Renascidos do cancro: histórias de quem venceu a doença do século

O cancro é cada vez menos uma sentença de morte. Em Portugal, o número de sobreviventes chega aos 500 mil e deverá aumentar, nos próximos anos. Mas quem sobrevive, transforma-se numa pessoa diferente. As marcas da guerra contra a epidemia do século são o tema da Reportagem TSF esta semana.

Nem o zunido da ventoinha perturba o silêncio na casa de Andreia Nunes, num pacato bairro residencial na Maia, junto ao Parque dos Amores. Mãe de três filhos, Andreia assume-se como uma "pisca-táxis", tantas são as voltas de carro para distribuir as crianças pela escola e por várias actividades extra-curriculares. Depois da ronda matinal, Andreia recolhe ao sossego da casa, para uma sesta obrigatória, sempre com a ventoinha ligada. Desde que teve cancro, está sempre cansada e com calores.

O primeiro cancro na tiroide surgiu aos 30 anos. Foi "fácil" de resolver. Quatro anos depois, grávida da filha mais nova, um novo tumor na supra-renal acabaria por se esconder até ao parto. Quando foi extraído, pesava cerca de 2 quilos. "Estava grávida da bela e do monstro", brinca Andreia. Venceu mais uma batalha, depois de cinco dias em coma, tratamentos de quimioterapia, radioterapia e uma cicatriz de 72 agrafos. "Estive quase quatro meses sem pegar na minha filha", recorda Andreia, a quem uma metástase no pulmão voltou a levar ao bloco operatório, de onde saiu com menos seis centímetros de pulmão e uma dor crónica na mama direita. Hoje, com 39 anos e um sorriso tranquilo e bem-disposto, sente-se "uma sobrevivente, sem dúvida alguma, porque depois de dois cancros e uma metástase, um deles raríssimo, costumo dizer que sou uma ave rara. Até já deixei crescer as unhas dos pés!"

Entre a medicação para a dor crónica, a cortisona, a quimioterapia oral, o magnésio, a tiroide e os anti-depressivos, Andreia chega a tomar 21 comprimidos por dia. Engordou 45 quilos, pesa mais de 110, e quando viaja de férias, guarda na mala uma declaração médica para justificar porque "levo comigo uma farmácia". A doença travou ainda um sonho de infância. "Adorava a série "Uma casa na pradaria" e queria ter um rancho de filhos. Ainda tinha esperança antes da metástase no pulmão", mas está agora conformada em ficar-se pelos três filhos. Além disso, a vida sexual deixou de ser o que era. "Costumava dizer que eu era uma "maluca" e o desejo diminuiu. Também tem a ver com as hormonas, às vezes hemorragias durante muito tempo ou deixar de ter (hemorragias). É como um carro, depois de arrancar, as coisas funcionam, mas nem sempre estou predisposta a deixar arrancar."

O sexo já não é o que era

Mais de metade dos sobreviventes de cancro tem disfunções sexuais. A perturbação do desejo, a dor à penetração e a disfunção eréctil são as mais prevalentes, adianta a especialista em oncosexologia e coordenadora da unidade de psiquiatria do IPO de Lisboa, Lúcia Monteiro. Há cerca de dez anos, o tema deixou de ser tabu: "como se avisa que o doente vai ter vómitos ou perda de cabelo, por exemplo, avisa-se que deve sempre usar o preservativo, porque perde imunidade, diminui as defesas e está mais susceptível a infecções". Por outro lado, "no dia da quimioterapia e até dois ou três dias depois, os citostáticos, ou seja as drogas da quimioterapia, passam nos fluídos vaginais e no esperma. Portanto, há risco de toxicidade do parceiro. A regra é usar sempre o preservativo durante o tratamento de quimioterapia e até 3 meses a seguir", sublinha Lúcia Monteiro. Para elas, outra recomendação: se tiver dor na relação sexual, "deve fazer umas massagens ou aplicar um lubrificante ou um creme, porque com a quimioterapia, a vagina não lubrifica como o habitual".

Pioneira nesta área em Portugal, a clínica de oncosexologia do IPO de Lisboa começou as consultas em 2014. Por mês, são cerca de 3 mil doentes, sobreviventes e familiares referenciados só no Instituto em Lisboa. Os problemas de fertilidade são outra preocupação dos doentes que recorrem à consulta de "oncosex". "As mulheres que fazem radioterapia pélvica têm um risco imenso de ficar inférteis", explica Lúcia Monteiro. Quanto aos homens em idade fértil, todos os que vão fazer quimioterapia, fazem preservação de esperma. "É uma coisa fácil de fazer, faz-se em 24 horas e o homem pode começar o tratamento", acrescenta a responsável de oncosexologia.

O IPO de Lisboa apoia outras unidades hospitalares nesta vertente e promove cursos bianuais de "oncosex", cada vez mais concorridos. Lúcia Monteiro lembra por exemplo, que não havia informação sobre as repercussões sexuais para as doentes de cancro da mama. "Todas as mulheres com cancro da mama têm uma alteração da vida sexual, tem de haver essa informação às doentes e não havia".

