olha para a ortopedia geriátrica nos hospitais. "As equipas têm de ser coesas, as equipas têm de ser rápidas, as anestesistas têm que estar preparadas para este tipo de situação, os cirurgiões também têm de ser eficazes, e depois as equipas de fisioterapia, de reabilitação. A própria alimentação, tentar dar poderia energético porque elas estão debilitadas por natureza. Os hospitais têm de modificar o seu paradigma".

O médico vai mais longe e lembra que a medicina está a mudar garante que vai cada vez mais apostar na prevenção para evitar a doença. "Como diz o professor Pinto Coelho: eu quero chegar novo a velho. Nós temos de nos preparar para chegarmos mais longe possível, o melhor possível", afirmou.

Para isso também é preciso que a população mais velha colabore. Carlos Evangelista avisa que é preciso continuar a praticar exercício apesar da idade. "É fundamental a pessoa andar, é fundamental a pessoa fazer algum exercício físico. Não temos todos que ir para o ginásio e fazer mil flexões dia sim, dia não".

A prestação de cuidados ortopédicos a maiores de 65 anos, a ortopedia geriátrica, é o tema central do congresso que vai decorrer no Centro de Congressos do Estoril a 20 e 21 de setembro. É um encontro único no mundo e que decorre pela sexta vez. "O congresso este ano tem mais uma particularidade, ou seja, na quinta-feira à tarde, vamos ter quatro cursos: um curso para enfermagem geriátrica, um curso para fisioterapia geriátrica, um curso para clínica geral e familiar geriátrica e, pela primeira vez, vamos fazer um curso para personal trainer geriátrico".

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