Um corpo com marcas de guerra

Os dados da Liga Portuguesa Contra o Cancro apontavam em 2017, para meio milhão de sobreviventes de cancro em Portugal, um número em crescimento e que incluirá cada vez mais jovens adultos, com uma expectativa de vida longa, mas com sequelas da doença oncológica. Entre os diferentes tipos de cancro, o da mama é um dos que apresenta uma das taxas mais elevadas de sobrevivência, acima dos 87%, cinco anos após o diagnóstico. Inês Brito, uma dessas sobreviventes, não se cansa de repetir a importância da prevenção. Quando sentiu o nódulo tenebroso, há cinco anos, não perdeu tempo. Entre o diagnóstico, a cirurgia e os tratamentos, "correu tudo muito bem. Não foi necessário retirar nenhuma parte da mama nem fazer o esvaziamento da axila. Portanto, para mim, (o cancro) não é de todo, sinónimo de morte".

Com 39 anos e dois filhos gémeos, Inês considera-se uma guerreira, numa luta desigual, que lhe deixou marcas no corpo e na possibilidade de repetir a maternidade. Todos os meses, tem encontro marcado no IPO de Lisboa, para uma injecção que lhe provoca a menopausa precoce e "nesta altura, o tratamento não é compatível com um terceiro filho". Inês costuma dizer na brincadeira, que teve tudo a que tem direito: quimioterapia, radioterapia e hormonoterapia. Perdeu a auto-estima quando se olhava ao espelho, sem cabelo, sobrancelhas e pestanas, "embora os meus filhos me continuassem a dizer que eu estava linda!"

A falta de auto-estima e o distress, um misto de stress e depressão, afecta 25 a 30% dos doentes oncológicos, afirma a psicóloga Ana Maria Morais, da Clínica Multidisciplinar da Mama do IPO de Lisboa. A especialista em psico-oncologia admite que o cancro ainda esteja associado à vergonha e à ideia de morte, porque "a doença é sempre uma perda de poder". No entanto, como o corpo, "a memória e a atenção são ginasticáveis. Há exercícios de recuperação como as palavras cruzadas, as sopas de letras, a memória da novela, contar o que se viu ou se leu no livro" que ajudam a minorar os efeitos dos tratamentos.

Foi por sentir que "a cabeça não estava a funcionar" que Cristina Alves quis voltar ao trabalho, nove meses depois de ter ficado doente. Professora de Geometria Descritiva num colégio no Porto, o mundo de Cristina mudou em Setembro de 2012. O carcinoma no pulmão dava-lhe uma taxa de sobrevivência entre os 5 e 7%. Mais de cinco anos depois, "aqui estou", declara com uma gargalhada. Fintou o cancro, mas nunca mais foi a mesma. Vive numa "fadiga inexplicável, o cérebro fica lento, a capacidade de raciocínio é lenta, sentimo-nos completamente emburrecidas". A memória ressente-se, a tal ponto que os filhos "têm de deixar mensagens escritas quando não vêm jantar. É uma memória de peixinho dourado".

Quando regressou ao trabalho, Cristina trocava o nome dos alunos. "Então, comecei a tratá-los com "minha amiga como está? Como está a cara mais linda?" Ainda hoje, não consegue lembrar-se de respostas a algumas perguntas dos alunos o que a obriga a trabalhar "três vezes mais". As dificuldades no local de trabalho levaram Cristina Alves a lançar a petição "A favor do justo tempo de serviço do sobrevivente oncológico", que defende horários reduzidos, sem penalizações, para quem já sofreu de cancro. A petição, entregue no ano passado na Assembleia da República, tem actualmente mais de 30 mil assinaturas.

Apoios precisam-se

O cheiro a panquecas enche a casa de Pedro Morais, enquanto o antigo cozinheiro prepara o pequeno-almoço para a mulher. As bananas, os mirtilos e o xarope de ácer já estão na mesa, mas Pedro não come, "porque não tenho dentes". Diagnosticado em Outubro de 2016, com um carcinoma no pavimento da boca, Pedro esteve 16 horas no bloco operatório. "Cortaram-me a cara toda, tiraram-me o maxilar, fizeram a reconstrução com o osso da perna. A língua foi fora, usaram a pele da perna para reconstruir a língua". A descrição é minuciosa, mas lenta. Algumas palavras são pouco inteligíveis. Pedro conta que "resmungava com o gato, ninguém percebia nada do que eu dizia". A mulher, Raquel Moreira, ajuda no relato: "no início, mal conseguia beber água. Era alimentado com uma sonda". Perdeu mais de 40 quilos, há dois anos que não come alimentos sólidos. Ainda não sente o queixo, mas "consigo dar beijinhos", garante Pedro, enquanto Raquel sorri: "sempre lhe roubei muitos (beijinhos) no início e hoje em dia, ele dá-mos. Porque senão, cobro-os".

Durante quatro meses, Pedro Morais fez terapia da fala, com exercícios que incluíam listas de palavras como "casa, caracol, gato, para fazer força com a língua, exercícios de lateralização da língua, outros para elevar a laringe", explica a terapeuta Augusta Heleno. A equipa no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia é composta por três terapeutas da fala, para um número cada vez maior de doentes com tumores na cabeça e pescoço. "Existem 3 mil casos novos por ano e mata três pessoas por dia", adianta a terapeuta Cláudia Lima. "Em termos estatísticos, em 2020, haverá uma maior incidência na faixa etária entre os 30 e os 40. Se o diagnóstico for precoce, aumenta a sobrevida em 80%". Com mais sobreviventes, aumenta a necessidade de apoios.

Desempregado, sem forças para trabalhar numa cozinha, Pedro aguarda luz verde do Serviço Nacional de Saúde para avançar com a verba que lhe permitirá colocar implantes dentários. "O único apoio que tenho tido é da reinserção social. De resto, é dos meus pais, ela (Raquel) e os meus sogros."

A colocação de dentes é "uma das coisas que devia ter apoio. Não é um tratamento estético, mas um tratamento necessário para poder voltar a comer e para que não haja perigo de uma nova lesão", defende Sara Neves, a quem foi detectado um cancro na língua, em 2014.

Na mesa contra o cancro

Antiga professora de Educação Física, Sara teve de mudar de profissão após o cancro. Aos 40 anos, organiza eventos e mudou também o estilo de alimentação. "Não bebo sumo de laranja, não como kiwi, tomate, tudo o que seja ácido. Picantes nem pensar, e estou a falar por exemplo do alho. Não falo em malagueta, porque isso é impensável". Se fugir à dieta, a língua incha, fica mais sensível, "como se estivesse em carne viva, mas há tantas opções. Temos é de adaptar-nos a uma nova condição". Curiosa e auto-didacta na cozinha, Sara foi convidada este ano, a apresentar uma receita para a campanha europeia contra o cancro na cabeça e pescoço. Escolheu uma torta de alfarroba com manteiga de amêndoa, porque "gosto muito de comer e não temos de deixar de comer por exemplo, um doce".

As mudanças na alimentação são das mais comuns nos sobreviventes de cancro. Devido à radioterapia agressiva, Cristina Alves ficou com o "esófago queimado". Mais de cinco anos depois dos tratamentos, "ainda vomito todas as semanas, três ou quatro vezes. Se como muito - e muito é o normal para uma pessoa -, metade sai fora". A psiquiatra do IPO de Lisboa, Lúcia Monteiro, salienta que "os nossos doentes ficam sempre diferentes". Algumas sequelas "são óbvias e definitivas, como mutilações, cicatrizes, perdas funcionais: alimentação, respiração, linguagem".

Há também marcas emocionais e "tudo isto marca a pessoa. Mesmo que recuperem todas as funções físicas e psicológicas, ficam sempre pessoas diferentes".

Sentenças de vida

Patrícia gosta de pensar que é uma médica mais humana, por ter ultrapassado uma leucemia mieloide crónica, entre os 14 e os 17 anos. Orgulha-se de ter sido a primeira doente em Portugal a receber um transplante do pai, no ano 2000. Esteve três meses em isolamento e quando voltou a comer "um pastel de nata, um ovo estrelado, umas castanhas, foi quase um renascer", como se visse a "vida de maneira diferente". Agora com 35 anos, Patrícia não guarda sequelas do cancro, mas mantém a mágoa de lhe terem recusado um seguro de vida, a três dias da escritura da primeira casa, quando confessou que tinha tido uma doença oncológica. Talvez por isso, guarda segredo sobre o passado e também pede reserva quanto ao seu apelido. Não pensa muito na leucemia, mas a sombra está lá: "quando vou fazer análises, uma vez por ano, começo a ficar um bocadinho angustiada. Será que voltou? Será que estou a ficar doente outra vez? É uma ansiedade que acaba por nos acompanhar, pensar que existe uma espada lá em cima. O cancro pediátrico tem cada vez mais hipóteses de cura, mas não sabemos em que lado da percentagem vamos cair".

Andreia Nunes partilha da ideia de guilhotina. "Estamos sempre a olhar para cima e a pensar quando vais cair?" Por isso, "vivo o dia-a-dia como se fosse o último. Não deixo nada por fazer ou dizer, já não estou para fazer fretes".

Renascidos, o cancro é para estes sobreviventes uma nova sentença de vida, porque como sublinha Pedro Morais, "não é o cancro que nos vai matar. Dá-nos certas limitações, mas estamos vivos". Ou como resume Cristina Alves, "há mais vida para além do cancro. Sou feliz e a vida é boa!".

(A jornalista escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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